Ser brasileira é motivo de orgulho para a cientista política Giovanna Guiotti Testa Victer, mas a sólida raiz italiana que ostenta foi decisiva para desenhar a gestora pública que hoje está à frente da Secretaria de Fazenda de Niterói

A personagem Rosaria, matriarca interpretada pela atriz grega Katina Paxinou, do filme Rocco e seus irmãos, de Lucchino Visconti, mostrou a uma adolescente ítalo-brasileira, no final da década de 1980, muito mais que somente a estética neorrealista de que se vale a película. Apresentou à moça a essência da alma italiana, sobretudo a capacidade agregadora e emocional de que é capaz esse espírito que move toda uma raiz cultural; toda uma história. Assistindo ao clássico do cinema italiano, a jovem compreendeu a personalidade familiar que a envolvia e que, de certa forma, desenhou sua genealogia com as cores nitidamente vermelha, branca e verde, que estampam o pavilhão da Itália. Seus avós e pais trouxeram latente a alma da Bota. Aquela moça cresceu e orgulha-se disso até hoje. Tornou-se uma mulher respeitada no meio político, que atualmente ocupa a cadeira principal da Secretaria de Fazenda de Niterói. Giovanna Guiotti Testa Victer, 44 anos, é orgulhosamente brasileira, como não poderia deixar de ser, mas faz questão de mostrar que “respira” a Itália quase que sempre. Uma Itália amavelmente entranhada em sua alma.

— Tenho uma personalidade familiar desde muito cedo. Meus pais vieram do interior de São Paulo. A família é muito italiana, de cultura, de alimentação, de relação. Assisti a Rocco e seus irmãos saindo da adolescência e tive uma compreensão de família, do emocional, do matriarcal, muito interessante. Quando fui para Londres fazer meu mestrado, todo mundo perguntava se eu era italiana. O meu inglês tinha sotaque italiano. Os meus amigos italianos falavam que eu era mais italiana porque falo assim. Em todos os lugares, as pessoas perguntam se eu sou italiana. Falo alto, como as italianas, mas também sou muito franca e agregadora.

Giovanna Victer comenta sobre a origem de seus antepassados e destaca que filmes e músicas italianas marcaram sua adolescência

Sem dúvida, Giovanna encara esse genuíno perfil italiano. A voz sobressai firme e bem entonada; os gestos com as mãos sinalizam mais palavras que os lábios e, reconheça-se, o sotaque italiano é francamente perceptível. Impossível negar sua origem, algo impensável para Giovanna.

— Vieram três irmãos jovens da Itália. Tinham quinze, doze e nove anos. Um deles foi para o interior de Minas Gerais. Outro foi meu tio Angelo, falecido aos 95 anos, no ano passado, que nos passou a cidadania italiana. Do outro, a gente não teve mais notícias. Vieram de Marcaria (comuna da região da Lombardia, província de Mântua, com cerca de 7 mil habitantes). Não sei se deixaram pais por lá. A ascendência é muito distante, mas se separaram aqui.

Giovanna estudou italiano, em Brasília, sua terra natal, com apenas 15 anos— Foi a primeira língua que eu quis estudar. Não gostava de inglês, não gostava de espanhol. Queria estudar era o italiano — conta a secretária municipal, sem omitir a alegria pela recordação.

O curso em Brasília garantia, no final, uma viagem à Itália. Era tudo o que Giovanna ansiava. Seria aquela, em 1991, a primeira de muitas viagens que faria ao país europeu. Colocou uma muda de roupas na mochila e partiu para a terra dos seus ancestrais. Durante três semanas, ela estudou em Catanzaro, pequena comuna da Calábria.

— Se fosse para ficar num buraco na Itália, eu iria. Falei: “Mãe, paga a minha passagem, porque ganhei um curso para ficar três semanas no sul da Itália”. Foi exatamente o que aconteceu. A Itália é uma coisa que está muito dentro de mim e da minha família. Tenho uma relação com a Itália, com a música. Quando eu era criança, viajava de carro ouvindo só música italiana. Sei todas as músicas de cor. Ouço Peppino Di Capri, mas descobri depois Lucio Dalla, que curto pra caramba também. Mas naquela época eram aquelas bem tradicionais, aquelas bem românticas… “io che amo solo te” — cantarola Giovanna o clássico imortalizado na voz de Sergio Endrigo.

Hoje, a secretária de Fazenda de Niterói, fã também da gastronomia italiana e de um bom vinho Chianti, sempre que a apertadíssima agenda pública permite, escapa até a Itália com a família. Fez isso em janeiro de 2018. Ela e os familiares encararam um frio daqueles em San Gimignano.

— Só tinha gente da minha família. Estava tudo quase fechado. Era aquele inverno. Chegamos a um boteco, ao passar da hora, e aí o moço servia um queijo Pecorino, uma coisa de queijo! Parecia uma lasanha, o troço. O queijo derretido com presunto de Parma em cima. Huumm. Só aquilo e vinho. Foi o meu almoço. Com aquilo, é impossível não ser feliz — recorda.

Itália que está em Niterói

Giovanna incorporou ao seu modelo de gestão da Secretaria de Fazenda de Niterói muitos aspectos do conceito de capital social e sua aplicação nas políticas públicas desenvolvido pelo cientista político americano Robert David Putnam, que para este estudo comparou o sul com o norte da Itália a partir de uma explicação de natureza histórico-cultural com base no associativismo.

— Acho que o governo de Niterói tem muita sorte, porque a cidade encontra um ambiente parecido com o do norte da Itália. Tem muita associação aqui. Muito associativismo. A sociedade é muito agregadora. Ela forma capital onde a gente não enxerga como tangível. Reparo isso nas associações de moradores. Reparo isso em comunidades, como a italiana, que é muito forte — explica a secretária de Fazenda.

A busca incessante de um novo paradigma em gestão pública é o que mais motiva Giovanna ao longo de sua trajetória à frente de cargos federais e agora na prefeitura de Niterói. Mestre em Políticas Sociais e Planejamento pela renomada Escola de Economia de Londres (London School of Economics), a secretária trilhou um caminho em áreas públicas que garantem a ela segurança para fazer valer esse paradigma.

Giovanna Victer deixou a Secretaria de Planejamento, Orçamento e Modernização da Gestão de Niterói em março deste ano para assumir a de Fazenda, antes ocupada por Pablo Villarim.

Poupança dos royalties do petróleo

Um dos principais pontos da atual gestão da Prefeitura de Niterói é o Fundo de Equalização de Receitas (FER), uma espécie de “poupança” para a qual são destinadas partes dos royalties do petróleo e de participações especiais do setor que cabem ao município.

Até o fechamento desta edição de Comunità, a secretária ítalo-brasileira confirmou que a Prefeitura realizaria um aporte de 75 milhões de reais na “poupança” de royalties do petróleo ainda em julho.

A meta com a “poupança” é proteger a cidade das oscilações do mercado de petróleo ou quando esses recursos dos royalties e das participações especiais se extinguirem. O saldo da reserva especial até o final do ano deverá ultrapassar a meta inicial da prefeitura, que era de 200 milhões de reais, sobretudo devido aos próximos aportes previstos para agosto e novembro, que totalizam 49 milhões reais.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estima que — apenas em aportes obrigatórios — a “poupança” niteroiense receberá um volume de depósitos de 350 milhões de reais entre 2020 e 2023, chegando — ao final — a um valor de 600 milhões de reais.

Essa renda — destaca Giovanna, que também preside o Fórum Nacional de Secretários Municipais de Fazenda e Finanças — será fundamental para que as gerações futuras da cidade disponham de reservas no momento de escassez de receitas, inclusive as decorrentes da exploração do petróleo.

A utilização dos recursos do FER somente será admitida caso a receita de royalties ou de participação especial seja inferior ao estimado pela ANP para o ano fiscal corrente e a estimada na Lei Orçamentária Anual (LOA).

— A partir de 2017, começaram a entrar royalties do campo de Lula, na Bacia de Campos. As participações especiais, que eram de 60 milhões de reais, passaram a ser de 220 milhões de reais. Até 2016, os royalties representavam 10% ou 12% do nosso orçamento total, da nossa receita. A partir de 2017, ele já começa a representar 25% e este ano chega a quase 35%. Qual é a preocupação? É não criar despesa de caráter permanente para ser utilizada com esse recurso, porque são extraordinários e são finitos. E eles podem faltar a qualquer momento. Vamos guardar o tanto que recebermos, porque se houver uma frustração muito repentina dessa receita extraordinária e finita, a gente não tem um comprometimento dos serviços públicos — alerta a secretária de Fazenda, empolgada também com os avanços que pleiteia para a indústria naval na cidade e para os quais desenvolve com sua equipe técnica um amplo projeto de revitalização do setor na cidade.

— Vou dar a cara do setor naval de Niterói. Tem que ser agora. Com os leilões pesados no setor de óleo e gás nos últimos meses, os grandes players internacionais estão decidindo em que lugar vão operar. Niterói é um player. O que não pode hoje é Niterói ser tida como uma área decadente na área naval. A capacidade instalada de estaleiros aqui não há igual no Brasil. Na Ponta da Areia já há uma série de empresas que atende a área naval. Ainda estou fazendo estudos para ver qual outro setor indutor posso trazer para a cidade — antecipa.

Não falta impetuosidade da brava “italiana” Giovanna para que Niterói obtenha sucesso em suas empreitadas rumo ao desenvolvimento.