Fabio Porta defende voto no exterior, porém sob um novo modelo ainda a ser discutido pelo novo Parlamento

POR STEFANIA PELUSI

As cédulas votadas pelos cidadãos no exterior residentes em 177 países diferentes já estão em Roma, e precisamente em Castelnuovo di Porto, perto de Roma, onde a apuração dos votos começará simultaneamente com aquela dos italianos na Itália, às 23 horas (horário italiano).

Enquanto os candidatos esperam o resultado das votações, alguns fizeram uma reflexão sobre a campanha eleitoral recém-encerrada. Uma campanha breve — pelo curto período eleitoral que aqui no Brasil coincidiu com a época de férias e feriado de Carnaval —, que teve como protagonistas vários ataques entre os candidatos, fake news e principalmente o uso de redes sociais. Houve ainda o primeiro debate dos candidatos realizado por um canal de TV, no caso a TV Câmara. Embora a transmissão tenha sido somente pelo YouTube, é inegável que o evento reunindo a maioria dos candidatos representa um avanço na campanha eleitoral dos ítalo-brasileiros.

A circunscrição da América do Sul, onde fica o Brasil, escolherá seis parlamentares, sendo quatro deputados e dois senadores. As seis cadeiras foram disputadas por quase 90 candidatos, sendo que 24 são ítalo-brasileiros ou italianos que vivem no Brasil. Comparado com as últimas eleições, em 2013, a campanha deste ano apresentou mais candidatos do Brasil. Além de mais candidatos, também os eleitores tiveram mais listas para escolher.

Apesar de eleger menos de 2% dos parlamentares da Itália, o voto no exterior poderá ter mais importância caso o cenário de fragmentação partidária previsto pelas pesquisas realizadas até o dia 17 de fevereiro se confirme.

Apesar do cenário confuso, a candidata Renata Bueno, do Civica Popolare, em depoimento à Comunità, exaltou a campanha que desenvolveu. Ela visitou várias cidades pelo Brasil a fora, nas quais há uma intensa atividade de colônias italianas. “Visitamos várias cidades do Brasil e algumas dos outros países da circunscrição, principalmente as capitais. Fiquei muito feliz com o retorno que recebemos das pessoas. O reconhecimento de um trabalho feito com dedicação e empenho. Ainda há muito a fazer, claro, mas estamos no caminho certo, tenho certeza”, assinalou Renata.

Renata Bueno criticou ataques nas redes sociais

A candidata do Civica Popolare ressaltou que o Brasil foi o país que mais candidatos apresentou na América Latina, porém com ressalvas. “Devemos estar atentos a nomes que apareceram somente para trazer votos a legendas para eleger deputados de outras nacionalidades. Candidatos sem uma campanha definida, sem ideologia. Sem uma base de apoio no País”, afirmou.

Renata criticou ações de grupos políticos nas redes sociais e de outros candidatos. Para ela, a campanha que executaram foi “baixo nível”. Não houve um bom debate, porque não existia proposta. Alguns candidatos tiveram suas campanhas pautadas em ataques levianos e fake news, uma pena. Nós que já estamos no Parlamento, em Roma, conhecemos a política italiana e as atribuições de um parlamentar. Alguns candidatos que se apresentaram nessas eleições aparentemente desconheciam este processo. Isso foi percebido pelo nível das discussões. Não vimos muitas propostas horizontais, que abrangessem a função parlamentar, deste a tutela da Pátria Itália até a defesa dos interesses dos italianos no exterior”, explicou a candidata.

Renata afirma que o eleitor foi quem mais perdeu com o que definiu como ausência de um bom debate. “Quem perdeu com isso foi o eleitor, que ao invés de decidir seu voto pelas propostas apresentadas, se deparou com uma guerra de ataques de todos os tipos, inclusive alimentados por uma pequena parte da mídia italiana no Brasil, que infelizmente alimentava estas práticas”, concluiu.

Abstenção do eleitorado preocupa Thiago Roldi

O candidato Thiago Roldi (Unital) lamentou ao jornal A Tribuna, de Vitória (ES) o baixo número de votos dos descendentes italianos no Brasil. “Assim como em outros anos, teve um número muito baixo de votação – muito por conta dos eleitores que não conseguiram receber as cédulas de votação. Segundo algumas publicações nacionais sobre o assunto, menos de 40% dos descendentes exerceram o direito de votar”, disse.

Fabio Porta, do Partido Democrático (PD), concluiu que a quarta campanha eleitoral para a escolha de 18 deputados da circunscrição no exterior foi curta, porém a mais fraca dos últimos tempos e caracterizada pela discussão em redes sociais, ao contrário da eleição de 2006, pautada pelos debates e assembleias. “Foi uma eleição também caracterizada pela multiplicação das ‘listas fai-da-te’ [listas ‘faça você mesmo’], da autopromoção de candidatos improváveis”, disse Porta.

Para Porta, a campanha foi caracterizada por uma presença desproporcional de candidatos residentes no Brasil, que — segundo ele — teria reduzido as chances de eleição dos candidatos da  comunidade ítalo-brasileira. “A tendência, ao invés de orientar-se na concentração de listas e candidatos, tem sido aquela de dispersar, muitas vezes devido à simples ambição pessoal e não pela vontade política legítima de partidos e candidatos”, ressaltou o candidato do PD.

Fabio Porta critica modelo do voto por correspondência. “Precisa mudar”

O candidato, que atualmente é deputado e tenta se eleger dessa vez ao Senado, está entre os três dos 630 deputados com melhor índice de produtividade em Montecitorio. “Tenho orgulho deste excelente trabalho e de ter obtido o que até agora ninguém conseguiu fazer. Obrigado a todos aqueles que seguiram e apoiaram minha campanha eleitoral e a de todo o Partido Democrático, em particular na América do Sul, apesar das férias de verão e do carnaval”, agradeceu Porta, que questiona, contudo, o modelo atual do voto por correspondência, embora defenda sua manutenção, mas sob outro arquétipo.

“Porém estou convencido de que aqueles que votaram estiveram cientes do grande desafio que espera os italianos no mundo nos próximos anos, aqueles em que se decidirá se o voto no exterior será uma conquista consolidada para sempre ou um lindo sonho que interesses local ou pessoais correm o risco de transformar em um pesadelo. Em geral, os tons da campanha eleitoral foram tranquilos, embora em alguns casos não. Recebi acusações anônimas e outras falsidades de alguns candidatos. Um, por exemplo, me acusou de estar a favor da imigração ilegal. Também lamento ter lido insultos e ofensas nas redes sociais de alguns candidatos a simples eleitores”, finalizou Porta.

‘QUEM PODE GASTAR MAIS TEM MUITO MAIS CHANCE’, DIZ TADDONE

O candidato Daniel Taddone (Unital) acredita que finalmente as eleições italianas passaram a ser objeto de discussão nas redes sociais, pelo menos entre as pessoas mais motivadas. “Todavia é muito frustrante verificar que a esmagadora maioria dos eleitores só se envolve com o processo no momento que recebe o material para a vocação e acaba escolhendo seus candidatos em base a folhetos de propaganda. Sendo assim, o fator que decide é o poder econômico dos candidatos e suas conexões políticas com partidos brasileiros. Quem pode gastar mais tem muito mais chances. As regras não deveriam permitir isso, ou melhor, o teto de gastos da campanha deveriam ser mais controlados, pois vários candidatos gastam dezenas de vezes mais do que é permitido por lei, disse Taddone.

Ao ser questionado sobre a sua primeira campanha eleitoral, o candidato da Unital disse que tinha a esperança de que a internet permitisse um debate mais aberto entre os candidatos, o que ocorreu somente em pequena medida. “Muito mais timidamente de quanto eu creio que seria saudável. Alguns candidatos não debatem nada, simplesmente discursam para uma plateia inerte”. Apesar disso, o candidato considera que no microcosmo daqueles que se envolvem com as eleições o clima foi bastante bom no geral. “O problema é que para mais de 70% dos eleitores não houve clima nenhum, pois esses simplesmente nem se envolvem. E isso precisa mudar”, concluiu.

ELEITORES CEARENSES NÃO RECEBERAM CÉDULA

Para Cesare Villone (Forza Italia), da coligação de centro-direita, a campanha eleitoral foi muito curta. Ele considera que 25/28 dias foram insuficientes para que os eleitores conhecessem o seu programa político. Villone foi o único candidato do Ceará e relata uma questão preocupante, ou seja, que no estado nordestino os eleitores não receberam o envelope com as cédulas para votar. “Esta situação é gravíssima porque fere o princípio de direito de expressão do voto por negligência do sistema de voto italiano no exterior que não funciona!”, alertou.

Villone relatou também que em Fortaleza, onde reside, e em todo o Ceará, ele podia contar com algumas centenas de preferências, porém foram votos que faltaram devido a essa “grave injustiça”. Ao ser questionado sobre a campanha eleitoral no Brasil, ele considera que apesar de alguns ataques desmotivados nas redes sociais, principalmente por algumas páginas do Facebook criadas ad hoc para disfarçar-se por trás do anonimato, no entanto, atribuível à equipe de um candidato ao Senado, o resto ocorreu em um clima de respeito mútuo e concorrência leal.

MODELO DE VOTO POR CORREIO É ULTRAPASSADO

A candidata Silvana Rizzioli (Liberi e Uguali) comentou em uma rede social sobre o resultado dos votos na América do Sul e a baixa participação dos eleitores brasileiros. “A Argentina exerceu uma expressiva oligarquia e uma forte influência nos estados brasileiros. O Brasil, país de dimensões continentais, teve pouquíssima participação de cidadãos e descendentes italianos no processo eleitoral. Podemos falar de pouco mais de 30%”, lamentou Silvana.

Além disso, a candidata do Liberi e Uguali aponta outros problemas durante a campanha, como a falta de informação e a complexidade do processo eleitoral via Correios, pois cerca de 20% das fichas foram invalidados pela ausência do comprovante eleitoral. Ela afirmou também que muitas cédulas eleitorais não retornaram aos consulados em tempo hábil devido às férias coletivas e ao carnaval no Brasil. . “Esse processo eleitoral por correspondência, totalmente arcaico, está aberto a fraudes, como já aconteceu no passado”, alertou.

Para Silvana, a Itália e a América do Sul não têm interesse em criar condições de igualdade para seus cidadãos, mas sim cada vez mais elitizações e a conivência com governos capitalistas. “Infelizmente, essa é a condição dos italianos e de seus descendentes na América do Sul, população desinteressada, inexpressiva e cada vez mais interessada nos processos de cidadania, não para expressão do jus sanguinis, mas sim como obtenção de “visto turístico” e facilitações impróprias para quem não conhece sua geografia, sua cultura e o básico do seu idioma”, assinalou Silvana, que, em nota, conclui a crítica com tons fortes: “Não adianta ter uma Itália fora da Itália nestas condições e com esta mentalidade oportunista. Realmente este perfil de italianos residentes nas circunscrições do exterior não merece nem a cidadania e nem o direito de voto”.