BIANUAL

BIANUAL

A partir de
Por R$ 299,00

ASSINAR
ANUAL

ANUAL

A partir de
Por R$ 178,00

ASSINAR
ANUAL ONLINE

ANUAL ONLINE

A partir de
Por R$ 99,00

ASSINAR


Mosaico Italiano é o melhor caderno de literatura italiana, realizado com a participação dos maiores nomes da linguística italiana e a colaboração de universidades brasileiras e italianas.


DOWNLOAD MOSAICO

Baixe nosso aplicativo nas lojas oficiais:

Mago dos shoppings

25 de novembro de 2019 - Por Comunità Italiana
Mago dos shoppings

Entre uma pescaria e outra na praia do Leblon dos anos de 1960, o pedido de um amigo italiano, cantor no lendário Beco das Garrafas, em Copacabana, estimulara o então jovem José Isaac Peres a crescer no mundo dos negócios. Com o tempo, o rapaz desenvolveu uma aura reluzente que reflete até hoje nos empreendimentos que sua respeitável Multiplan administra: são 19 shoppings pelo país, comportando lojas que faturaram 15,5 bilhões de reais no ano passado. A pujança do empresário estampará as linhas de sua autobiografia, que está a caminho. Com 79 anos, Peres não cogita aposentar-se: “Quando se gosta do que faz, vira hobbie”

Que influência poderia ter a Itália na trajetória de um grande empresário carioca, se esse bem-sucedido homem de negócios não pisou naquele país até os 30 anos de idade e não tinha qualquer relação próxima com a Bota? Imensa, se o empresário em questão for José Isaac Peres, 79 anos, fundador e maior acionista do grupo Multiplan, um dos principais construtores e administradores de shopping centers no Brasil.

Filho de imigrantes judeus, José Isaac estudava na Faculdade Nacional de Economia, no Rio, no começo dos anos de 1960. O pai viera de Bagdá em 1917, fugindo da perseguição árabe; a mãe era de uma família de origem portuguesa que se instalou em Belém há 200 anos e acabou no Rio quando ela tinha 2 anos. Em meio a pescarias de mergulho com amigos na praia do Leblon, o jovem conheceu o italiano Livio Civilletti, que cantava na boate Little Club, no mítico Beco das Garrafas — berço da Bossa Nova, em Copacabana. As pescarias em grupo não eram só por diversão; os rapazes vendiam os peixes para ajudar em casa.

Parceiro de praia e da noite, Civilletti pediu a Peres, já então corretor de imóveis, que vendesse um apartamento de sua mulher na avenida Delfim Moreira, orla do Leblon. O resultado saiu melhor que a encomenda:

— Vendi por um preço melhor do que o pedido e à vista, quando normalmente o corretor deprecia para poder vender — recorda o dono da Multiplan. — Sou assim. Sempre procurei entregar mais do que as pessoas esperam.

O melhor estava por vir. Com o dinheiro, Civilletti comprou outro imóvel, uma lancha e metade da boate. E indagou a Peres o que faria com a comissão. Audacioso, o jovem propôs comprarem um terreno e fazerem a incorporação.

— Comprei o terreno, na Lapa, o Livio deu a entrada à vista e eu fiquei com a dívida. Eu só tinha dinheiro para 6 das 36 parcelas. Se não vendesse, estava quebrado. Mas não podia deixar o amigo perder dinheiro— conta Peres. O resultado foi surpreendente. — Em seis meses, montei a Veplan Imobiliária, lancei o prédio e vendi tudo, em novembro de 63. Foi uma ousadia que me fez aprender a acreditar em mim. Fiz depois centenas de empreendimentos — orgulha-se.

Com o providencial impulso do italiano, começava a surgir uma das mais brilhantes carreiras do ramo imobiliário brasileiro. A nova empresa cresceu rápido e, em 1971, negociava ações em Bolsa.

— A Veplan foi a precursora do marketing imobiliário no Brasil — diz Peres. — Até então, os anúncios eram como reclames de bonde.

O empresário acabou vendendo sua parte na empresa em 1974, ao sentir que a má gestão do banco da empresa a levaria à falência.

— Meus sócios eram filhos de banqueiros e tinham como se virar. Mas e eu?

Grande grupo, antigo amor pela Itália e show com Pavarotti

No ano seguinte, Peres criou a Multiplan — hoje um conglomerado que administra 19 shoppings no país, em 11 cidades de sete unidades da Federação. O grupo gera 72 mil empregos diretos nesses empreendimentos, cujas lojas faturaram 15,5 bilhões de reais em 2018. Em 44 anos, lançou também um shopping em Portugal e condomínios residenciais no Rio, São Paulo, Porto Alegre e Miami.

O empurrão inicial de Livio Civilletti foi também o começo de um caso de amor entre José Isaac Peres e a Itália. Até então, o contato com o país se resumia a uma viagem no navio Conte Grande, da Linea C, para a Argentina, em 1957, à qual se juntaria depois uma sincera admiração pelo povo italiano.

— Eles têm uma certa similaridade com os cariocas, a irreverência, o olhar para o que é belo. Somos muito parecidos — assinala Peres.
A primeira ida à Itália ocorreria somente em 1970, com a mulher, após a conquista da Copa do Mundo pelo Brasil, com uma goleada de 4 a 1 sobre a seleção italiana.

— Os italianos estavam danados com os jogadores deles e só nos elogiavam — diverte-se.

Um episódio curioso marcou a viagem.

— No dia em que completei 30 anos, fomos a uma cantina e pedi um vinho de 30 anos. O garçom trouxe aquela garrafa toda empoeirada e disse: ‘Signore, la tavola senza vino è come il letto senza donna’ (Senhor, a mesa sem vinho é como a cama sem mulher). Nunca mais deixei de tomar vinho — diz Peres, rindo.

Vinte anos depois, ele teria a oportunidade de retribuir a Civilletti a ajuda prestada na juventude. Em um encontro casual em Ipanema, soube que o amigo sobrevivia de vender antiguidades. Era início dos anos de 1990, e o governo Fernando Collor promovia uma abertura comercial, facilitando a importação de produtos sofisticados, como carros e bebidas.

— Eu tinha aberto uma ala no BarraShopping, a Barra Free Shopping, e montei lá uma cantina para o Livio, a Italia in Bocca — conta Peres. — Foi a minha forma de agradecer a confiança.

No início de 1995, ao lançar seu primeiro empreendimento habitacional no exterior, em Miami, Peres prestou nova reverência à Itália. Não só no nome do condomínio — Il Villaggio —, como por contratar o tenor Luciano Pavarotti para fazer o show de lançamento, num palco na praia, para 200 mil pessoas. O evento, coordenado por artistas locais, representou uma satisfação pessoal para o empresário.

— Eu ouço muita ópera. Madame Butterfly, La Traviatta, Nessun Dorma (ária de Turandot)… a música clássica é eterna, mexe com a alma.
O fundador da Multiplan, aliás, é um entusiasta dos artistas.

— O artista tem um feeling maior que as pessoas comuns. Sou empresário, mas tenho alma de artista. Eu próprio desenho os projetos dos shoppings. Tinha vocação para arquiteto, mas fui fazer economia para ajudar a família. Às vezes a gente vê a realidade na frente dos outros.
Em razão disso, Peres se considera “um visionário”. No Villaggio, o projeto levou seu toque pessoal:

— Fiz um concurso entre os principais escritórios de arquitetura de Miami, peguei o melhor projeto e adaptei ao que queria fazer — diz o empresário. Foi um sucesso.

Em parte, o empreendimento resultou da onda de violência que assolava o Rio na primeira metade dos anos 90.

— Eu tinha que fazer algo fora do Brasil. Havia muitos sequestros, até um primo meu foi sequestrado. Quis tirar a família daqui — recorda Peres. A primeira iniciativa foi em Portugal: o CascaiShopping, em 1991. Depois levou a família para Miami. Por essa época, a Multiplan já havia construído vários shoppings pelo Brasil, como o precursor BH Shopping (1979), o BarraShopping, no Rio, o MorumbiShopping, em São Paulo, e o ParkShopping, em Brasília.

Novo projeto em setembro de 2020, no Rio Peres decidira migrar do segmento residencial para o varejista devido à situação da economia.

— A inflação corroía tudo. Não dava mais para comprar o terreno, construir e vender. A inflação era tanta que, se você quisesse recomprar o terreno, nem juntando o lucro e o capital empregado seria possível. Como os shoppings estavam começando no mundo, e eu já tinha feito galerias comerciais, investi nisso.

Para ele, os shoppings são catalisadores do desenvolvimento urbano.

— Eu inaugurei a Barra. Antes do BarraShopping, o bairro tinha 40 mil habitantes; hoje tem 500 mil — compara o empresário. Agora, Peres deve abrir em setembro de 2020 seu vigésimo empreendimento do tipo: o ParkShopping Jacarepaguá, na zona oeste do Rio. — É um local que carece de serviços. O shopping é um equipamento que regenera uma região degradada ou que ainda não tem nada.

O empresário decidiu também tornar os shoppings centros de lazer, com cinemas e áreas de diversão infantil.

— Sou o cara que inventou o shopping com prazer. Quero que a pessoa vá ao shopping mesmo se não tiver algo para comprar. Precisa ser um lugar agradável. Sem querer, ela acaba comprando — frisa. O BarraShopping inclui até um grande centro médico. — Dor e prazer são faces da mesma moeda. Quando você coloca um centro médico num shopping, diminui a resistência a ir ao médico. As pessoas têm que pôr prazer na vida.

Peres, porém, não abandonou os empreendimentos residenciais. Um deles foi o Barra Golden Green, no Rio, cujo projeto previa uma praia artificial entre os prédios da frente do condomínio (com vista para o mar) e os de trás. A água marinha seria bombeada para essa praia interna e escoada para o canal de Marapendi, nos fundos.

— Levei seis anos esperando e não consegui aprovação das autoridades — lamenta. — Aí, em vez de praia, fiz um campo de golfe. O Brasil foi feito para você não fazer nada. Mas vale a pena tentar. É bom fazer o inédito — completa. Atualmente, uma das ideias é construir um monotrilho ligando o Village Mall, também do grupo, ao BarraShopping.

Shopping um grande negócio e convicções políticas

Mesmo ante o mau momento da economia, os shoppings da Multiplan mantêm bons resultados. As vendas das lojas cresceram no terceiro trimestre 5,2% em relação a igual período de 2018. Outubro deve apontar alta ainda maior, de 8% a 9%, estima Peres. De janeiro a setembro, a Multiplan investiu 87,6% a mais que em todo o ano passado.

Os investimentos comprovam a confiança do empresário na economia, que, para ele, vai crescer mais a partir de 2020, em consequência das medidas adotadas pelo atual governo.

— É impossível ela não reagir, simplesmente pela gestão austera deste governo — diz Peres. — Bolsonaro não é um político, ele está político. O que propõe para o país é muito bom. Se fosse político, não faria o que está fazendo. O Brasil sofre do ponto de vista fiscal porque o Estado é paquidérmico, não sobra para investir.

O empresário admite que o presidente não é bom comunicador.

— Mas prefiro alguém que não fale bem e faça a coisa certa do que alguém que fale bem e faça tudo errado — comenta. — Este governo pegou o país falido, terra arrasada. Até tapar os buracos, leva tempo — continua.

Segundo o dono da Multiplan, “a esquerda fica tentando destruir o que existe. A direita conserta e tem que fazer um governo austero. Aí vem a esquerda e diz que não se olhou para o social. É fácil iludir”. Ele já tinha essa convicção ideológica na universidade. Em 1964, conta, a Faculdade Nacional de Economia foi a única a apoiar a queda de João Goulart.

— Eu apoiei a revolução. Salvou o Brasil — diz. Segundo ele, o país é “o mais fechado do mundo”.

— Para proteger a indústria nacional, prejudicam a nação. O povo fica privado de importar — assinala. Peres pensou em trazer da Itália seu iate de 140 pés. — Mas dentro do ambiente brasileiro é impensável. Para importar o barco, você paga 80% de imposto. E mais 1% do valor do barco cada mês que ele fica aqui — completa. A alternativa foi levar o iate para Miami.

O empresário lamenta a situação atual do país.

— O território brasileiro é um dos mais ricos do mundo. O clima, os minérios, a água, tudo. O que atrapalha é o excesso de leis, que cria resistência a fazer qualquer coisa. A burocracia é o maior entrave ao desenvolvimento.

Entusiasta do acordo Mercosul/União Europeia, Peres, no entanto, critica a maneira como a UE se organizou.

— Os países renunciaram à própria moeda. Depois de perder duas guerras mundiais, a Alemanha dominou a Europa sem dar um tiro. O euro foi um cavalo de Troia — explica o empresário. Para ele, o continente sofre também com a crise global. — Estive há pouco em Gênova, e todos alertavam para evitar o centro à noite por causa dos africanos. Eles invadiram as casas, mas o governo não os tira como ato de humanidade.

O empresário reclama ainda da forma como a mídia trata o Rio de Janeiro.

— Não é verdade a imagem que a Rede Globo faz do Rio. Dá uma dimensão maior às coisas ruins do que às boas. É um tiro no pé — enfatiza.

Em outubro, num evento do movimento Reage, Rio!, do jornal O Globo, ele propôs um incentivo tributário para os turistas estrangeiros, de modo a receberem de volta parte dos impostos pagos em compras na cidade.

— Estimularia o comércio e o turismo — conclui Peres.

Realizado, o empresário diz ter descoberto o segredo do sucesso.

— O segredo é fazer bem feito. Mas, para fazer bem feito, é preciso você gostar do que faz, porque vai prestar atenção nos detalhes, que são o que faz a diferença. O sucesso está nos detalhes. Eles é que mexem com o sentimento.

O criador da Multiplan não pensa em parar.

— Quando se gosta do que faz, vira hobbie — sentencia. Ele agora se dedica também a escrever um livro autobiográfico: O Pulo do Gato. O título remete à conversa com um banqueiro que lhe financiara um empreendimento em São Paulo, em local distante, mas que acabou bem-sucedido. O banqueiro lhe perguntou então qual era o pulo do gato. Ao que Peres respondeu: “Não sei explicar; eu sei pular”.

Comunità Italiana

A revista ComunitàItaliana é a mídia nascida em março de 1994 como ligação entre Itália e Brasil.

Comentários
Array
(
    [0] => WP_Term Object
        (
            [term_id] => 6223
            [name] => Edição 256
            [slug] => edicao-256
            [term_group] => 0
            [term_taxonomy_id] => 6223
            [taxonomy] => post_tag
            [description] => 
            [parent] => 0
            [count] => 36
            [filter] => raw
        )

    [1] => WP_Term Object
        (
            [term_id] => 6229
            [name] => José Isaac Peres
            [slug] => jose-isaac-peres
            [term_group] => 0
            [term_taxonomy_id] => 6229
            [taxonomy] => post_tag
            [description] => 
            [parent] => 0
            [count] => 1
            [filter] => raw
        )

    [2] => WP_Term Object
        (
            [term_id] => 6230
            [name] => Multiplan
            [slug] => multiplan
            [term_group] => 0
            [term_taxonomy_id] => 6230
            [taxonomy] => post_tag
            [description] => 
            [parent] => 0
            [count] => 1
            [filter] => raw
        )

)

ENQUETE

Novo programa Renda de Cidadania, espécie de "Bolsa Família" da Itália, exige que o beneficiário preste serviço para o município em troca do crédito. Você concorda?

Ver resultados

Carregando ... Carregando ...

NOSSO E-BOOK GRÁTIS

SIGA NAS REDES

HORA E CLIMA EM ROMA

  • 04h48
fique por dentro

Não perca
nenhuma
notícia.

Cadastra-se na nossa ferramenta e receba diretamente no seu WhatsApp as últimas notícias da comunidade.