A Itália negocia a assinatura de um acordo preliminar com a China para fazer parte do gigantesco projeto de infraestrutura tocado pelo país asiático conhecido como Iniciativa do Cinturão e da Rota, num movimento com potencial de gerar divisões com aliados tradicionais como os EUA e mesmo dentro do próprio governo italiano.

Anunciado pelo vice-ministro da Indústria Michele Geraci como parte das ações da visita que o presidente chinês, Xi Jinping, faz ao país europeu no fim deste mês, o acordo, se concretizado, será apenas um protocolo inicial, sem compromissos firmes. Ainda assim, a intenção foi criticada pelo seu colega de gabinete Guglielmo Picchi, vice-ministro das Relações Exteriores, para quem um acordo deste tipo exige mais reflexão do ponto de vista da segurança nacional.

— Ainda estamos negociando os detalhes do memorando de entendimento, e ele pode ou não ser assinado — disse Geraci. — É um protocolo inicial. Não é um contrato, não há compromissos, recursos ou obrigações.

Com a Itália em recessão pela terceira vez em uma década desde o fim do ano passado, o governo está ansioso por encontrar maneiras de estimular a economia e reavivar setores como da construção civil.

O jornal “Financial Times” informou nesta quarta-feira que os EUA ficaram irritados com a possibilidade de a Itália se juntar à iniciativa chinesa, alertando que o projeto pode danificar seriamente a imagem do país.

— Vemos a Iniciativa do Cinturão e da Rota como um projeto “feito pela China, para a China” — avaliou Garrett Marquis, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, ao diário financeiro britãnico.

Geraci, por sua vez, afirmou não ter visto qualquer sinal de que os EUA ficaram incomodados ou preocupados com as negociações.

— Nosso objetivo não me parece controverso — contou. — É sobre ajudar empresas a fazerem negócios,

Uma fonte diplomática italiana disse a agências de notícias que o governo italiano está enfrentando “muita pressão” da China para assinar o memorando de entendimento, mas acrescentou que, se um acordo for assinado, será “uma caixa vazia”.

Picchi, político próximo ao líder da Liga e ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, disse que permitir que a China construa a rede de telecomunicações de alta velocidade 5G da Itália e dar ao país asiático acesso a outras importantes infraestruturas corresponde a uma questão de segurança nacional que exige mais análise.

Vário países da União Europeia (UE) assinaram memorando de entendimento com a China relativo à iniciativa, entre eles Croácia, República Tcheca, Hungria, Grécia, Malta, Polônia e Portugal. Se a Itália também se juntar à iniciativa, será a primeira das sete maiores economias do mundo a fazê-lo.

Um porta-voz da UE em Bruxelas disse que o bloco está cooperando com a China na iniciativa, mas acrescentou que isso se dá “na base de a China cumprir seu objetivo declarado de fazer (da iniciativa) uma plataforma aberta em linha com as regras de mercado e aos requirimentos e padrões da UE e internacionais”.

O antigo otimismo europeu de negócios com a China se transformou em frustração com a lentidão do país asiático em abrir sua economia, ao mesmo tempo que chineses tomaram o controle de setores críticos da economia europeia. Também há forte pressão dos EUA para que deixem de lado a China e seus produtos, em especial para a infraestrutura de telecomunicações, por temor de espionagem.

(O Globo)