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Um senhor cartola

14 de julho de 2009 - Por Comunità Italiana

{mosimage}Todo time de futebol sonha em ter um Kaká em campo. Alguns já se contentam em ter, nos bastidores, um razoável administrador que se entenda com as finanças do clube. Um, em especial, convocou logo um ex- secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda do Brasil para sair da crise. Em janeiro, oeconomista Luiz Gonzaga Belluzzo, foi eleito presidente do Palmeiras.

Aos 67 anos, ele é sócio do clube desde a década de 50, mas seu envolvimento com o “Verdão” vem desde criancinha. Neto de italianos do Vêneto e da Calábria, seu pai foi diretor do departamento jurídico do clube de São Paulo que, no mês passado, completou 95 anos. O ex-Palestra Itália é um dos clubes com maior número de sócios do Brasil, cerca de 15 mil, e é a equipe brasileira com o maior número de títulos nacionais conquistados. Tanta tradição não impediu o vexame do rebaixamento para a segunda divisão, em 2002.

Ex- diretor de Planejamento do Palmeiras, Belluzzo foi um dos articuladores da parceria com a Parmalat, nos anos 90, um dos períodos áureos do clube. Agora, ele sai do banco de reservas e encontra o time já de volta à elite do futebol, mas longe de ter se livrado de crises. E se currículo de presidente ganha jogo, o Palmeiras não terá mais adversários. Considerado um dos pais do plano Cruzado, o advogado e economista Belluzzo é conselheiro político do presidente Lula; membro do Conselho de Administração da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F); fundador da Facamp (Faculdades de Campinas); ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 1985 e 1987 e ex-secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo.

— A seleção da Itália vai jogar na Arena Palestra Itália (na Copa do Mundo) de 2014 porque 1914 é o ano de fundação do Palestra Itália. Ou seja, será o ano do centenário do clube — afirma Belluzzo, em entrevista à Comunità.

 

ComunitàItaliana – Quando e como surgiu a intenção de se candidatar à presidente?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Nunca tive a pretensão de ser presidente. Issoé uma coisa recente, por conta das circunstâncias. O time foi paraa segunda divisão, houve uma crise a partir de 2002 e eu me envolvimais na política do clube. Fui diretor de planejamento na gestão do Affonso Della Monica e os conselheiros sugeriram que eu me candidatasse. Eu esperava vencer sim, mesmo depois de ter perdido quando me candidatei em 2003. Porém, venci por uma margem de 15 votos, que não é muito, mas é razoável em se tratando do Palmeiras.

CI – Que tipo de problema na administração do clube o senhor encontrou ao assumir o cargo de presidente?
LGB –
uma parte pequena porque estou Muitas coisas me incomodam, como a falta de uma estrutura administrativa mais compatível com um clube contemporâneo, moderno. Eu via muita deficiência e confirmei essa minha suspeita como presidente. Estou, aos poucos, tentando corrigir isso. A política do clube é levada, muitas vezes, de uma maneira irracional. Estou tentando também eliminar certas separações que existem lá e que não fazem muito sentido. Nãoque eu queira eliminar a oposição porque isso não é bom. Quero quea oposição tenha uma visão crítica mais apurada, mas que sejauma coisa mais racional. E, finalmente, a situação financeira dos clubes brasileiros em geral é muito delicada. A do Palmeiras não é diferente, mas é muito melhor do que a média. O Palmeiras tem uma dívida de 37 milhões de reais. O faturamento é de 120 milhões de reais, mais ou menos. É pouco se compararmos com outros times. Oclube é um dos que menos devem. Uma parte é dívida bancária, outra é dívida com outros clubes ou com jogadores que saíram do clube. Tem as dívidas fiscais, mas essa é evitando deixar de pagar imposto.

CI – Quais são os maiores problemas enfrentados pelos clubes brasileiros em geral? LGB – As condições em que os clubes são administrados, na verdade, tem muito pouco a ver com a dinâmica dos mercados, o valor dos salários subiu muito, o valor dos direitos federativos também. Os clubes brasileiros são vendedores porque eles têm as receitas que podem vir de outras fontes além da televisão, mas que são ainda muito limitadas. Então, você tem um descompasso permanente e crescenteNo afã de competir entre eles, os clubes acabam fazendo gastos que não podem sustentar ao longo dos anos. Começam a entrar numa situação de déficit permanente e acabam, às vezes, tendo que tomar medidas drásticas que reduzem o poder competitivo.

CI – A Mancha Verde é considerada uma das torcidas organizadas mais perigosas do futebol brasileiro. Como é a relação do clube com ela?
LGB – A relação do clube com a torcida é praticamente inexistente. Já eu converso com eles. Eles são uma presença inarredável, você não pode marginalizá-los mais do que eles tentam se marginalizar. Eu converso com eles, mas não faço concessões, por exemplo, quando eles fazem pedidos como financiar o carnaval, eu falo “nem pensar, isso aí de jeito nenhum”. Eu vejo jogo na arquibancada, às vezes, e eles vêm conversar comigo, reclamam do preço da entrada, outros fazem tratá-los como marginais, mas trazê- los para um diálogo civilizado. Mas eu não envolvo o clube nisso.

CI – Por que o técnico Vanderley Luxemburgo foi demitido recentemente?
LGB –
Por ter dado declarações a respeito de assuntos que não são da alçada do treinador. Assim como o presidente do clube não tem que dar palpites na escalação do time, o treinador também não deve interferir em assuntos que dizem respeito à diretoria (Luxemburgo teria dado declarações sobre a transferência do atacante Keirrison para o Barcelona). A minha relação com Luxemburgo continua boa. A demissão não tem a ver com a sua competência.

CI – O senhor, como presidente de um clube brasileiro, como analisa o retorno de jogadores como Ronaldo e Adriano, que deixaram o futebol italiano?
LGB – Eu acho que esse movimento de retorno tem a ver um pouco com a crise econômica financeira européia e a Itália foi particularmente atingida. Isso é natural, talvez voltem outros não só da Itália. Com exceção da Ucrânia e da Rússia, onde as regras são outras, e até mesmo da Inglaterra, talvez retornem outros da Grécia e da Turquia.

CI – Como andam os projetos para a construção da Arena Palestra Itália?
LGB – Os projetos da Arena sofreram um atraso porque nós temos uma dificuldade aqui em São Paulo: a prefeitura não tem um código de obras que contemple um estádio, por incrível que pareça. O último estádio que foi construído aqui foi o Morumbi em 1960. Nós, praticamente, estamos reconstituindo a legislação. Então, nós vamos ter um atraso de uns oito a nove meses para o início das obras. Está difícil a gente acertar todos os pontos, tem problema de enchentes na região, de trânsito, porque ali construíram um shopping que aumentou a circulação de veículos, e nós temos que pensar em discutir com as autoridades as formas de evitar que isso se agrave.


CI – Como se lida com esses problemas diante dos conselheiros?
LGB – O projeto está firme, o contrato está de pé. Os conselheiros levantaram suas questões, suas objeções. Nós vamos manter um fluxo de informações. Porque ficou muito tempo sem que alguém falasse alguma coisa sobre a Arena. É fundamental que os conselheiros estejam informados, afinal de contas eles votaram no projeto da Arena.

CI – O senhor já consegue imaginar a Itália jogando na Arena em 2014?
LGB – Nós achamos que a Itália vai jogar na Arena em 2014 porque 1914 é o ano de fundação do Palestra Itália. Ou seja, o ano da Copa é o ano do centenário do clube. Eu tenho certeza que a Itália vai jogar lá e vai usar também as dependências do centro de treinamento do Palmeiras. Vamos reconstruir os alojamentos, deixar a caráter para que a Itália possa ficar lá e jogar no Palestra Itália.

CI – E por falar em Itália. Como é a sua relação com a cultura italiana?
LGB – Eu não tenho a cidadania porque foi uma questão de documentação. A família não sabe onde estão os documentos dos meus avós. Eu falo um pouco de italiano, leio mais. Para se ter uma ideia, o primeiro romance que eu li foi Il Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Aprecio as obras de Italo Calvino. E tenho várias edições em italiano e em português da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Sem contar os pensadores políticos italianos de esquerda que tenho grande afinidade, a começar por Antonio Gramsci, Antonio Labriola, Giuseppe Vacca e diria que, especialmente, o Nicola Badaloni.

CI –
O senhor já foi diversas vezes à Itália. Que lugar mais lhe agrada no país?
LGB – Precisei ir à Itália diversas vezes a trabalho, quando fui secretário de Ciências e Tecnologia de São Paulo e secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (governo Sarney). Mas também fui passear e para dizer a verdade, gosto muito da Toscana. Acho uma região linda, que abriga Florença, que é a cidade que eu mais gosto por conta da beleza, da cor e do compromisso que ela tem com o renascimento.

Comunità Italiana

A revista ComunitàItaliana é a mídia nascida em março de 1994 como ligação entre Itália e Brasil.

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