É a primeira vez em 14 meses que o país oferece um porto seguro a uma embarcação de resgate. Reviravolta ocorre após a extrema-direita deixar o governo

O novo governo da Itália autorizou o navio Ocean Viking a desembarcar 82 imigrantes na ilha de Lampedusa, após vários dias no Mar Mediterrâneo.

A decisão representa uma reviravolta na política mantida até recentemente pelo ex-ministro do Interior Matteo Salvini, de extrema-direita, que criticou a medida.

É a primeira vez em 14 meses que a Itália propõe um porto seguro a uma embarcação que resgata imigrantes no mar.

Os imigrantes foram transferidos a um navio da guarda costeira italiana, que os levou para a ilha de Lampedusa, segundo imagens da TV italiana.

Segundo o governo da França, eles serão distribuídos entre cinco países europeus (Itália, França, Alemanha, Portugal e Luxemburgo) que chegaram a um acordo.

“Agora, temos que chegar a um acordo sobre um verdadeiro mecanismo temporal europeu”, escreveu no Twitter o ministro francês do Interior, Christophe Castaner.

Salvini reclama

“Começamos já. Os portos se abrem sem limites”, tuitou Salvini, depois da autorização de desembarque.

“O novo governo está reabrindo portos, a Itália volta a ser o acampamento de refugiados da Europa. Ministros abusivos que detestam os italianos”, continuou o ex-ministro, que tentou forçar eleições antecipadas em agosto no país.

Ele acabou deixando o Executivo, após a formação de um governo de coalizão que excluiu seu partido de extrema-direita, a Liga.

Migrantes entram em vans depois de depois de desembarcar do navio 'Ocean Viking', neste sábado (14), na Itália — Foto: Alessandro Serrano/AFP
Migrantes entram em vans depois de depois de desembarcar do navio ‘Ocean Viking’, neste sábado (14), na Itália — Foto: Alessandro Serrano/AFP

Quando foi ministro do Interior, Salvini travou uma guerra aberta contra as ONGs que resgatavam imigrantes no Mediterrâneo, proibindo seu acesso aos portos italianos ou impondo pesadas multas.

Salvini foi substituído no cargo de ministro do Interior por uma especialista em imigração, Luciana Laborgese.

O ministro italiano das Relações Exteriores, Luigi Di Maio, afirmou à televisão italiana que “designou um porto seguro para o barco, porque a União Europeia aceitou nossa demanda de acolher a maioria dos imigrantes”.

Di Maio lidera o Movimento 5 Estrelas e integrou a coalizão com o partido de Salvini. Agora, a aliança é com o Partido Democrata, de centro esquerda.

A negociação sobre um mecanismo temporário de “distribuição automática” de imigrantes resgatados na Europa foi confirmada na quinta (12) por fontes de Bruxelas.

O projeto será debatido na próxima quarta (18), durante uma reunião em Roma entre o premiê italiano, Giuseppe Conte, e o presidente francês, Emmanuel Macron.

Depois, no dia 23, haverá um encontro de ministros do Interior europeus e de representantes da Comissão Europeia, em Malta.

17 menores e um garoto

O navio Ocean Viking fazia sua segunda missão no Mediterrâneo e navegava havia quase duas semanas entre Itália e Malta, à espera de um porto seguro para desembarcar os imigrantes.

Entre as 82 pessoas a bordo, a ONG Médicos sem Fronteiras, que também freta a embarcação, contou 58 homens, seis mulheres, 17 menores de idade e uma criança de um ano.

“Disseram aos nossos médicos que haviam sofrido queimaduras e haviam sido agredidos com pedaços de pau e de metal” quando estavam na Líbia, relatou a MSF no Twitter.

“Muitos deles estão com traumas psicológicos”, acrescentou a ONG.

Na primeira expedição, no final de agosto, o Ocean Viking resgatou 356 imigrantes, que puderam desembarcar em Malta. A França se comprometeu a receber 150. (AFP)