POR ANDRÉ FELIPE DE LIMA

Se o roteiro da peça eleitoral italiana já era incerto, mesmo com o resultado das urnas do dia 4 de março, agora, após dois meses de total indefinição e sem governo, os italianos deverão ir novamente às urnas, provavelmente em julho. Presenciamos algo inegavelmente incômodo: um parlamento eleito que não legisla simplesmente porque as caóticas regras eleitorais do país impedem que isso aconteça. Uma delas é exigir consenso político de uma plêiade formada por atores que não se entendem, e talvez jamais se entenderão. Desde 1948 não se via algo assim na Itália, ou seja, um sistema parlamentar incapaz de acatar a voz das urnas e seguir seu rumo legislativo e governamental.

O exíguo tempo para uma custosa campanha eleitoral poderá afetar diretamente os candidatos do exterior. Muitos não terão fôlego para uma nova e tortuosa jornada na busca de votos. A tendência é que o quadro de candidatos seja completamente diferente do que presenciamos de janeiro a março. Por enquanto, a maioria silencia até que Roma decida que rumo dar para a politica.

Enquanto isso, de concreto, a derrota fragorosa do presidente Sergio Mattarella a quem cabia apaziguar os “vencedores” nas urnas e convencê-los de que o consenso e o debate político deveriam estar acima de animosidades pretensamente ideológicas. Essa “animosidade” tem como artífices principais Luigi Di Maio (Movimento 5 Stelle) e Matteo Salvini (Lega), cujos partidos dos quais são líderes representam mais da metade do Parlamento recentemente eleito.  Ambos deixaram Mattarella isolado e sem força política. Com a dupla vencedora de março, um governo “neutro” seria, portanto, algo impensável, como editoriais da Comunità alertaram logo que os resultados finais das pesquisas eleitorais foram divulgados semanas antes de os italianos irem às urnas.

Di Maio e Salvini querem um novo pleito o mais rapidamente possível, entre junho e julho. Um risco porque o período é de férias. Os dois parecem realmente inflexíveis. Di Maio sinalizou junho e pleiteia um decreto de emergência para isso. Silvio Berlusconi, que já declarou ser peremptoriamente contrário a um governo com Di Maio e Salvini, quer no outono, ou seja, entre setembro e dezembro.  Justamente o último mês do ano é a preferência de Mattarella, que já sinalizou sua disposição em criar um governo “neutro” até dezembro e, em seguida, levar o país às urnas caso os protagonistas do caos institucional na Itália não criem um “gabinete político”. “O governo presidido pelo honorável Gentiloni [atual premier Paolo Gentiloni] a quem agradeço pelo trabalho que está desenvolvendo nessa situação anômala, exauriu sua função e não pode mais ser prorrogado, já que é fruto de uma maioria parlamentar que não existe mais”, discursou recentemente o aparentemente resignado Mattarella, que deixou claro ao povo italiano não existir uma maioria com Liga e M5S e ser impraticável uma maioria entre M5S e Partido Democrático.

O cenário de incertezas poderá gerar especulações no mercado financeiro italiano e, evidentemente, mundial. O belicoso contexto político dos últimos dois meses transformou-se em uma séria crise institucional. Ou será que os investidores confiariam seus empreendimentos e ações a um país sem governo e com políticos sempre às turras e voltados para interesses meramente particulares? Junho será definitivamente um mês turbulento na Europa, quando haverá uma série de decisões sobre o destino de imigrantes, um dos pontos mais sensíveis durante a campanha eleitoral, e que certamente decidiu a vitória das vozes xenófobas presentes no M5S e, sobretudo, no Lega.

O mais temerário é que uma nova eleição não garante rigorosamente que a Itália consiga ser governada após o pleito. Poderá predominar uma dialética perniciosa que colocará em risco o bem estar da população, com reflexos danosos, e nem um pouco etéreos, em todos os setores produtivos e sociais do país. O preço da vaidade e do maniqueísmo dos “vencedores” de 4 de março poderá ser muito alto, e quem pagará a penosa conta será o povo italiano da Península e do exterior. Realizar novo pleito sem antes promover uma profunda reforma eleitoral não garantirá um cenário diferente do que esteja atualmente impregnado na política italiana, esta refém do caos. Por enquanto, lamentavelmente, não “habemus” governo.