Estivemos em Anguillara Veneta, berço dos Bolzonaro, camponeses que emigraram para o Brasil no século XIX, e conversamos com alguns parentes do novo presidente

Uma nova alvorada ilumina Anguillara Veneta, localizada no rico e industrial nordeste da Itália. A cidade está localizada na província de Padova, às margens do rio Agide, na zona rural. E ela entra no mapa do Brasil através das páginas da história. Aqui os Bolsonaro são de casa. O município é o berço esplêndido da família do presidente eleito Jair Messias Bolsonaro, escrito na Itália com a letra “z” no lugar do “s”. Mas, nesta região, o sotaque transforma a fonética da última letra do alfabeto. No Brasil, Bolsonaro foi registrado assim como se pronuncia o sobrenome na terra de origem, muito comum por aqui. Os interfones das novas e antigas construções indicam muitas famílias Bolzonaro. Hoje, muitas casas e poucos prédios compõem o tecido urbano milenar. Sim, os primeiros registros mostram a presença de um vilarejo criado por volta do ano 1000 d.C.

Ainda existe a rua Canareggio, local de nascimento de tantos Bolzonaro, com mais de um quilômetro de extensão,  ligando o centro habitado à zona rural. A economia da cidade gira em torno da agricultura. Anguillara Veneta é conhecida no mundo inteiro pela qualidade da batata doce — implantada aqui pelos poucos imigrantes que retornaram do Brasil. O lugar é tranquilo e bucólico, perto do delta do Pó. Os castelos do período áureo foram demolidos quando a República de Veneza, pouco Sereníssima, tomou conta do território e o “dodje” decidiu fazer terra arrasada de qualquer traço de dominação precedente. Sobraram paisagens de cartão-postal e tanta história para contar.

A prefeitura está instalada em um pequeno prédio a poucos metros do centro da cidade. A então candidatura de Jair Messias Bolsonaro já tinha chamado a atenção. O jornal de Bolonha, Il Resto di Carlino, foi  o primeiro a divulgar a informação sobre a ascendência italiana do brasileiro. A eleição acabou transformando a pequena cidade num epicentro histórico. O prefeito Luigi Polo nos acompanha ao segundo andar, no departamento do setor demográfico e anagráfico.

Lavradores sem terra, membros da família Bolzonaro partiram do norte da Itália no final do século XIX rumo ao porto de Santos
Os arquivos não mentem e, guardados com um cuidado maniacal, revelam as raízes italianas do novo presidente do Brasil. Com cuidado, ele tira o livro de 1878, e mostra a certidão de nascimento de um “tal” Vittorio Bolzonaro. Outro volume antigo, bem ao lado, traz os registros das famílias que viajaram para o estrangeiro. Em 22 de abril de 1888, Angelo Bolzonaro, lavrador, partiria com toda a família para nunca mais voltar, numa viagem pelo oceano Atlântico, de Gênova até o porto de Santos. A travessia duraria 20 dias. Dela faziam parte a mulher e os três filhos, incluindo Vittorio, com dez anos de idade na época, futuro bisavô de Jair Bolsonaro. Vittorio, ao se tornar homem, já em terra brasileira, casaria e teria um filho, batizado como o avô imigrante Angelo que, por sua vez, seria pai de Percy Bolsonaro, que ajudaria a trazer ao mundo uma criança de nome Jair.

O cruzamento dos dados entre as certidões de nascimento e as datas da imigração não deixam dúvidas.

— No começo, tivemos um pouco de confusão porque outros três Bolzonaro tinham imigrado na mesma leva. Mas agora temos certeza de que Vittorio Bolzonaro é o bisavô de Jair Bolsonaro — diz o prefeito Luigi Polo, enquanto manuseia com cuidado extremo as frágeis páginas do robusto livro.

Ele demonstra-se orgulhoso de ter contribuído para o esclarecimento da história, pela qual nutre uma paixão antiga. Os registros começaram a ser realizados em 1870. Todos estão bem preservados e escritos com uma caligrafia impecável.

— Mantemos os arquivos da melhor maneira possível, mas o ideal seria podermos digitalizá-los. Alguns tentaram até puxar a história dos Bolzonaro para um outro lado, um outro Comune, mas a dinastia nasce aqui, em Anguillara Veneta — diz ele, referindo-se ao vizinho município de San Martino di Venezze, numa época remota, anexado à cidade de origem da dinastia Bolzonaro e separado apenas por uma ponte sobre o rio Agide.

— Eles eram muito humildes. Eram camponeses que trabalhavam numa terra que não lhes pertencia. Na segunda metade do século XIX, tivemos aqui um período duro, com fome. E até houve uma doença que se propagou por falta de uma boa alimentação; foi uma espécie de peste — nos conta Polo.

Na época, como hoje, a cidade tinha cerca de quatro mil moradores. Deste total, mil foram embora e poucos voltaram.

— Os imigrantes aqui do norte viajaram, em sua maioria para a América do Sul, enquanto que os imigrantes do sul foram, quase todos, para os Estados Unidos. Curioso, não? — comenta.

Os tempos da carestia ficaram para trás, mas algumas antigas casas e igrejas daquele período ainda estão de pé, como testemunhas silenciosas de um grande êxodo rural. Uma destas construções é o Oratorio del Capitello de 1865, onde está uma das esculturas universais da Madonna com o Cristo morto no colo. Nela, os habitantes pediam proteção divina para si próprios e a quem deixava Anguillara Veneta, território por séculos de propriedade de uma instituição laica, a Arca del Santo di Padova,  mas estreitamente e terrenamente inspirada e controlada pelo ente religioso da Basílica de Santo Antônio de Padova. Esta igrejinha fica bem na entrada da cidade e não é difícil imaginar a caravana de imigrantes passando diante da porta, com seus integrantes dando aquela olhadinha para trás e guardando no fundo da memória uma imagem da terra natal que significasse fé e esperança num futuro melhor.

Os Bolzonaro que aqui ficaram não tiveram vida fácil. Da carestia nutricional às guerras, eles sofreram de tudo. Dois deles morreram sob as armas, como celebram duas lápides de mármore branco, postas bem na entrada da prefeitura. Nela, estão gravados os nomes dos combatentes pela liberdade italiana: Luigi Bolzonaro, na Primeira Guerra Mundial, e Diego Bolzonaro, durante a Segunda Guerra Mundial — tombaram contra o império germânico e otomano, antes, e o nazismo e o fascismo, depois, dentro e fora da Itália, respectivamente.

Sobrenome é comum, mas afinidade política com o ex-capitão brasileiro é rara
Os sobrenomes Bolzonaro são fáceis de achar. Difícil é encontrar alguém com afinidade política com as ideias do brasileiro. Giannia Bolzonaro mora em frente à prefeitura de Anguillara Veneta.

— Talvez eu seja uma prima distante, não sei. Sei que eu nasci naquela rua Canareggio, famosa por ser o origem de tantos Bolzonaro. Acho que se ele vier aqui vai ser bem recebido, mas não sem um pouco de polêmica nas praças. Eu não concordo com quase nada daquilo que ele disse em campanha eleitoral —revela a italiana Giannina Bolzonaro.

O seu temor tem uma razão de ser. Anguillara Veneta é uma ilha de esquerda cercada pela extrema-direita por todos os lados, numa região governada pela partido da Lega Nord, de orientação nacionalista e, como consequência indireta e direta, xenófobo, salvo raríssimas exceções.

Uma senhora que vive diante do antigo oratório conta que seu cunhado está procurando os documentos para descobrir se somos ou não parentes distantes do novo presidente do Brasil. A incerteza do parentesco está na ordem do dia, pois foram quatro chefes de família Bolzonaro que viajaram para o Brasil. A prefeitura publicou um livro que conta a história da imigração e traz algumas cartas manuscritas de quem estava do outro lado do mundo. Mas não é simples costurar todos os pontos desta epopeia italiana.

O prefeito Luigi Polo aproveita a notoriedade para divulgar seu município ao mundo. Ele está no segundo mandato e mandou uma carta de felicitações ao ilustre bisneto da terra natal, Jair Bolsonaro. Se for convidado para a posse irá a Brasília: seria uma honra.

— Como representante de um país, uma figura institucional importante, como o presidente, eu, como prefeito, o receberei aqui com muito prazer. Porém, isso não significa que eu aprove as suas ideias, com as quais eu não compartilho. Mas a democracia prevê um rodízio de forças políticas. As discussões são válidas. E lembro também que Anguillara Veneta está ligada ao Brasil pelas nossas batatas doces. Elas foram trazidas por outro italiano, Cristóvão Colombo, mas a cultura mesmo chegou com os imigrantes daqui que voltaram do Brasil, trazendo as mudas dentro de jarras de água — diz ele, que pertence ao partido de centro-esquerda Anguillara Solidale.

No caso de uma visita oficial, o novo presidente já sabe qual vai ser o cardápio. Anguillara Veneta, mesmo que esteja localizada numa zona industrializada, vive de agricultura, essencialmente. Os tratores facilitam o trabalho, mas muita das atividades de colheita ainda são realizadas manualmente. Rita Fantina é uma pequena camponesa. Dois marroquinos ajudam a coletar e descascar as batatas.

— Sim, eles são imigrantes do Marrocos e realizam um trabalho sazonal. Uma cooperativa organiza a distribuição desta mão de obra, que é necessária. Aqui, esse tipo de batata encontrou um terreno propício, a terra vermelha —afirma ela, enquanto organiza as montanhas de batatas doces (batata americana doce de AnguillaraVeneta, certificada Denominazione Comunale),  que vão chegar aos supermercados e às feiras livres.

Muitas foram consumidas durante a festa de San Giuseppe, no dia 19 de outubro, que celebra o rito das batatas selecionadas e guardadas numa estufa tradicional, para proteger as futuras mudas, os butì, em dialeto local, do rigor do inverno. Rita Fantini olha os produtos, pensa um pouco e diz:

— Eu sugiro ao presidente Jair Bolsonaro algumas receitas fáceis, feitas com as nossas batatas. O gnocchi de batata americana (ipomea batatas, nome científco, para não deixar dúvidas), por exemplo, que leva farinha, ovo, manteira e água, além, claro, da batata espremida em rolinhos, com canela em pó e um pouco de queijo ralado. Ou uma torta salgada a la anguillarese, sem falar do risoto de batata, polenta.

A cozinha tradicional da dona de casa vêneta pode entrar no Palácio do Planalto pela porta da frente. Pratos com sabor de infância e de terra natal. Ao final, batatas quentes na mesa de governantes e governados. Porque, no fim de tudo, se trata de raízes — tubérculas ou não.