Há dez anos, obra do pintor faz parte de conteúdo ensinado em instituto de Chiampo, cidade natal do pai do autor de ‘Guerra e Paz’. Especial ‘Nossa Gente’ retrata diferentes origens dos povos na área de cobertura da emissora

Em Chiampo, as origens italianas do pintor brasileiro Cândido Portinari (1903 – 1962) estão evidentes nas ruas e nos sobrenomes de parte dos moradores. Décadas após a família dele ter imigrado para o Brasil, a partir de onde fez história e ganhou notoriedade, o legado do artista plástico hoje é motivo de orgulho para a cidade de 12 mil habitantes na província de Vicenza e inspira aulas de arte para jovens do Instituto Alessandro Faeda.

“Portinari é uma figura de relevância para nós. Foi uma grande descoberta, mas, sobretudo, falando como professora, também uma fonte de informação para os meninos. Estudando Portinari se aprende muita coisa”, afirma Fiorella Menti, diretora da escola.

A reportagem na Itália faz parte do especial “Nossa Gente”, que celebra os 40 anos da EPTV, afiliada da TV Globo, e mostra as diferentes origens da população na área de cobertura do grupo no interior de São Paulo e no Sul de Minas Gerais. As matérias exibidas até setembro retratam a miscigenação representada por indígenas, imigrantes, negros e caipiras.

Ligação com a Itália

O povoado no norte da Itália é a terra de origem do pai de Candido Portinari, Giovan Battista Portinari, que em 1896 partiu para o Brasil com a mulher, Domenica Torquato, de Bassano Del Grapa, em busca de melhores oportunidades, assim como milhares de imigrantes.

A ligação familiar do pintor de Brodowski (SP) com Chiampo hoje é motivo de orgulho para os moradores, no nome de uma rua, de uma escola ou na placa que identifica a casa de Giovan, pai de “um dos maiores pintores da América Latina”, menciona a inscrição.

Em italiano, placa instalada em Chiampo descreve casa onde viveu Giovan Battista Portinari, que emigrou em 1896 para o Brasil: 'Pai de Candido Portinari, um dos maiores pintores da América Latina' — Foto: Chico Escolano/ EPTV
Em italiano, placa instalada em Chiampo descreve casa onde viveu Giovan Battista Portinari, que emigrou em 1896 para o Brasil: ‘Pai de Candido Portinari, um dos maiores pintores da América Latina’ — Foto: Chico Escolano/ EPTV

Essa herança deixada pelo brasileiro também é reforçada há dez anos pelo Instituto Alessandro Faeda nas aulas de artes do professor Claudio Nascimbena.

“Fazemos esse trabalho sobre Portinari porque descobrimos que ele tinha origem chiampesa. Partiu daí o interesse em desenvolver de ano em ano uma pesquisa que nos acompanha desde 2009”, explica.

Segundo o professor, a produção estética de Portinari se encaixa perfeitamente no conteúdo programático da disciplina para os jovens da terceira série que estudam a pintura de vanguarda do início do século 20.

“Candido Portinari tem todos os requisitos para se poder fazer uma síntese sobre a linguagem artística de 1900 e para nós é uma grande oportunidade que temos”, diz.

O docente acredita que o autor de “Guerra e Paz” desperta o envolvimento dos alunos sobretudo por causa do trabalho com as cores e da capacidade universal de retratar as pessoas.

Instituto Alessandro Faeda, em Chiampo, na Itália, local onde jovens têm aulas de arte sobre Candido Portinari — Foto: Chico Escolano/EPTV
Instituto Alessandro Faeda, em Chiampo, na Itália, local onde jovens têm aulas de arte sobre Candido Portinari — Foto: Chico Escolano/EPTV

“Também porque não há exclusão de ninguém. Dos meninos mais habilidosos aos menos habilidosos todos podem verdadeiramente dedicar-se a uma experiência que ao fim dá um resultado seguramente positivo”.

O mesmo instituto onde as obras fazem parte do programa de artes também já dedicou a produção de uma revista em homenagem a Portinari, explica a diretora Fiorella Menti.

Para ela, o pintor ocupa lugar privilegiado no coração dos moradores, ao lado de outros nomes como o matemático e político Alessandro Faedo (1913 – 2001), que dá nome ao instituto. Nessa imersão na vida e na obra do pintor brasileiro, a professora aponta a descoberta de um grande tesouro.

Torre em Chiampo, cidade na província de Vicenza, na Itália — Foto: Chico Escolano/EPTV
Torre em Chiampo, cidade na província de Vicenza, na Itália — Foto: Chico Escolano/EPTV

“Denominamos a escola de Alessandro Fredo, grandíssimo matemático, e a ele dedicamos uma primeira revista que fizemos com a escola. O segundo número foi dedicado a Candido Portinari, porque queríamos que Chiampo conhecesse seus filhos mais ilustres e que os meninos de Chiampo tivessem neles grandes testemunhas.”

Prefeito da cidade italiana, Matteo Macilotti considera Portinari um legítimo representante de Chiampo mundo afora. Filho do pintor brasileiro, João Candido já recebeu o título de cidadão honorário na localidade. “Somos verdadeiramente gratos a este artista que levou o nome de Chimapo ao mundo todo e nós o consideramos nosso cidadão”, diz.

O professor de artes Claudio Nascimbena leciona Candido Portinari em escola italiana há dez anos  — Foto: Chico Escolano/EPTV
O professor de artes Claudio Nascimbena leciona Candido Portinari em escola italiana há dez anos — Foto: Chico Escolano/EPTV

Dirigente de Educação na região do Vêneto, Elena Donazzan considera que ainda são poucos os italianos que conhecem Portinari, mas que, por meio de projetos educacionais como os da província de Vicenza, as coisas devem mudar.

Elena gosta da ideia de que, apesar de ter nascido no Brasil, Portinari nunca se esqueceu das origens italianas e menciona uma passagem que seria relacionada à morte dele.

“Quando Candido morre, as últimas palavras que disse foram em dialeto vêneto. E, portanto, isso nos liga ainda mais. Porque, verdade, ele é muito brasileiro, mas no coração dele havia ainda uma ligação forte com a sua terra natal.”

(G1)