Em junho, a Copa do Mundo de Futebol Feminino, que será realizada na França, traz Brasil, Itália, Jamaica e Austrália no mesmo grupo. Depois de 20 anos fora do torneio, as italianas chegam ansiosas à competição, enquanto o Brasil vibra com a transmissão inédita dos jogos da seleção em TV aberta

Prepare a vuvuzela, as pipocas e a garganta. Este ano, tem Copa do Mundo de Futebol Feminino, organizada pela Fifa desde 1991. Entre 7 de junho e 7 de julho, a bola vai rolar nos gramados da França com 24 seleções em busca do título de melhor do mundo. Brasil e Itália estão na mesma chave, o Grupo C, junto com Austrália e Jamaica. Depois de amargar 20 anos sem participar do torneio, a Itália chega à competição confiante e com investimento pesado no futebol feminino. Já o Brasil  vem com o status de heptacampeão da Copa América em 2018, com uma torcida que, pela primeira vez na história, assistirá aos jogos da seleção em TV aberta.

A reportagem de Comunità acompanhou um dos últimos treinos da seleção brasileira, em Itu (SP), antes de o time embarcar para os Estados Unidos para o torneio She Believes, em março — e conversou com o técnico Oswaldo Fumeiro Alvarez, o Vadão. Após sagrar-se campeão da Copa América Feminina 2018 pela sétima vez, em abril, no Chile, o Brasil garantiu sua vaga para a Copa do Mundo 2019 e para os Jogos Olímpicos de 2020, no Japão. Porém, tantos predicados não são suficientes para tranquilizar Vadão. Ele observa que, de quatro anos atrás para cá, a competitividade aumentou, e o desafio este ano é maior.

— Em 2015, havia cinco ou seis equipes em condições de serem campeãs. Hoje, esse número cresceu para cerca de 10 times no páreo. O nível de qualidade técnica do futebol feminino mundial avançou muito nos últimos anos. Mesmo a Jamaica pode ser aquela surpresa, e não podemos vacilar. Se ela se classificou, é porque apresentou alguma coisa. É a equipe da qual temos menos imagens, também porque nunca jogamos com esse time. Nas eliminatórias, jogaram no erro do adversário, porque são muito velozes. Mas também enfrentaram outras equipes de igual para igual — avalia o treinador.

Para competir em pé de igualdade com esse alto nível do futebol, a seleção brasileira também se reinventou nos últimos anos: por um lado, amadureceu e conta com a experiência de atletas como Marta e Formiga (Miraíldes Mota), por outro, recrutou atletas mais jovens para mesclar o conjunto. A cada ano, essa renovação foi feita, aos poucos, selecionando aquelas que se destacaram em campeonatos fora e dentro do Brasil, como uma espécie de filtro para a Copa do Mundo.

— Temos uma equipe bem heterogênea. Desde 14 de janeiro, quando começamos nosso trabalho com o time feminino na Granja Comary, contamos com todo o respaldo da CBF, recebendo o mesmo apoio dado à seleção masculina, o que é importante. Agora, a ideia é melhorar o condicionamento físico e ganhar ritmo de jogo, trabalhando com as jogadoras que estão por aqui. Aquelas que jogam fora já chegam com esse preparo para se integrar no time — afirma.

Uma das atletas que atuam no exterior é a atacante da seleção brasileira Beatriz Zaneratto, que joga pelo Incheon Hyundai Steel Red Angels da Coreia do Sul. Por lá, inclusive, seu bom desempenho já lhe rendeu até comparações com Marta, eleita seis vezes melhor jogadora do mundo pela Fifa. Modesta, Bia, como é chamada pelas colegas, desconversa.

— Tudo faz parte de um trabalho que me fez evoluir. Agradeço muito ao treinador e à equipe coreana, com os quais estou aprendendo bastante. Acho que os bons resultados desse aprendizado por lá também repercutiram e ajudaram a conquistar meu espaço na seleção brasileira. Mas a Marta é incomparável. Ela é nossa rainha e, para mim, é um orgulho muito grande poder jogar com ela — derrete-se.

Porém, se o desempenho como jogadora é muito elogiado, não se pode falar o mesmo sobre sua fluência no idioma coreano:

— Tá meio arrastado, né? É uma língua bem difícil. Tem uma tradutora comigo o tempo todo, isso dá um pouco de comodidade. Aos poucos, vou melhorando — afirma.

Neta de italianos, Bia Zaneratto comenta a presença da Itália no mesmo grupo do Brasil.

— Acho que vai ser um pouco aquela volta às origens. Mas isso é bom, dá um gosto diferente, talvez até uma rivalidade a mais — brinca.

Ela entende que o diferencial da equipe brasileira está em um raciocínio conjunto que, ao mesmo tempo, reconhece as qualidades individuais.

— Temos a melhor jogadora do mundo, mas sabemos que só um jogador não é suficiente. Por isso, focamos no coletivo. Esse trabalho conjunto é importante também para ajudar a Marta e não deixar o peso só em cima dela. Precisamos distribuir a responsabilidade. Até porque é um processo que, ao final, vai favorecer todo o time —analisa.

A zagueira Mônica Alves mantém os pés no chão ao perceber as dificuldades que vêm pela frente, sobretudo no confronto com a Austrália, responsável pela eliminação do Brasil da Copa de 2015. A partida Brasil X Austrália será realizada no dia 13 de junho, em Montpellier, no Stade de la Mosson.

— Estaremos preparadas para qualquer desafio, mas sabemos que não vai ser fácil. Pela sequência de jogos, talvez a Austrália nos traga uma preocupação maior. A gente já se conhece muito bem, então acho que vai ser um jogo decidido em detalhes, onde quem errar menos vence. Elas formam uma equipe de força e velocidade. Teremos que tomar muito cuidado nessa transição do contra-ataque — prevê.

Este ano, quem pega a Austrália, algoz do sonho de título brasileiro na Copa anterior, é a equipe italiana, logo na estreia do torneio, em Valenciennes, no dia 9 de junho. Sob o comando da técnica Milena Bertolini, as italianas — depois de um jejum de 20 anos fora do torneio — chegam determinadas ao Mundial. Na lista do time, destacam-se a atacante Cristiana Girelli, a zagueira Cecilia Salvai e a meio-campista Barbara Bonansea, todas do Juventus.

— É uma equipe que mudou bruscamente o estilo de jogo, principalmente, nas partes física e tática. Também porque houve um investimento muito grande no futebol italiano, o que contribuiu para a ascensão do time — declara Vadão.

Trata-se de uma mudança de mentalidade no próprio modo como o futebol italiano feminino passou a ser interpretado pelas empresas e por times tradicionais, como Roma, Juventus, Fiorentina e Milan, que enxergaram no setor um novo nicho de negócio. A Federazione Italiana Giuoco Calcio (FIGC) remou na mesma maré, criando o alicerce necessário para a tão sonhada classificação da squadra azzurra este ano. Já no Brasil, apesar de alguns avanços, essa visão sobre o futebol feminino ainda precisa driblar alguns obstáculos, conforme menciona Vadão.

— O Brasil melhorou, mas está aquém outros países com relação à estrutura de clubes e categorias de base. Na hora de formar o time, a seleção vai buscar jogadoras nos clubes. Se os clubes não estão fazendo atletas, fica difícil. Nesse quesito, ainda estamos patinando — lamenta-se.

Uma brasileira no futebol italiano

Thaísa Moreno, meio-campista da seleção brasileira, é contratada desde outubro de 2018 do primeiro time de futebol feminino do Milan. Da Itália, Thaísa, que já atuou na Suécia, Islândia e EUA, conversou com a reportagem de Comunità, revelando um pouco do estilo de jogo que está acostumada por lá, comparado ao que conhece daqui.

— A Itália tem um estilo mais clássico, com muitas movimentações sem a bola, poucos lançamentos e treino quase todos os dias, praticamente, o oposto de todos os lugares onde joguei. O treinamento italiano é muito forte na parte tática. Já o brasileiro foca mais na parte física e técnica, com treinos de jogos reduzidos. Quando cheguei à Itália, senti um pouco a dificuldade dessa diferença, mas agora já estou adaptada. Independente das diferenças, acho que nossa seleção tem trabalhado muito e está focada para trazer esse título inédito para o Brasil — afirma.

Por sua vez, a catarinense Camila Martins, a Camilinha, meia-atacante da seleção brasileira, fará sua estreia em jogos da Copa do Mundo.

— Para jogadoras como eu, que vão pela primeira vez ao Mundial, o desejo desse título é mais do que uma conquista pessoal. Queremos esse prêmio também por nossas colegas, que já viram a bola bater tantas vezes na trave, em edições anteriores, e merecem essa vitória. Lembro quando assistia aos jogos de casa e falava para o meu pai: “Um dia, sou eu que vou estar lá”. Só quero fazer o meu melhor — afirma.

Como assistir

A primeira partida do Brasil pela Copa do Mundo 2019 acontece no dia 9 de junho, contra a Jamaica, em Grenoble, no Stade des Alpes. Já a Itália estreia enfrentando a Austrália, no mesmo dia, em Valenciennes, no Stade du Hainaut. Os jogos do Brasil serão transmitidos pela TV Globo e no site do Globo Esporte. O SporTV transmitirá todas as partidas da competição. Confira todos as datas, horários e locais dos jogos no site da Fifa: www.fifa.com/womensworldcup/matches