AryGrandinetti

Para aproveitar o dia livre da minha mulher antes do início do seu curso, fomos à obrigatória Salzburgo, onde passeamos de charrete pelo lindo Centro Histórico, conhecemos a casa onde o cultuado Mozart (ele é uma espécie de Corcovado de lá, onde muito de quase tudo turístico gira no seu entorno) nasceu, e demos um passeio de carro pela cidade, opção quase obrigatória para ter um rápido overview da cidade, debaixo de chuva. O Hotel Schloss Monchtein, dentro da floresta no alto do morro de onde se vê toda a cidade, é um cinco estrelas ao qual eu prometi voltar assim que acertar na loteria acumulada. Luxuosíssimo, com Mozart tocando até dentro do banheiro. A mansão onde se filmou a casa da família von Trapp (atualmente ali funciona o Hotel Schloss Leopolskron, apesar de não termos percebido nenhum movimento) em A Noviça Rebelde, em frente ao lago Leopolskroner e ao Königswäldchen (Bosque do Rei), é outro ponto turístico concorridíssimo.  
Dia seguinte, Berchtesgaden, passando por pequenos e lindos lugarejos, cujos nomes só são pronunciados, creio eu, por quem é nascido e criado no local, conseguindo ligar todas as consoantes com apenas duas ou três vogais. Impossível repetir! Nem depois de beber muita cerveja com Jagermeister, cidadezinha encantadora, cujo centro se percorre a pé. Construções muito antigas, com paredes cobertas por afrescos com símbolos e personagens em trajes bávaros, ligando hotéis, bares, restaurantes, delicatessens, comércio variado de roupas a souvenires. Todas as janelas com floreiras, numa explosão de fantasias, contrastando com as cores das fachadas.
Ao andarmos em outro sentido, paramos num posto de gasolina em Bergen, onde comi a melhor salsicha de vitela (que nunca é só de vitela, sempre leva porco também) dos meus 63 anos, com uma ótima Wieninger Helles Lagerbier. Espetacular. Tanto que voltei outro dia só para repetir a experiência. Nos arredores, uma sucessão de pequenas e lindas cidades, em especial Riedering e Rosenheim. A salsicha e outros embutidos são outros santuários da culinária alemã e austríaca, mas, em ambos os casos, acertei pouco nas escolhas. Pena.
Atuei, digamos, profissionalmente, tanto no volume de cervejas bebidas quanto na visita a fábricas. Afinal, sou sócio da IRADA!, a excelente pilsen artesanalmente praiana do Rio de Janeiro. A fábrica da Unser Bürgerbräu, fundada em 1633, fica no centro de Bad Reichenhall. Essa visita virou uma sessão de tortura. Contratei um tour em inglês, mas me botaram num tour em… alemão! Duas horas vendo todo o processo fabril, mas sem entender uma única letra do mestre-cervejeiro. Fui seguindo a turma, mais ou menos como na missa que, apesar de ter estudado em colégio de padres, nunca entendi aquela marcação de cena do senta-levanta-ajoelha. Bom, da visita saí com uma certeza: de suicídio, se não foi dessa vez, não morrerei jamais! A fábrica Schönramer, na pequena e mimosa cidade de Shönram — uma rua com a cervejaria cercada de poucas casas e, claro, uma igreja — foi adquirida em 1780 por Franz Jacob Köllerer e continua sendo tocada pela oitava geração da família, mantendo a rigorosa adesão à Lei de Pureza da Bavária, decretada em 1560 por William IV. Fomos ciceroneados pela simpática mestra Regina Willsberger, que nos serviu alguns tipos. Eu levei uma bateria para o hotel, onde as mantinha na “geladeira natural”, a varanda do quarto, entre 0º e 4º C.
A visita à mina de sal Salzbergwerk foi um “momento Disney”, com todos usando o traje dos mineiros, trenzinho, lago subterrâneo, escorrega imenso por dentro da mina, exposição de esculturas de sal e holografias.
Em Obersalzberg, pegamos um ônibus — único meio permitido para acesso de mão única — para o Eagle’s Nest (Kehlsteinhaus). O lugar é lindíssimo pela exuberância da paisagem, cercada de montanhas nevadas e visão de 360º, alcançando até Salzburgo, e sinistro pelo peso histórico durante a Segunda Guerra, exatamente pela sua posição estratégica para Hitler e o comando nazista. Hoje, é uma atração turística muito concorrida, com restaurante e centro de documentação dos tempos de guerra. No subterrâneo do Hotel Türken, em Obersalzberg, foi construído o bunker (Bunkeranlagen) onde Hitler e seus principais oficiais se protegiam, em um complexo sistema interligado de túneis, abrigos e casamatas. Faltou-me fôlego — e estômago — para percorrer aqueles infindáveis corredores e escadas.
Königssee é um passeio imperdível. Um pequeno e charmoso centro, com hotéis, restaurantes e lojas leva ao cais de onde saem as barcas para navegar pelo belíssimo lago margeado por montanhas rochosas. Num certo ponto, o guia para o barco e toca um trompete voltado para a rocha, que devolve o eco num encantamento mágico, quebrando o silêncio da imensidão do lago. A Estação de Predigtstuhlbahn é uma das concorridas opções para trilheiros e esquiadores. O teleférico sai de Bad Reichenhall e oferece uma visão fantástica da Bavária.
Kitzbühel, na Áustria, é a cidade mais bonita e charmosa que eu vi na viagem. É uma das estações de esqui mais procuradas e fervilha durante o inverso. É muito pequena e pode ser percorrida em boa parte a pé. Fomos recebidos no restaurante do hotel Gasthof Eggerswirt pela chef e herdeira da quarta geração de proprietários, com roupas típicas e a conhecida cordialidade tirolesa. E, claro, com um excelente chope Edelweiss Weizenbier. E, assim, terminamos a primeira parte da viagem. Aguardem a próxima crônica, para a qual guardei a gema do ovo (com trufa!): a minha amada Itália.