Pietro Petraglia Editor

Durou pouco o governo italiano cuja prevalência ideológica foi de direita. O extremista Matteo Salvini sai — pelo menos por enquanto — de cena e, após um ano e três meses, o poder na Itália volta às mãos da centro-esquerda, sob o comando do premier Giuseppe Conte, que deve conciliar outras duas frentes antagônicas na política italiana: o partido antissistema Movimento 5 Estrelas, que permanece no centro das decisões do país, e o Partido Democrata (PD), que volta ao poder após o fiasco nas urnas no ano passado. Como destaca nesta edição da Comunità o nosso correspondente em Roma, Stefano Buda, o “verão italiano foi bastante agitado” por uma crise política que só poderia mesmo resultar nessa transição considerada improvável alguns meses atrás, mas que, de certa forma, serenou um pouco os ânimos do mercado e da comunidade europeia, que não viam com bons olhos o discurso até certo ponto irascível de Salvini, que bem ao seu estilo figadal sugeriu uma nova eleição. Proposta rechaçada. Um novo pleito significaria mais despesas para os cofres públicos. Quem perdeu foi Salvini, que se retirou do Governo animado com os resultados das eleições europeias certo de que se consolidaria nas urnas italianas. Após o gol contra do ex-vice-ministro amigo do presidente Jair Bolsonaro, um dado interessante neste novo governo — o mais jovem desde o Pós-Guerra (média de 47 anos) — surgiu logo na sua alvorada: o número de mulheres entre os ministros saltou de cinco para sete.

Vamos, contudo, aguardar como o novo poder instaurado lidará com a incômoda dívida pública, que, segundo dados do Banco da Itália, soma o valor recorde de 2.409,9 bilhões de euros, e isso até julho, com um aumento de 23,5 bilhões em relação ao mês anterior e uma evolução diária de 783 milhões.

Dos desafios do novo governo, partimos para resgates de memória; resgates de um passado riquíssimo que todos nós merecemos promover um dia. Nesta edição, a repórter Stefania Pelusi mostra que um modelo de turismo fomentado na Itália atrairá — nos próximos dois anos — cerca de 80 milhões de pessoas que avidamente desejam conhecer, em detalhes, suas origens. É o chamado “turismo de raízes” ou de “retorno”, e o Brasil deverá ser o protagonista dessa grande mobilização, como garante o presidente da Agência Nacional de Turismo da Itália (Enit), Giorgio Palmucci.

Comunità traz ainda reportagem sobre o Istituto Europeo di Design (IED), que devido a entraves jurídicos está impedido de concluir obras que ampliariam a sede do Rio de Janeiro, no prédio do antigo Cassino da Urca. O diretor-geral do IED, Fábio Palma, explica essa conturbada história e revela os motivos que levaram o IED a escolher o Brasil para a expansão continental do instituto.

E no rastro da cultura e do desenvolvimento, esta edição apresenta um pouco do que representa a Estônia. Pelas linhas do nosso estimado colunista Domenico de Masi, conhecemos um país europeu que nos mostra uma realidade palpável e nem um pouco idílica quando impera a vontade política dos governantes. Em 1991, momento em que a independência estoniana foi declarada, apenas metade da população tinha telefone; seis anos depois 97% das escolas estavam conectadas à internet. Um exemplo que desejamos ver um dia, indistintamente, em todos os países. O sol, afinal, é para todos.

Boa leitura!