O clima pesado pela morte de Anthoine Hubert da F2, no sábado, marcou o Grande Prêmio de Bélgica da Fórmula 1 no domingo (1), vencido por Charles Leclerc, da Ferrari

O piloto dedicou a vitória ao amigo francês, de 22 anos, vítima de um acidente no mesmo circuito. Evitou sorrir no pódio para as constrangedoras fotos protocolares e não bebeu o champanhe, apesar de essa ter sido sua primeira vitória na categoria, a primeira de um monegasco, e de ter sido também a primeira da Ferrari na temporada. Apesar de seus 21 anos, o caçula do grid tem aprendido em alta velocidade a maneira de lidar com tragédias: freando as emoções.

A morte de Anthoine Hubert não foi a primeira vez que Leclerc perdeu um amigo nas pistas. Em 2015, o piloto francês Jules Bianchi, da Marussia, morreu aos 25 anos, em decorrência de um grave acidente sofrido no Japão, nove meses antes. Os dois eram amigos de infância e Leclerc costumava dar voltas no kartódromo da família de Bianchi, na França.

“Ele era meu padrinho e me ajudou com a maioria das coisas em corrida. Obviamente agora é difícil sem ele, porque ele sempre me ajudou. Sinto falta da ajuda dele. Ele me aconselhou muito bem no passado, e tudo o que me falou eu mantenho na minha mente e tento não cometer novamente os erros que ele me disse para não cometer”, disse Leclerc, na ocasião, piloto da Fórmula 3 europeia.

Em julho de 2017, três dias após a morte de sua principal influência, o ex-piloto Hervè Leclerc, seu pai e um entusiasmado fã de Ayrton Senna, de 54 anos, ele garantia a vitória na etapa de Baku, no Azerbaijão, na F2. E, claro, dedicou o feito ao mentor, que não teve a razão da morte revelada, mas sabia-se que seu estado de saúde vinha piorando havia alguns meses.

“Acredito que ele me ajudou hoje. Ontem à noite foi bastante difícil para dormir. Eu pensei nele e ao mesmo tempo me senti culpado por não trabalhar na classificação de hoje. Foi difícil controlar. Mas, na classificação, tudo deu certo. Ele estava lá no alto me ajudando a concentrar”, falou na época à revista inglesa Autoesporte.

No ano seguinte, campeão já campeão da categoria, mas sem o pai e o padrinho, Leclerc ascenderia à Fórmula 1, defendendo a Sauber/Alfa Romeo. Não há cruzamentos nos circuitos da categoria mais importante do automobilismo mundial, mas isso não impede que os destinos se encontrassem. A temporada foi consistente mas, ironicamente, foi na mesma Baku que ele obteve seu melhor resultado: um sexto lugar, melhor desempenho da escuderia suíça em quase três anos.

O bom desempenho com o carro, que levava o mesmo número 16 atual,  acelerou sua ida para a Ferrari, que era considerada provável nos bastidores da categoria. Boa parte desse prognóstico se devia, além do talento, ao fato de monegasco ser agenciado por Jean Todt, ex-chefão da equipe. Foram 13 corridas pela escuderia italiana até obter a primeira vitória, da qual admitiu não ter clima para desfrutar após o ocorrido:

— Se por um lado, eu realizei um sonho de criança, por outro, tem sido um fim de semana bem difícil desde ontem. Primeiro de tudo, perdemos um amigo, uma situação bem difícil. Crescemos juntos. Minha primeira corrida foi com Anthoine quando éramos pequenos, com Esteban (Ocon) e Pierre (Gasly). É lamentável o que aconteceu ontem. Eu simplesmente não consigo aproveitar completamente a minha vitória, mas definitivamente será um momento que guardarei para sempre. Eu gostaria de dedicar essa vitória a ele — concluiu, neste domingo.

A temporada continua no próximo fim de semana, com o Grande Prêmio de Monza, na Itália, casa da Ferrari, onde a torcida espera momentos mais felizes e outra boa atuação de Leclerc.

(com informações do O Globo)