No monólogo ‘Francesco’, que estreia nesta quinta (8) no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo, o ator e bailarino Paulo Goulart Filho interpreta 20 personagens para rever trajetória de São Francisco de Assis

“Francesco”, do dramaturgo, escritor e Nobel de Litetarura italiano Dario Fo, é dirigida por Neyde Veneziano e foi uma das últimas peças teatrais de Fo. Além de ter se inspirado em alguns contos populares sobre a vida de Giovanni di Pietro di Bernardone, mais conhecido como Francisco de Assis, o italiano conta alguns dos episódios da vida do santo católico, que viveu no país europeu entre os séculos 12 e 13.   

Francesco

Um lobo aterroriza um pequeno vilarejo e ameaça o trabalho dos pastores. Já tentaram capturar a fera e até mesmo exterminá-la, mas todas as manhãs são encontrados animais mortos pelo campo. O destino do Lobo de Gubbio será transformado quando ele se deparar com Francisco de Assis, frade católico conhecido como santo padroeiro dos animais.

O monólogo dirigido por Neyde Veneziano, que também trata de temas atuais, como o combate à violência, resgata ainda episódios da vida do santo, além do lobo e de outros 18 personagens interpretados por Goulart Filho, e funde-os com a assinatura debochada de Fo. O cenário é uma Itália em conflito. O papado no século 11 tentava ganhar autonomia diante dos domínios do imperador. Manter a unidade da fé católica fazia parte dessa resistência.

Nesse ambiente tenso, o jovem rico chamado Francisco surge como um Arlequim atrapalhado para desafinar esse coro. Famoso por não ter realizado nenhum milagre, Francisco se posicionou contra o militarismo cristão das Cruzadas, foi considerado baderneiro e era visto se socializando com os mais pobres e abraçando porcos pela cidade. “A forma da peça é a de um jogral, em que Dario Fo recupera episódios da vida do santo para provocar o pensamento sobre uma história importante para a Itália”, lembra a diretora.

Conta-se que o rapaz desistiu da vida confortável oferecida pelos pais depois de uma revelação espiritual em uma caverna e decidiu fundar uma irmandade. E a maneira de fazer isso não foi das mais discretas. “Ele entrou na igreja e no meio da missa tirou as roupas e ficou pelado, assim como veio ao mundo”, conta Goulart Filho. O desconforto dos fiéis o lançou para a porta da igreja e entre os marginais convocou seus seguidores.

A partir de então, São Francisco de Assis se torna um líder. Suas caminhadas pela Itália figuram na peça de Dario em episódios divertidos, como a vez em que o santo estava em uma festa de casamento e lhe pediram para narrar uma história divertida. Sua reação foi lembrar a vez em que tinha transformado água em vinho. “Logo a fama de Francisco vai chegar ao papa”, diz Neyde. “É a primeira resistência que ele vai enfrentar.”

O motivo é claro, a voz solene de Paulo Goulart Filho, de 54 anos, durante o ensaio, confirma a preocupação de que a Igreja Católica não tivesse porta-vozes tão… alternativos. A palavra de Deus como mensagem deveria ser entregue por um mensageiro tão digno quanto Ele. “Para Francisco, essa mensagem precisava chegar urgentemente à vida dos mais necessitados. É interessante pensar que Dario Fo, que era ateu, encontrou na história do santo a trajetória de um grande comunicador popular”, ressalta a diretora.

Sua amizade com os pequeninos também se estendeu aos não humanos e tornou-se sua principal marca, até hoje. Em suas caminhadas, Francisco parava para conversar com aves e extrair lições do contato com a natureza. É dele a invenção dos presépios vivos, algo que causou grande confusão na época. Mas na peça, o auge não está com os animais dóceis.

Na história do Lobo de Gubbio, Fo cria a síntese de sua cultura e critica o comportamento selvagem do ser humano ao imaginar o diálogo entre o santo e a fera. Algo que lembra os bichos falantes das novelas do também italiano Luigi Pirandello. Possuídos por uma consciência “humana”, os animais do escritor soltam a língua para questionar os humanos sobre as suas vaidades mais primitivas. 

“Os moradores pedem para que São Francisco os ajude porque o rebanho está sendo dizimado e o santo chama o lobo para conversar”, narra o ator. A seguir, bicho e santo travam diálogo, falam da vida, dos costumes. Em cena, as palavras enroscam no rosto calmo do santo para logo em seguida surgir nas presas do animal revoltado.

O Lobo de Gubbio vai reconhecer que o exemplo é ser tão moderado quando os humanos. Há uma certa ironia nessa moderação. “Ele vai questionar os hábitos dos homens ditos moderados, que quando fazem festa matam e comem animais. O lobo vai dizer então que também quer ser humano”, aponta ainda Neyde. 

“A trajetória de um santo tão popular e querido na Itália continua repercutindo até a atualidade”, continua a diretora. “A confirmação disso é que hoje vemos um papa assumir, de maneira inédita, o legado de São Francisco.”

Serviço

Local – Centro Cultural do Banco do Brasil
rua Álvares Penteado, 112, Sé

Dias e horários – 8 a 31 de agosto;
quinta, sexta, sábado e segunda-feira às 20h;
domingo às 18h

Ingressos – R$ 20

Telefone – (11) 3113-3651