A Procuradoria de Florença abriu investigação contra o ex-primeiro-ministro da Itália Silvio Berlusconi em um inquérito sobre os atentados cometidos pela máfia em 1993   

A notícia foi revelada a partir de um questionamento depositado pela defesa de Berlusconi no processo em segunda instância sobre as relações entre o Estado e a máfia, que tem como réu o ex-senador Marcello Dell’Utri, um dos aliados mais próximos do ex-premier e condenado em primeiro grau a 12 anos de cadeia.   

Os advogados de Dell’Utri haviam arrolado Berlusconi para depor no julgamento, que ocorre em Palermo. A defesa do ex-primeiro-ministro questionou se ele seria ouvido como testemunha ou investigado e obteve do MP de Florença a confirmação de que o líder conservador é alvo de inquérito.   

Informações extraoficiais já davam conta de que Berlusconi era investigado na Toscana desde 2017, mas até esta quarta-feira (25) não havia um posicionamento oficial. A suspeita é de que o ex-premier tenha sido o mandante oculto dos atentados cometidos pela Cosa Nostra, a máfia siciliana, em Milão, Florença e Roma, em 1993.   

Aos 82 anos de idade, Berlusconi já havia sido alvo de inquéritos semelhantes em outras duas ocasiões, sendo que o último foi arquivado em 2011. No entanto, em 2017, o Tribunal de Florença autorizou a reabertura do caso, após o MP ter obtido interceptações de conversas na cadeia envolvendo Giuseppe Graviano, ex-chefe de um clã da Cosa Nostra preso desde 1994.   

Os grampos foram feitos no âmbito da investigação que apura as relações entre o Estado e a máfia, conduzida pela Procuradoria em Palermo e na qual Dell’Utri foi condenado. Em uma das gravações, registrada em 2016, Graviano diz ao camorrista Umberto Adinolfi, seu companheiro de cárcere: “Berlusconi me pediu essa cortesia, por isso houve essa urgência”.   

A palavra “cortesia” seria uma referência aos atentados de 1993, que antecederam a entrada do ex-primeiro-ministro na política.   

“Ele queria descer [entrar na política], mas naquele período havia os velhos, então ele me disse: seria preciso que uma coisa bela acontecesse”, afirma Graviano em outro trecho das interceptações. 

Além disso, o mafioso conta que “se sentou” com Berlusconi no início dos anos 1990 e deu “bem-estar” a ele. “Depois me aconteceu uma desgraça, fui preso, e você [Berlusconi] começa a me apunhalar. E por quê? Por dinheiro, para não perder o dinheiro”, acrescenta. Dell’Utri também é investigado pelo MP de Florença.   

Contexto

O período entre 1992 e 1993 foi marcado por uma série de atentados da máfia nas principais cidades italianas, incluindo Florença, Roma e Milão.   

Berlusconi foi eleito primeiro-ministro no ano seguinte e viria a governar a Itália em três períodos (1994-1995, 2001-2006 e 2008-2011). Em abril de 2018, a Corte de Apelação de Palermo condenou políticos, policiais e mafiosos por um suposto complô entre o Estado e a Cosa Nostra para interromper a sequência de atentados na Itália.   

A contrapartida seria o relaxamento das penas e do regime prisional de mafiosos encarcerados. Durante o julgamento do caso “Estado-Máfia” em primeiro grau, o promotor Nino Di Matteo disse que a sentença comprova que Dell’Utri transmitia os pedidos da Cosa Nostra ao governo Berlusconi. (ANSA)