Comunità viajou ao sudoeste da Úmbria com uma caravana de carros antigos e descobriu a cultura de um território profundamente ligada ao cultivo de azeitonas

A nossa viagem começa em Amelia, cidadezinha histórica no sudoeste da Úmbria. Partimos com uma caravana de carros antigos para descobrir o território umbro, entre verdes colinas repletas de oliveiras, castelos e monumentos medievais, percorrendo lugares por onde passou São Francisco. A largada foi na Escuderia Museu Traguardo, no centro de Amelia. Traguardo era o nome da oficina de Rinaldo Tinarelli, que na década de 1950 ficou conhecido como o “mago dos motores”. Ele nasceu na cidade e foi piloto de corridas, entre elas, a Mil Milhas. Apaixonado por mecânica, montou uma oficina em Milão, ativa até a década de 1960 no velódromo milanês Vigorelli. Muitos anos depois, em 2014, o sonho de Tinarelli readquiriu vida. Um sonho que não se limita aos motores, mas vai além, unindo a paixão pela cultura à história de Amelia. Foi assim que um grupo de amigos e colecionadores de carros antigos decidiu reestruturar um galpão para transformá-lo em um museu de veículos que marcaram épocas.

A palavra traguardo significa ponto de chegada e também o cumprimento de uma meta. O objetivo da escuderia-museu é preservar e divulgar as tradições culturais do sul da Úmbria. Seguimos juntos com uma caravana de carros antigos, a bordo de um Triunf amarelo canarinho conversível, de 1960. O empresário Enzo Gatti, proprietário do veículo, explica que foi fabricado na Inglaterra e comprado por um norte-americano que o levou à Califórnia, até que ele adquiriu o veículo oito anos atrás.

— Tive que restaurar todo o carro, refazer a pintura e substituir algumas peças, que nos carros antigos é difícil encontrar. A funilaria completa demorou seis meses, mas valeu a pena. Hoje é como um carro novo — diz.

Seguimos por uma pequena estrada ao sul em direção a Narni, típica cidadezinha medieval umbra sobre uma colina. A caravana de carros antigos leva jornalistas estrangeiros da Alemanha, Rússia, Sérvia, Venezuela, Estados Unidos, Escócia, Japão e Brasil (representado exclusivamente por Comunità).

Narni, a sentinela da região

A frota bizarra de carros, com diferentes sons dos motores e buzinas, lembra um grupo de cavaleiros medievais rumo à conquista de um castelo — sim, o castelo de Narni. Trata-se de uma fortaleza medieval construída sobre uma montanha em 1367, com finalidade defensiva, por ordem do cardeal Egidio Albornoz, daí o nome Rocca Albornoziana. A posição desta robusta construção é estratégica, com vista de 360 graus sobre o vale do rio Nera e de todas as rotas de acesso da região do Lácio a importantes cidades úmbrias como Perugia, Terni e Amelia. Não é à tôa que Rocca Albornoziana é conhecida como a sentinela do sul da Úmbria. Ao longo dos séculos, sofreu assaltos, incluindo o das tropas que saquearam Roma em 1527, que conquistaram e devastaram a cidade subjacente de Narni. Após várias vicissitudes e um período de decadência, o castelo foi comprado e restaurado pelo município de Narni e pela província de Terni, que trouxe de volta o seu antigo esplendor.

O castelo foi transformado em um museu que propõe um mergulho na Idade Média. Na primeira sala, estão expostos instrumentos medievais de tortura, todos em ferro, inclusive um cinto de castidade.

O primeiro modelo de cinto de castidade feminino foi inventado por um italiano: Francisco II de Carrara (1359-1406). O tirano mandou fabricar este acessório para que sua mulher usasse durante a sua ausência. O instrumento era usado sobre o ventre, envolvia totalmente os órgãos genitais, e era trancado ao redor da cintura por um cadeado para impedir a atividade sexual feminina. O marido era única pessoa que tinha a chave, e muitas vezes permanecia até um ano longe de casa empenhado em batalhas. O longo período de uso do cinto poderia levar à morte por infecções derivadas de problemas higiênicos. Nas outras salas do castelo, a visita é mais amena. Estão expostas roupas, instrumentos musicais, quadros, mosaicos e afrescos. No alto da torre, a vista sobre o vale e toda a região impressiona pela beleza.

Pérola da arte românica em Lugnano in Teverina

O rugido dos motores se cala diante de tanta beleza. Chegamos a Lugnano in Teverina, reconhecida internacionalmente como um dos burgos mais bonitos da Itália. A cidadezinha tem menos de dois mil habitantes e guarda um tesouro de imenso valor artístico: a Igreja Colegiada de Santa Maria Assunta. Construída há mil anos, mantém suas características originais. O estilo arquitetônico é românico com pedras maciças que representam a “fortaleza de Deus”. A fachada decorada com uma roseta possui também um pórtico apoiado em quatro colunas, cujos capiteis no alto são decorados com figuras em baixo relevo. Dentro, o piso é em estilo cosmatesco, ou seja, geométrico e com incrustações em pedras típicas da arquitetura da Itália medieval, inspirado nos mosaicos do Império Bizantino.

O que mais se destaca nesta igrejinha é a simbologia artística dos ornamentos. A maioria das pessoas na Idade Média era analfabeta, por isso a mensagem cristã era comunicada com símbolos. Não é para menos que o simbolismo na arte românica é considerado como “a bíblia dos pobres”.

Castelo de Alviano, o baluarte do Renascimento

Prosseguimos por uma estrada provincial em direção a Alviano, uma cidadezinha circundada por uma reserva natural protegida pela associação ambientalista WWF Itália. A área de 900 hectares de natureza incontaminada tem um lago e hospeda várias espécies, entre eles, muitos pássaros migratórios. No alto da colina está o imponente Castelo de Alviano, mais um salto no tempo entre as maravilhas da Úmbria. O baluarte foi construído por Bartolomeu de Alviano, nobre comandante militar e arquiteto. Edificado por volta de 1490 sobre uma antiga estrutura medieval, o castelo era a fortaleza e a residência da família Alviano. O local tem uma peculiaridade ainda mais antiga e de grande significado religioso. Na entrada do castelo, encontra-se uma placa com a escrita:

“Nesta praça da fortaleza de Alviano, na primavera de 1212, São Francisco de Assis falava aos nossos cidadãos e fez silenciar as andorinhas. Aqui ele pensou e prometeu as regras da vida evangélica para a Terceira Ordem Franciscana”.

Dentro do enorme castelo, está o Museu da Civilização Camponesa, com instrumentos rurais antigos, ilustrações sobre técnicas de agricultura e imagens de arquivos históricos. Vale a pena visitar a capela com afrescos sobre a vida do santo, pintados pelo artista Giuseppe Bastiani no século XVI.

O prefeito de Alviano, Giovanni Ciardo, nos recebeu em seu gabinete, localizado na torre medieval do castelo. Ele contou que, em 2010, com as obras de restruturação, foi descoberta uma escada que ligava a torre à praça central. A escada em pedras brancas foi restaurada e seu acesso é protegido por uma placa de vidro espesso.

E, como em todo castelo, não poderia faltar um fantasma.

— Em 2014, uma visitante do museu perguntou à guia turística se alguém já havia sentido sinais estranhos no local. A guia contou que aconteceram coisas inexplicáveis. Então, a visitante revelou que era uma médium, que sentia presenças espirituais e sofrimentos passados dentro do castelo. Foi assim que decidimos fazer uma pesquisa mais profunda junto com a médium e com uma associação especializada em campos magnéticos. Eles passaram uma noite no castelo. Em algumas salas, que serviram de prisões, os campos magnéticos emitiram sinais anormais, provavelmente do sofrimento dos prisioneiros. Além disso, a médium disse que viu soldados napoleônicos nas escadas. Um manuscrito antigo confirma que o castelo hospedou alguns soldados de Napoleão Bonaparte — revelou o prefeito.

Amelia, uma cidade fundada antes de Roma

Ao se deparar com as pedras gigantes dos muros construídos três mil anos atrás, nós nos sentimos minúsculos diante da história de Amelia, uma das mais antigas cidades da Itália. O escritor Plínio, no livro III da obra História Natural, afirma que a cidade foi formada quatro séculos antes da fundação de Roma, por volta de 1134 a.C.. O nome Amelia deriva do lendário fundador, o rei Ameroe, por isso seus habitantes — cerca de 12 mil pessoas — se chamam amerini.

Caminhar pelas ruas do centro é como entrar no túnel do tempo vendo de perto monumentos preservados de várias épocas. A começar pelos muros antiquíssimos construídos em dois períodos. O muro megalítico — composto por blocos irregulares, não polidos, ordenados de maneira primitiva — que se encontra na parte mais alta da acrópole, foi edificado ente o oitavo e o sétimo século antes de Cristo. O outro muro poligonal foi erguido entre o sexto e quarto século antes de Cristo para proteger a cidade da invasão dos povos vizinhos, entre eles os etruscos. Com 10 metros de altura e 3,5 metros de espessura, é formado por grandes pedras calcárias unidas sem argamassa de cimento, e cerca a área urbana com uma extensão de 700 metros.

A cidade conta com seis portões de acesso, entre eles a Porta Romana (século III a.C.) que representa o ingresso principal.

Ao se aliar com Roma Antiga, Amelia teve um período florescente e passou a ser uma das mais importantes cidades da Úmbria. Os romanos construíram grandes obras, entre elas, as cisternas que hoje podemos visitar. Trata-se de um conjunto de cavernas subterrâneas usadas como depósito ou como parte do sistema hidráulico. De particular interesse é a cisterna de dez ambientes interligados

localizada na Piazza Matteotti, que remonta ao século I a.C. e restaurada na década de 1990. Símbolo da grandeza romana é a estátua de bronze de Germânico, político e militar pai do imperador Calígula. Trata-se de uma obra de valor excepcional e única no mundo, preservada no Museu Cívico e Arqueológico de Amelia.

A Idade Média deixou fortes marcas na cidade. A igreja de São Francisco é um exemplo. Sua construção terminou em 1291, quando o papa Nicolau IV emanou a Bula Licet is, que estabelecia a indulgência de 40 dias aos devotos que visitassem esta igreja durante as principais festas católicas.

Entre os vários palácios do Renascimento espalhados pela cidade, destaca-se o Venturelli, de uma antiga família conhecida em Amelia desde 1300. Neste edifício, podemos encontrar traços de várias épocas: romana, medieval, renascentista e barroca. No subterrâneo há pisos em mosaico romano antigo e nos outros andares detalhes e estruturas de outros períodos que marcaram a história da arte. Além das riquezas culturais, a paisagem natural em volta encanta o visitante, com amplos vales e colinas com oliveiras e vinhas, montanhas repletas de castanheiras e outras árvores típicas da vegetação local. A poucos quilômetros de Amelia, aos pés da colina que ergue a cidade antiga, o córrego do Rio Grande, graças a uma barragem do século XIII, forma um reservatório artificial conhecido como Lago Velho. Esta lagoa, antes usada para alimentar os moinhos de vento, é acessível através de uma ciclovia.

O ouro da Úmbria é verde

Com sete metros de altura e folhagens pouco densas e verdes, em tons que lembram a prata refletindo a luz do sol, a oliveira Raio demonstra força e majestade. Seu tronco retorcido, marcado pela beleza das rugas, exibe com orgulho seus 300 anos de idade. Estas oliveiras tão antigas contam a história da Úmbria, das pessoas que amam a própria terra, da cultura local e das suas tradições que passam de geração em geração. O clima da Úmbria não favorece a produção de grandes quantidades de azeitonas, mas a qualidade delas é considerada entre as melhores da Itália. Assim como o vinho, o melhor azeite é derivado do sofrimento da planta. As oscilações térmicas na Úmbria, que ocorrem em setembro e outubro, estimulam as plantas a se defender do estresse. Este sofrimento faz acumular substâncias fenólicas que protegem a deterioração do óleo nas células da polpa da azeitona. Os polifenóis são os menores componentes responsáveis pela característica nutricional e sensorial do azeite. Graças a eles, somos capazes de distinguir as famosas e apreciadas notas amargas e picantes, típicas do azeite umbro. A preservação de variedades nativas destaca torna ainda mais especial o azeite do sudoeste da região. Para conhecer a história do azeite da Úmbria, vale a pena visitar o Museu Oleificio Bartolomei, em Montecchio. O visitante aprecia fotos antigas e instrumentos agrícolas, e ainda degusta a qualidade do tradicional extra virgem que a família Bartolomei produz.

Um azeite que vem do infinito

Amerino, no sudoeste da Úmbria, uma das poucas regiões da Itália não banhadas pelo mar, reúne nove cidadezinhas milenares: Amelia, Montecastrilli, Avigliano Umbro, Penna in Teverina, Lugnano in Teverina, Guardea, Alviano, Attigliano e Giove. Entre verdes colinas serpenteadas por vinhas e oliveiras, a terra parece não ter fim. A fertilidade das idosas árvores produz azeitonas raras, matéria-prima de um azeite extra virgem único no mundo e que recebeu um nome sugestivo: Infinito. É produzido pela cooperativa Fondatori, que reúne produtores da Úmbria (Colli Amerini, Colli Assisi Spoleto e Colli orvietani). Existem dois tipos: o Clássico, com 30% de azeitonas da variedade Moraiolo e outras nativas, e o Reserva, com 30% de azeitonas Raio e outras nativas. Rico em polifenóis e antioxidantes como o Omega 3 e o Omega 6, que ajudam a prevenir doenças cardiovasculares e tumores, o azeite extra virgem se difere do comum por ser extraído somente através da prensagem das azeitonas, sem nenhum outro tipo de processo. Uma boa produção deve ocorrer de modo que as condições de processamento térmico não alterem as substâncias preciosas contidas nele. O Infinito é obtido por prensagem a frio das azeitonas, método que caracteriza a qualidade superior do extra virgem. Por isso, possui o certificado de garantia DOP (Denominação de Origem Protegida).

— O Infinito é um raro azeite de qualidade que não está disponível no comércio, mas é reservado exclusivamente para pessoas que se distinguem pelas obras e serviços feitos em beneficio da humanidade ou pela preservação do nosso planeta — explica Giovanni Crocelli, presidente da Fondatori.