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Sinai 'parla' italiano Imprimir E-mail
Península do Sinai, balneário egípcio às margens do Mar Vermelho, atrai cada vez mais turistas estrangeiros, e os italianos já são considerados como donos do pedaço

ImageEgito — Os italianos são exímios descobridores de terras novas.Tem sido assim desde os tempos das grandes navegações e, ainda mais atrás, no período do Império Romano, com as legiões desbravando regiões distantes do imaginário coletivo da época. Hoje este movimento continua sob a égide do turismo e, um pouco menos, da arqueologia. O desembarque dos italianos em varias áreas do globo demonstra uma visão treinada para revelar aos olhos dos ocidentais lugares deslumbrantes. As mais recentes descobertas arqueológicas no Egito foram realizadas por italianos. Junto com os alemães, os ingleses e os franceses, o povo da Península se “dà da fare” quando o assunto é viagem.


Em muitas regiões do planeta a sua presença chega a contaminar a cultura local. No arquipélago de Cabo Verde, a meio caminho entre a Itália e o Brasil, em pleno Oceano Atlântico, a segunda língua falada é o italiano, tal é a quantidade de turistas e de proprietários de apartamentos que fazem investimentos imobiliários na “seconda casa di campagna”. Se pode dizer quase o mesmo na Península do Sinai, no Egito. Em particular, a cidade de Sharm El Sheikh, um balneário tranqüilo, às margens do Mar Vermelho, debruçado sobre a barreira coralínea. Toda a orla da praia está ocupada por cadeias de luxuosos hotéis e de condomínios fechados, quase tudo made in Italy. Tudo ia bem até o dia 25 julho de 2005, quando quatro bombas explodiram simultaneamente na altura de Naama Bay — uma das localidades mais turísticas — e matou 69 pessoas, entre elas seis italianos. O ataque terrorista freou o desenvolvimento do turismo na região. O trauma foi grande e somente agora os visitantes de sempre estão retornando.

— Sim, tenho receio de que algo aconteça. Mas sabemos da importância do turismo nesta região e devemos continuar a ajudar quem dele depende — diz Giuliana Costa, socióloga italiana, de férias em Sharm El Sheikh.

Image Até o final dos anos 80, aquele pedaço de terra arrasada, na Península do Sinai, tinha apenas três hotéis. Hoje eles são quase incontáveis. Ainda bem que os arquitetos respeitaram o meio ambiente e realizaram construções inspiradas nas moradias dos povos locais. Nada de paredões frios ou arranha-céus que cortassem a vista das montanhas. Ainda assim, quem esteve lá 20 anos atrás e voltou só agora poderia ter um choque cultural. Um oásis — com todo o luxo que o dinheiro dos países ricos do Ocidente pode proporcionar — nasceu com ares de Disneylândia. Do nada, sobre a areia do deserto inóspito, brotaram Mc Donalds, Hard Rock Café e até o nada zen Budda Café, muito famoso em Paris. Isso para não falar do Pizza Hut e Kentuck Fried Chicken. Todos eles com palmeiras artificiais, em neon, espetadas na porta. Elas brilham de noite, enquanto os turistas caminham para cima e para baixo atrás de pechinchas do velho suk — o mercado popular.

A barganha faz parte do jogo e, diante de uma oferta, o consumidor já tem que começar a negociar pelo menos com o preço 50% mais baixo. Só não existe negociação nos restaurantes. Os valores dos pratos já estão escritos no cardápio. É pegar ou largar. Os restaurantes trazem o cardápio em italiano e, mais recentemente, em russo. Os egípcios, mestres na arte de vender qualquer coisa, estão de braços abertos para os novos turistas do Leste Europeu e da Rússia. Mas os italianos ainda são maioria. Afinal, são eles que injetam milhares de euros na economia local. E quase todos, italianos ou “estrangeiros” — sim pois o italiano já é considerado de casa — desembarcam em Sharm — assim chamada pelos íntimos — em vôos fretados, numa verdadeira e ininterrupta ponte aérea. Pacotes turísti cos atraentes e mais segurança foram os únicos meios para conter a fuga dos visitantes e tentar erguer a economia local atraindo-os de volta.

Sharm El Sheikh é uma cidade inventada para o turismo. O italiano é a segunda língua, ainda que o inglês tenha uma presença forte. É raro não encontrar um morador, ou trabalhador do setor hoteleiro ou de serviços que não arranhe o idioma. A maioria da mão-de-obra local na verdade foi importada de outras regiões do Egito. Não por acaso os “operários do turismo” vivem aqui sem as famílias. O custo de vida é muito alto para os padrões egípcios. Por isso, quase não se vê mulheres e nem crianças. Todos continuam morando nas cidades de origem — Cairo e Alexandria, principalmente — à espera dos recursos amealhados durante a alta e a baixa temporadas. Se pode dizer que todo o Egito cabe dentro dos mercadinhos espalhados pela cidade. Réplicas de pirâmides, papiros, roupas, especiarias, narguilés, enfi m, todos os elementos da cultura do país estão ao alcance dos olhos. Os espetáculos abertos ao público se multiplicam durante a noite em diferentes locais: dançarinas do ventre se exibem nos hotéis, cantores se apresentam em bares e restaurantes. Enfim, a vida retoma o seu ritmo, ainda que com feridas expostas.

‘TURISMO SEGURO’
A segurança é ostensiva. Centenas de policiais à paisana ou com o uniforme ofi cial estão espalhados pelas ruas, calçadas e pelas praias. É quase impossível dirigir sem passar por uma blitz. O meio-fio de áreas próximas a locais muito freqüentados é alto o suficiente para impedir o ataque de um caminhão-bomba. Todos os hotéis têm na entrada barricadas e detectores de metais. Mesmo assim, o turista acaba se deixando levar mais pelas belezas do lugar do que pelo risco de se tornar vítima de um atentado. O Mar Vermelho é considerado pelos especialistas com um dos melhores lugares no mundo para a prática do mergulho. A barreira de coral é uma festa para os olhos do banhista mais simples ao mergulhador mais bem equipado. A poucos metros da superfície, em alguns casos a poucos centímetros, está um dos ambientes mais ricos em vida marinha de todo o planeta. Peixes de todos os tamanhos e cores se aproximam sem medo. Verdadeiros jardins de corais servem de moradia para habitantes esquisitos, pequenas criaturas que se mimetizam a ponto de passarem quase despercebidas.

A água cristalina vem do Oceano Índico, do estreito de Balb al Mandab, “estreito das Lágrimas”, a cerca de dois mil quilômetros de distância. Ao longo desta viagem, ela vem sendo depurada pelas correntes e chega ao litoral do Sinai limpa de qualquer material em suspensão. O pouco que entra através do canal de Suez, passagem para o Mar Mediterrâneo, não chega a comprometer o grau de visibilidade. Não por acaso, Sharm El Sheikh tem dezenas de centros de mergulho e é ponto de partida para excursões à ilha de Tiran, distante cerca de duas horas de barco. Ela surge no horizonte como uma miragem dentro da água. Um cenário cinematográfico, acrescido dos “restos mortais” de um grande navio encalhado e abandonado em uma de suas praias, garante o espetáculo. Na superfície, o sol e o refl exo da luz no deserto castigam a terra e o mar, enquanto no fundo um gigantesco aquário natural convida ao banho como um canto de sereia. A ilha, na realidade, é formada por quatro barreiras coralíneas, pedaços de terra que lutam para se manter à tona. As praias são formadas por restos de corais decompostos pela ação das ondas. O lugar é daqueles que dificilmente alguém quer deixar antes do tempo. O grande calor o ano todo, especialmente no verão, a falta de chuvas e o clima seco são um convite ao “dolce far niente”, necessário para recarregar as baterias.


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