Comunità teve acesso a análise encaminhada ao mercado; eleição do próximo dia 4 de março não oferecerá respostas imediatas para os dois cenários

DA REDAÇÃO

Comunità teve acesso ao relatório preparado pela XP Investimentos sobre possíveis desdobramentos das eleições italianas, marcadas para o proxímo domingo, dia 4 de março. O documento alerta os investidores sobre o grande desafio que a Itália encara com os bancos, que nos últimos dois anos presenciou o resgate de instituições financeiras, como o Monte dei Paschi, um dos mais tradicionais do país, a liquidação de dois bancos regionais e o resgate via mercado do grupo Carige.

Os analistas da XP não estão otimistas. Ao que tudo indica, destacam, a situação italiana ainda demorará para ser resolvida. Tanto na questão política, quanto na questão bancária. Para eles, a eleição do próximo dia 4 de março não oferecerá respostas imediatas para os dois cenários.

“Muito provavelmente a formação de um novo governo deve extrapolar essa data. No entanto, acreditamos que o cenário mais provável é o de uma coalizão que não discuta a questão de um Referendo pela saída do zona do euro. Algo que será celebrado pelos mercados e não desencadeará em uma volatilidade excessiva, colaborando para o bom momento da economia global”, conclui o relatório da XP Investimentos.

A Itália ainda tem no setor bancário aproximadamente 180 bilhões de euros de non-performing loans (empréstimos duvidosos com baixa probabilidade de serem pagos), ressalta o estudo. O debate no país é se a recuperação econômica recente deve ser utilizada para auxiliar esses bancos na questão dos empréstimos duvidosos. “Possivelmente limpando balanços e agrupando esses empréstimos duvidosos, vendendo-os à desconto. Uma outra possibilidade conta com ajuda externa, da zona do euro”, frisa o relatório.

Os analistas da XP descartam a possibilidade de um referendo similar ao Brexit, pedindo a saída da Itália da zona do euro. Diz o relatório que os partidos que defendiam esse propósito hoje se mostram avessos à medida. Pelo menos no atual momento.

Segundo a XP, a crise bancária italiana é um reflexo inexorável da crise financeira que atinge o país, que contempla uma recessão de dois dígitos, seguida por um crescimento fraco, desemprego alto (especialmente entre jovens), e o colapso da demanda interna. Aos bancos se acrescentam corrupção e a questão das taxas de juros baixas da zona do euro, ressaltam os analistas.

“A situação bancária italiana é, portanto, bastante crítica e deve desencadear em uma solução que passa por órgãos supranacionais, como a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu. Isso significa, em outras palavras, que membros como alemães e belgas terão que optar entre ceder em suas convicções para resolver um problema com potencial destrutivo enorme, ou insistir em contrapartidas correndo o risco de uma crise regional”, aponta o relatório.

O debate não será curto e o resultado das eleições será importante nas contrapartidas italianas, destaca o estudo da XP. Se um candidato com bandeiras reformistas vencer o pleito, mais predispostos estarão os membros da zona do euro para auxiliar na crise bancária italiana. Caso um candidato populista vença, a negociação se tornará mais difícil. As pesquisas mais recentes junto ao eleitorado italiano mostram que a coalizão mais à direita, com viés populista, deverá sair vitoriosa, porém a última semana de campanha tem sido acirrada e com mobilizações sociais violentas. Está tudo em aberto.

O estudo da XP aponta duas possíveis saídas para esse cenário bancário turbulento no país. “A Espanha mostrou um fundo levantado pela instituição que socorreu bancos locais. A outra [saída], e atualmente defendida por membros da zona do euro, é a do Chipre. Neste caso, vimos a pressão pela participação no socorro dos bancos por seus grandes acionistas. Assim, um candidato vencedor que siga com a ideia de austeridade fiscal e reformas teria uma inclinação mais favorável da zona do euro para uma ajuda mesclada entre os dois casos. Enquanto um candidato populista provavelmente sofrerá pressão para um socorro aos bancos nos moldes do Chipre”, assinala o relatório.