Terceira edição da Semana da Gastronomia Italiana no Mundo, realizada simultaneamente em mais de 100 países, celebrou a culinária do Belpaese em diversas cidades brasileiras com eventos variados

Cintia Salomão Castro e Giancarlo Palmesi

Aulas, conferências, bate-papos, degustações, almoços e eventos de happy hour promovidos de 19 de novembro a 1º de dezembro em centenas de cidades pelo mundo colocaram em evidência pratos e ingredientes únicos e tradicionais e o próprio estilo de vida italiano. No Brasil, a programação aconteceu em São Paulo, Brasília, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Na capital paulista, aconteceram palestras, workshops, degustação e exibição de filmes. O chef italiano Pellegrino Artusi ministrou palestra e curso sobre as excelências gastronômicas da Emília- Romagna na Universidade FMU, além de degustação dos vinhos da Vinícola Al Bano, fundada pelo cantor italiano Al Bano Carrisi, na Puglia. Foi exibido o filme O Vinho Perfeito, de Ferdinando Vicentini Orgnani. Em 22 de novembro, o premiado chef italiano Bobo Cerea, detentor de três estrelas do Guia Michelin, preparou um jantar especial no restaurante Picchi, e ministrou um curso de contemporânea cozinha italiana no ICIF de Santa Ifigênia.

No estado mineiro, de 19 a 25 de novembro, 11 restaurantes — nove em Belo Horizonte, um em Tiradentes e outro em Montes Claros — ofereceram um menu especial por um preço promocional. A Câmara de Comércio Ítalo-brasileira de Minas Gerais organizou dois cursos: um de degustação de massas artesanais, com o chef Rosario Messina do restaurante Bottega Coppola, de Montes Claros, e outro de degustação de sorvete artesanal, com Cristiano Junio e Milton Laine, especialistas da Leagel, empresa italiana de produtos para sorveterias. Os dois cursos, reservados para profissionais da área, foram realizados na Academia Nova Safra, no Ceasa.

Na dia 20, o Consulado italiano de Belo Horizonte foi o palco da entrega aos restaurantes do certificado de excelência Ospitalità Italiana —  reconhecimento é concedido pelo governo italiano e promovido pelas Câmaras de Comércio a estabelecimentos que testemunham a excelência da culinária italiana no mundo. Foram certificados pela primeira vez os restaurantes Bottega Coppola, de Montes Claros (MG); Vittoria d’Italia, de Brasília; D’agostim di Paratella, Il Limoncello e O Italiano, de Belo Horizonte. Foram reconfirmados a Trattoria Via Destra, de Tiradentes (MG), e Anella, Barolio, Domenico, Est! Est!! Est!!!, Nonna Carmela, Osteria Mattiazzi e Sapore d’Italia, de Belo Horizonte. Estavam presentes o presidente da Câmara de Comércio Valentino Rizzioli e o cônsul Dario Savarese, que recordou a grande presença de restaurantes italianos na região, “um vasto mundo de empresários, restauradores e cozinheiros” e, referindo-se aos vencedores, os definiu como “embaixadores da gastronomia italiana”.

No dia 21, a palestra “Conversas ao redor da mesa”, Casa Fiat de Cultura, o historiador Luca Palmesi forneceu uma visão geral da história da cozinha mediterrânea, partindo do conceito de dieta mediterrânea que foi definido como “um estilo de vida e uma ideia que têm raízes no mundo antigo e medieval”, mas que não corresponde exatamente ao que, nos tempos antigos, se comia no Mediterrâneo. Palmesi se concentrou na antiga origem das massas e no equívoco de que o espaguete tenha sido trazido à Itália por Marco Polo no século XIII. A ideia, segundo o historiador, nasceu no início do século XX de uma bem sucedida campanha publicitária da Associação dos Produtores de Massas dos EUA e depois levada adiante pelos filmes de Hollywood dos anos 1930.

— Na verdade, a massa nasceu muito antes, na bacia do Mediterrâneo e, provavelmente, a população do Oriente Médio foi a primeira a desidratá-la.

Uma degustação na sede da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS Minas) com seis vinhos de várias regiões da Itália contou com a apresentação, do sommelier Bruno Casaloti, tudo acompanhado por queijo parmiggiano, burrata, caponata, pães e azeite. A programação em Minas encerrou-se com um coquetel de gala na Fundação Torino, com a presença de representantes da comunidade italiana, empresários e autoridades, incluindo o presidente da Câmara Italiana de Comércio de Minas, Valentino Rizzioli; o secretário estadual da Cultura Angelo Oswaldo; a consulesa do Uruguai, Maria Alvarez; o cônsul da Argentina, Ricardo Massot e o cônsul da Itália em Minas, Dario Savarese.

Terraço Belvedere atrai público apaixonado pela culinária italiana

No Rio de Janeiro, o terraço Belvedere, no Consulado italiano do Rio, diante do panorama da Baía de Guanabara, foi o palco principal da Settimana, promovido pelo Instituto Italiano de Cultura. No local, a exposição E na bagagem… a Itália reuniu documentos, fotos e objetos, lembrando o legado da imperatriz napolitana Teresa Cristina, que influenciou a gastronomia da corte brasileira, trazendo receitas de Nápoles.

Durante palestra e aula para um público previamente inscrito, a cuoca napolitana Flávia Pantaleo contou em detalhes a influência da esposa de D.Pedro II., que vinha da corte dos Bourbon. Até o final do século XVII, em Nápoles, predominava a chamada cucina povera (cozinha pobre), inclusive na Corte. Após o advento da rainha da Sicília e soberana de Nápoles Maria Carolina (1768-1814), irmã da rainha francesa Maria Antonieta, começam a mudar os menus no reino dos Bourbon. Por isso, a cozinha partenopeia tem muita influência francesa, explica.

—A rainha Maria Carolina enviou a Nápoles seus próprios cozinheiros porque achava que os napolitanos comiam “só macarrão e folhas”, ou seja, era uma dieta baseada em verduras e massas, “pobre” demais para ser servida na corte. Os cozinheiros napolitanos foram à França aprender novos pratos. A influência foi maior na cozinha das famílias ricas, da elite. Eles introduziram o molho bechamel e o uso da manteiga, por exemplo. Porém, a maioria do povo continuou com a dieta baseada em verduras, leguminosas, sopas, tomate, massas etc. Em Nápoles, por exemplo, temos o Gateau di patate, que é uma pizza feita com batatas, de derivação francesa. Em menus da época do império brasileiro, encontramos a inclusão do babà. Sendo uma bourbone, Teresa Cristina deve ter introduzido esse e outros pratos da culinária servida na corte dos Bourbon — comentou com Comunità a autora do livro La cucina dei pasticci e dei timballi.

Ela também participou da programação em Brasília, onde o Brasil um evento foi realizado na Embaixada da Itália com o tema La cucina al tempo dei Borbone, passeggiata nella storia culinaria del Regno delle Due Sicilie, com a aula C’era una volta il babà.

Caponata di mare e pizza com pesto de pistacchi surpreendem o público
Durante a programação no Rio, diferentes chefs serviram um almoço a cada dia: Bobo Cerea, do Da Vittorio; Carmine Marasco, do Da Carmine; Paolo Di Bella, da Osteria dei Sardi; Silvio Podda, da Casa do Sardo e Michele Petenzi; além da própria Flavia Pantaleo.

Em seu almoço, dedicado à culinária de sua terra natal, a Sicília, Paolo Di Bella surpreendeu com a caponata di mare.

— A culinária siciliana é bem difundida no mundo. Mas a caponata di mare, com tinta de lula, surpreendeu a todos. Todo mundo conhece a caponata de berinjela e pimentão, e eu acrescentei lula, camarão e atum. Na Sicília, a caponata di mare está na moda — contou Di Bella.

O pizzaiolo campeão do mundo, Valentino Libro, de 32 anos, foi uma das estrelas da Semana no Rio. Dono de duas pizzarias (em Caserta e em Nápoles), ele coleciona prêmios: é campeão intercontinental e mundial, além de constar no Guinness pelo recorde pizza mais comprida do mundo, com dois quilômetros de extensão.

— Minha preparação inclui de 24 horas a 50 horas de levitação. Uso  ingredientes de primeira, como pomodoro biológico e mussarela de búfala campana DOP. Nos últimos anos, a pizza napolitana cresceu muito, impulsionada também pela Unesco, que reconheceu a arte napolitana de fazer pizza como patrimônio da humanidade. Sem dúvida, foi uma grande vitória para a categoria dos pizzaiolos. A pizza está substituindo cada vez mais os restaurantes estrelados. Você gasta 20 euros em vez de 150 euros. Esse boom durará ainda por quatro, cinco anos, acredito. Há cada vez mais cursos. Mas esse é um trabalho q deve ser escolhido com o coração — comenta.

Perguntado sobre as novidades no mundo da pizza que chegem da Itália, ele revela que trouxe na bagagem pesto de pistacchio.

— Antes, os italianos eram mais fechados na tradição. Hoje, as pessoas lá experientam mais. Muitos italianos provaram e gostaram da pizza com pesto de pistacchio ou pesto de nozes — revela.

O happy hour no Terraço Belvedere foi um capítulo à parte: ocorreu durante duas semanas e reuniu um público expressivo, que saiu dos seus locais de trabalho para ouvir música italiana ao vivo, beber um Spritz ou vinhos biológicos italinos, comer as pizzas do pizzaoiolo Bruno de Nicola, a fritturina di mare e a massa fresca sarda culurgiones assinadas pelo chef Silvio Podda. No local, o público pode conhecer e conversar melhor com os chefs que realizaram menus do dia em um clima de descontração.

Em Porto Alegre, a Settimana contou com a presença da chef Rosângela Anele e inclui degustação de pratos e vinhos, curso de sommelier, workshop sobre dieta mediterrânea e a exibição do filme La Cena, de Ettore Scola.

Gelato em casa

Milton Laine, especialistas da Leagel, empresa italiana de produtos para sorveterias, ministrou um curso de sorvete italiano durante a Settimana em Belo Horizonte e presenteou os leitores de Comunità com essa receita de gelato caseiro:

Para fazer um quilo de sorvete caseiro, é necessário aquecer 685 gramas de leite, que depois são levados ao liquidificador, junto com cinco gramas de estabilizador HS 90 ou similar, que atua apenas quando quente e vigorosamente mexido; 100 gramas de creme de leite fresco com 35% de gordura, 150 gramas de açúcar, 60 gramas de leite em pó integral e o ingrediente que dará o sabor ao sorvete. Bate-se tudo no liquidificador, congela-se e depois bate-se novamente com um liquidificador ou até mesmo com um mixer. Para acelerar o processo de congelamento, pode-se colocar a mistura em um saco plástico ou em um recipiente grande o suficiente de modo que fique mais aberto e que também possa ser transportado com facilidade.