Repórter da Comunità percorre o território calabrês para narrar histórias seculares e mostrar tradições culturais bastante próximas da realidade brasileira

Calábria, terra de antigas tradições, repleta de histórias para contar e com uma natureza exuberante. Aqui viveram gregos, romanos, árabes, bizantinos, bárbaros, normandos, franceses, espanhóis. Mas foram os calabreses que conquistaram seus invasores. Porque a Calábria é a terra da acolhida.

A nossa viagem pela Calábria começa em um lugar especial: Morano Calabro. Nomeada em 2003 como uma das aldeias mais bonitas da Itália. Bandeira Laranja do Touring Club Italiano, esta cidadezinha está incluída na lista dos destinos europeus de excelência do Projeto Eden (European Destinations of Excellence) da Comissão Europeia. Além disso, é a cidade irmã de Porto Alegre.

O acordo entre Porto Alegre e Morano foi assinado em 1982 e estabelece uma parceria entre os dois municípios, reforçando os laços de cooperação econômica e cultural.

Cidades irmãs, mas bem diferentes. Morano tem menos de cinco mil habitantes, enquanto que em Porto Alegre a população é de quase 1,5 milhão de pessoas, entre elas 20 mil moraneses e seus descendentes. Isso mesmo. Na capital gaúcha vivem quatro vezes mais moraneses do que em Morano.

A vida em Morano é pacata. Dá pra passar o tempo conversando com os amigos, apreciando a paisagem.

Sentado no banco da praça com um amigo, o moranese Francesco diz que em Morano Calabro o ar é fresco e se vive muito bem.

— Aqui se come bem pizza, salsicha, verdura. Temos tudo. Basta olhar a beleza da cidade, o castelo, a igreja. Morano é bela — diz ele à Comunità.

A cidade é muito antiga: estima-se que foi fundada no segundo século antes de Cristo. Na pedra miliar Lapis Pollae, a palavra latina Muranum revela que a aldeia foi formada pelos romanos. A origem do nome é incerta, existem muitas hipóteses, uma delas é que Morano venha da palavra grega Méruma, que significa acúmulo, com referência às casas que parecem estar empilhadas umas sobre as outras.

Igrejas e fé milenar

As igrejas de Morano são especiais, todas guardam tesouros de arte sacra. A de São Bernardino de Siena, padroeiro da cidade, foi construída em 1452, quarenta anos antes do descobrimento da América. Seu estilo tardo-gótico é típico da arquitetura do fim da Idade Média. A igreja inclui um monastério considerado um dos melhores exemplos da arquitetura franciscana do século XV. Dentro encontram-se afrescos antigos bem conservados.

Na igreja de Santa Maria Madalena, encontra-se o famoso políptico que o artista veneziano Bartolomeo Vivarini pintou em 1477. Trata-se de uma das principais atrações de Morano.

A igreja de São Pedro e Paulo é a mais antiga da cidade construída no ano mil. Possui em seu altar estátuas do artista Pietro Bernini, feitas em mármore de Carrara e um coro em estilo Rococó.

Subimos até o topo da montanha para lá do alto mergulhar no tempo. A principal rua de acesso é muito estreita; com os carros estacionados fica ainda menor. Do alto, percebe-se que o Castelo Normando domina a cidade. Ele foi construído há dois mil anos pelos antigos romanos como uma fortaleza para defesa. Observarmos também a cadeia de montanhas do Parque Nacional do Pollino.

A moranese Amalia Vacca vive fora da Itália, mas está em Morano para matar a saudade da família e dos amigos. Por falar diversas línguas, a jovem aproveita o tempo como voluntária cultural do castelo. Ela conta que muitos brasileiros vêm a Morano procurar seus parentes:

— Eles chegam dizendo o meu sobrenome e procuram os documentos no cartório. Às vezes não sabem quem são seus próprios parentes, às vezes conhecem seus ascendentes.

Amalia explica que um dos principais eventos religiosos de Morano, a Festa da Nossa Senhora do Carmo, é comemorado também em Porto Alegre. Durante a celebração, são feitas preces em português em homenagem aos porto-alegrenses. Além disso, a igreja de São Pedro e Paulo em Morano doou a imagem de Nossa Senhora dos Imigrantes à comunidade moranesa em Porto Alegre.

— As ligações históricas de sangue entre parentes são muito fortes. Ser cidade-irmã não é só uma coisa formal, é um vinculo de sangue de família — conclui Amalia.

A grande imigração moranese

Nos arredores de Morano encontramos uma pessoa especial: Adriana Tamburi. Ela é empresária e dona da pousada La Locanda del Parco, um local situado no parque do Pollino.

Ela conta que nasceu em Morano e que o fenômeno migratório dos moraneses para o exterior começou no fim do século XIX, mas se intensificou depois da segunda guerra mundial. Na década de 1950, houve uma grande imigração para o Brasil, não só para o Rio Grande do Sul.

— Depois da guerra não tinha muito para se viver: a vida não era fácil. Era difícil encontrar trabalho. O primeiro moranese abriu caminho para os outros, chamou seus amigos, e aí muitos imigraram para o Brasil — explica Adriana.

Ela tem diversos parentes que vivem no Brasil.

— Tenho tios que vivem em Porto Alegre e outras tias que moram no estado de São Paulo, uma em São Caetano e a outra em São José dos Campos. Sou muito ligada aos meus parentes que estão no Brasil. Adoro os brasileiros — diz.

Adriana esteve na capital gaúcha cinco vezes e se lembra de uma rua que se chama Morano Calabro:

— Em Porto Alegre tem um lindo mural com a imagem de Morano realizado por alguns empresários moraneses que vivem no Brasil.

Adriana se lembra do dia 15 de janeiro de 1982 quando Porto Alegre e Morano se tornaram cidades-irmãs. Na ocasião vieram diversos moraneses que vivem na capital gaúcha para festejar o acordo.

— Vou lembrar sempre com muita paixão e emoção. Morano inteira chorava. Tocavam os sinos das igrejas. Até hoje me sinto emocionada. Foi comovente, Vieram pessoas que não se viam há tantos anos e que depois de tantos sacrifícios traziam o coração de volta ao país natal. Estas pessoas conseguiram retornar e abraçar a sua terra, sua aldeia — recorda Adriana, com lágrimas nos olhos.

Ela se lembra também que naquela ocasião alguns moraneses, quando foram embora da cidade, levaram para Porto Alegre algumas pedras de Morano:

— Eles diziam: eu quero levar comigo a pedra da minha cidade, é uma lembrança belíssima.

Entre as virtudes de Adriana, está a culinária. Ela é uma cozinheira de mão-cheia. Junto com Lina Mazzotta formam a brigada das mulheres defensoras das tradições populares da Calábria e das delícias do paladar. Mais ainda, todos os ingredientes são orgânicos; afinal defender a tradição é proteger o ambiente.

Civita e arquitetura inusitada

Na província de Cosença, seguimos para Civita, uma cidadezinha de apenas mil habitantes situada a 20 quilômetros de distância de Morano e que também é considerada entre as aldeias mais bonitas da Itália. Lá, vale a pena visitar o Museu Étnico Arbëreshët, com vestidos típicos e antigos objetos usados pelos albaneses.

As placas de informação nas ruas são escritas em duas línguas: italiano e albanês.

A jornalista albanesa Alba Kepi, visitando Civita, explica que os Arbëreshët na Itália mantêm as antigas tradições:

— O ritual religioso é ortodoxo. Eles falam um albanês arcaico como a língua de seiscentos anos atrás na Albânia — conta Alba.

As ruas de Civita parecem um conto de fadas. Uma das características da aldeia são as chaminés, quase obras de arte. Elas têm formas bizarras, segundo a inspiração do proprietário.

Na aldeia também há algumas casas com uma aparência antropomórfica, as chamadas “casas de Kodra”, uma homenagem ao pintor ítalo-albanês Ibrahim Kodra. São casas pequenas, com janelas como olhos, uma chaminé que parece o nariz e a porta como uma boca, compondo a fachada que lembra o rosto humano. Por isso, são conhecidas como “casas falantes”.

Civita é também conhecida pelas belezas naturais do imenso Parque do Pollino. Entre os passeios para fazer estão as Gargantas de Raganello, ribanceiras entre as montanhas rochosas e formam um “Canyon” com várias cachoeiras. Ali encontra-se a Ponte do Diabo com sua antiga e característica construção de pedra medieval.

A lenda conta que um proprietário de terras teria feito um pacto com o diabo, pedindo para construir uma ponte sobre o rio Raganello em troca da alma da primeira pessoa que a atravessasse.

O diabo aceitou a oferta e em uma noite de tempestade construiu a ponte com 36 metros de altura. O astuto proprietário de terras fez com que uma ovelha a atravessasse primeiro.

O diabo, descobrindo que havia sido ridicularizado, tentou destruir a ponte, mas não conseguiu. Até hoje temem que ele possa se vingar.

Vínculo de religião e fé com Brasil

De Civita percorremos 53 quilômetros de estrada para chegar a Rossano, cidade berço cultural da Calábria que tem vínculo especial com o Brasil.

Essa ligação entre calabreses e brasileiros está na Catedral de Maria Santíssima Achiropita, a padroeira da cidade. Ali se encontra a imagem da Nossa Senhora Achiropita, que conta também com milhares de devotos em São Paulo.

Cecilia Perri, especialista em história da cultura e vice-diretora do Museu Diocesano em Rossano recorda que esteve em São Paulo em 2005 para a exposição Obras-primas da Calábria, exibida no Museu de Arte Brasileira da FAAP. A mostra reuniu cerca de 100 obras dessa região da Itália, datadas do século XIV ao século XX, entre pinturas, esculturas em mármore e prata.

— Fiquei emocionada ao ver tanta devoção a Nossa Senhora Achiropita, tradição dos imigrantes calabreses. Em sua homenagem, uma grande festa é celebrada anualmente no mês de agosto no bairro do Bixiga — frisa Cecilia.

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Segundo a lenda cristã, no século VII uma pintura da Virgem foi retratada de forma milagrosa em uma igreja de Rossano. O nome “Achiropita” em grego bizantino significa “não feito por mãos”, porque a imagem teria sido realizada por meio de uma intervenção divina, e não por mãos humanas.

A lenda traduz que um artista começava a pintar a imagem de Maria durante o dia, mas, à noite, a imagem desaparecia. Para verificar se algum intruso estivesse apagando a pintura, foi colocado um vigia na igreja. Uma noite, uma bela mulher com uma criança em seu colo se apresentou ao vigia pedindo para entrar no santuário e rezar. Ele permitiu, mas a mulher demorou muito sem sair do local. Assim, o sentinela foi ao seu encontro. Quando entrou na igreja descobriu a imagem da mulher e do menino estampada no lugar da pintura que sumira. Assim, ele saiu gritando pelas ruas: “Nossa Senhora Achiropita!”

Codex Purpureus Rossanensis, o precioso manuscrito

Na sacristia da catedral de Rossano, foi encontrado um precioso manuscrito, em 1879: o Codex Purpureus Rossanensis. Reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, o Codex está no Museu Diocesano.

Trata-se de um dos mais antigos evangelhos existentes no mundo, único graças às suas quinze coloridas ilustrações em miniaturas que contam a vida de Cristo. Esse manuscrito é uma obra-prima da arte bizantina. Consiste em 188 folhas (376 páginas) de pergaminho e contém textos do evangelho de Mateus e de Marcos. As escrituras são em grego bizantino. Ele deve o adjetivo “Purpureus” ao fato de que suas páginas são avermelhadas (em latim purpureus).

— No início de cada evangelho, três frases são escritas em ouro; as demais são prateadas. As folhas são cuidadosamente processadas em pergaminho, tingidas de vermelho — explica Cecilia Perri.

A datação do Codex está circunscrita entre os séculos V e VI conforme apontam historiadores da arte bizantina e paleógrafos.

Corigliano-Rossano e um lindo castelo

A fusão entre Corigliano Calabro e Rossano, duas cidades vizinhas, ocorreu em 31 de março de 2018, depois de um referendo a favor desta união. Hoje, Corigliano-Rossano é o terceiro maior município da região da Calábria por densidade demográfica, com 77 mil habitantes.

No alto da colina de Corigliano reina o Castelo Ducal, considerado como um dos mais bonitos e mais bem preservados do sul da Itália. Sua história é ligada ao líder normando Roberto d’Altavilla, apelidado de Guiscardo, que em 1073 mandou construir esta fortaleza com o propósito de proteger o território dos perigos externos e também fazer a comunidade sentir o peso do poder dominante.

Natureza preservada

O Parque Nacional da Sila com seus 74 mil hectares é uma das maiores reservas naturais da Itália. O ambiente protegido preserva a biodiversidade com espécies nativas que só se encontram ali.

O símbolo do parque é o lobo, uma espécie massacrada durante séculos, mas que, felizmente, sobreviveu até 1970, ano em que foi instituída uma lei em favor da sua preservação. Hoje a caça é absolutamente proibida. A atração principal é o ecoturismo.

— Os lagos, cachoeiras, bosques e montanhas propõem circuitos turísticos esportivos como passeios de bicicleta, a cavalo, de barco, enfim várias atividades para todos que amam e respeitam a natureza — explica Antonello Martino, presidente da associação Camminasila.

Dentro do parque fica a chamada “Floresta dos Gigantes”, um bosque com 58 árvores nativas seculares e gigantescas, onde qualquer ser humano se sente uma formiguinha.

Marcas históricas de Cosença

Estendida sobre sete colinas, na encruzilhada dos rios Crati e Busento, Cosença é uma cidade fascinante pelos mistérios e lendas, do tesouro de Alarico, o rei Visigodo, ao esoterismo do Imperador Frederico II.

A fundação remonta ao quarto século antes de Cristo. O território era habitado pelos antigos povos enótrio e brutti até ser conquistado pelos romanos.

Ao longo da história, Cosença viveu uma série de eventos dramáticos com terremotos que destruíram várias vezes a cidade e as dominações que se seguiram.

A atriz Alma Pisciotta, membro do Parco Tommaso Campanella, ressalta as características esotéricas de Cosença com marcas deixadas por Frederico II, do Sacro Império Romano-Germânico.

A começar pelas duas construções inauguradas pelo imperador em 1222: a Catedral de Santa Maria Assunta e o magnífico Castelo Nornando Suevo, que domina a cidade.

Calábria, turismo de qualidade

Klaus Algieri, presidente Câmara de Comércio de Cosença confia na capacidade da Calábria de atrair um turismo de qualidade: “Para nós o turismo representa uma porta a 360 graus. Contamos com a beleza das cidades em harmonia com a paisagem, com a cultura, com a nossa história. Apostamos também no turismo ambiental, pois temos muitos parques e praias maravilhosas. Além disso, a nossa gastronomia é excelente. Só não queremos o turismo de massa.”

Na província de Cosença vale a pena visitar o Santuário de São Francisco de Paula, situado na colina sobre a cidade de Paula, e o Museo del Cedro em Santa Maria del Cedro, cidadezinha na costa das cidras, fruta cítrica rica de propriedades nutricionais usada em muitas receitas de comidas e bebidas e até cosméticos. Esta fruta tem grande importância na cultura hebraica.

Visite também San Nicola Arcella, magnífica cidadezinha litorânea, rica em histórias. O mar azul contrasta com as rochas brancas e grutas. Os passeios de barco conduzem ao Arco Magno e à Gruta de Eneias.

A Calábria é tudo isso e muito mais aguardando um turista de bom gosto cultural e devotado amor pela história.