A iminência de um governo de forças populistas e ultranacionalistas na Itália, país fundador da União Europeia, levantou temores de que Roma possa seguir a estrada já percorrida pelo Reino Unido. No entanto, a atual postura do Movimento 5 Estrelas (M5S) e da Liga deixa claro que o “Italexit” não é mais prioridade de nenhum deles

Nascido já no século 21, em meio ao descontentamento da população com a classe política e a crise econômica, o M5S tinha como um dos pilares de seu programa a convocação de um plebiscito para tirar a Itália da zona do euro – o slogan da proposta era “Você pode escolher entre viver ou morrer”.

Já a tradicional Liga, inicialmente separatista, mas hoje símbolo da ultradireita italiana, ia ainda mais longe: queria o rompimento total com Bruxelas. No entanto, as últimas eleições revelaram uma postura muito mais flexível de seus líderes em relação à UE, que pouco foi mencionada nas negociações dos últimos dois meses.

“Ainda que a união monetária seja um projeto destinado ao fracasso, a saída do euro não está entre as prioridades da Liga.

O ideal é que o euro seja desmantelado pelos países mais fortes”, disse o economista e senador “leghista” Alberto Bagnai, em entrevista à imprensa estrangeira.

Durante a campanha, o secretário da legenda ultranacionalista, Matteo Salvini, em sabatina na ANSA, chegou a se definir como um “europeísta”. Em sua visão, o ideal é que a Itália permaneça na União Europeia, mas como “protagonista”.

Mesmo que Salvini cobre a revisão dos tratados europeus, sua postura representa uma mudança histórica para alguém que dizia que a UE devia ser “abatida”. Já seu futuro parceiro de coalizão, Luigi Di Maio, líder do M5S, conduziu o partido discretamente do euroceticismo para um europeísmo ainda relutante.

O possível futuro primeiro-ministro da Itália diz agora que “não é o momento” de deixar o euro, justificando que o enfraquecimento do “eixo franco-alemão” abre espaço para Roma aumentar sua influência na União Europeia.

Até mesmo a questão do déficit, que Bruxelas limita a 3% do PIB, deixou de ser um tabu para M5S e Liga, que venceram as eleições com propostas altamente onerosas para os cofres públicos, como a renda de cidadania, a abolição da reforma previdenciária e a introdução de uma alíquota única no imposto de renda.

Durante as negociações de governo, a linha apresentada pelo M5S é de não “forçar” no tema do déficit e mantê-lo dentro do patamar de 1,5% do PIB. Se houver necessidade de aumentá-lo, a questão será discutida com a UE, adotando uma postura “racional” e “razoável”.

Outro lado – Isso não quer dizer, no entanto, que um governo M5S-Liga não trará problemas para Bruxelas, que terá de lidar com uma Itália muito mais hostil às suas políticas, principalmente na questão da migração em massa.

Porta de entrada para o bloco, a Itália é um dos pilares dos planos de acolhimento da UE, cenário que pode mudar com uma provável ofensiva contra as “viagens da morte” no Mediterrâneo.

Bruxelas também terá pela frente as discussões sobre a reforma da Convenção de Dublin, que dita as regras de refúgio no bloco, e o orçamento para o período 2021-2027.

O histórico de Salvini e Di Maio pode indicar uma aproximação maior com o grupo Visegrád (Hungria, Polônia, República Tcheca e Eslováquia) do que com Alemanha e França, países que querem realizar uma profunda reforma na UE, mas aumentando a integração. (Agência ANSA)