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Instrumento visual vira quesito de vaidade e tem origem na Itália
O que antes era para ajudar a ver melhor, agora virou acessório também para ser visto. Os óculos, nos mais variados modelos, cores e tamanhos deixaram de ser objetos apenas de necessidade e tornaram-se adornos da vaidade. E mais do que nunca a indústria italiana, excelência da qualidade reconhecida em todo o mundo, dita as regras da moda. Aliás, tal fato é justificável, uma vez que a origem dos óculos tem sustentação na própria Itália.
A primeira
referência histórica sobre a existência do adereço está registrada nos
textos do filósofo chinês Confúcio, 500 anos antes de Cristo. Apesar
disso, foi na Roma dos Cesares que o conceito sobre as lentes mudou. No
século 1 depois de Cristo, o imperador Nero descobriu as coloridas
contra a luz do sol ao usar uma lâmina de vidro verde sobre os olhos,
durante as famosas apresentações nas arenas romanas.
Os instrumentos iniciais que propiciaram a correção visual para perto
foram algumas pedras preciosas [o berilo e o cristal de rocha] cortadas
em finas camadas e colocadas sobre os textos para aumentar o tamanho
das letras. Mais tarde, em Veneza, alguns mestres vidreiros adaptaram
essas lâminas para serem usadas sobre os olhos. Em 1270, na Alemanha,
foi encontrado o primeiro par de ferros com aros grandes, unidos por
rebite. Enquanto que, em Florença, no mesmo século, um modelo
semelhante surgiu e tornou-se sucesso de vendas. Assim, os italianos
são considerados os inventores dos óculos, mas a verdadeira origem do
objeto é um mistério. Não existiu um único inventor, e sim, inúmeras
pessoas anônimas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, que foram
contribuindo para o aperfeiçoamento deste instrumento visual para a
humanidade.
Além do design, os óculos de hoje também põem em voga a
tecnologia. Nas mãos dos estilistas das grifes famosas o produto
torna-se cartão de visita para quem o usa.
—
Além dos modelos coloridos, assistimos a um grande “revival” das
armações leves em metal – afirma o presidente da Associação Italiana
dos Fabricantes de Artigos Óticos (Anfo), Cirillo Coffen Marcolin.
Para
a designer de jóias Manuela Trione, as pessoas precisam ter, no mínimo,
duas armações para não se tornarem vítima da moda e dos exageros.
— O
ideal é ter um par de óculos clássico, de ótima qualidade, para todos
os dias e um outro de reserva, mais divertido para os momentos de festa
– acrescenta.
Hoje em dia, com a tecnologia das operações oftálmicas, usar óculos
passou a ser mais uma questão de estética do que de necessidade. As
lentes de contato estão aí para não deixar ninguém mentir sobre quanto
a dose de vaidade pode ser medida pelo modelo de armações.
—
Tenho um par para cada ocasião. Para sair de dia com sol forte, para
sair com tempo nublado, para a neve, para a praia. Enfim, tenho uma
gaveta cheia, mas são todos de grau mesmo – diz a consultora Paola Plet.
Uma das principais responsáveis por tanta diversidade nas vitrines é
a fábrica italiana Luxottica. Prada, Dolce&Gabbana, Donna Karan,
Ray-ban, Versace, Chanel, Salvatore Ferragamo, Miu Miu, Moschino e
Armani são alguns dos clientes que têm em comum a fabricação de suas
armações pela Luxottica. A empresa surgiu em 1937 pelas mãos de
Leonardo del Vecchio. Em 1999 ele comprou da Bausch&Lomb a marca
Ray-Ban, os famosos óculos em forma de gota. Das linhas de produção da
fábrica saem armações que ocupam, hoje, as prateleiras de lojas
espalhadas nas cidades de 130 países
dos cinco continentes.
Profissão: esteta
Poucas pessoas sabem, mas Miguel Giannini, de 63 anos, desenvolveu uma
profissão que agrada a muitos clientes: esteta ótico. Podese dizer que
ele é um consultor para a escolha do melhor tipo de armação para o
comprador. Seu atendimento personalizado conquistou inúmeras pessoas,
entre elas, personalidades como José Sarney, Fernando Henrique
Cardoso,
Luis Inácio Lula da Silva, Antônio Palocci, Marta Suplicy, José Dirceu,
Ana Maria Braga, Glória Menezes e muitas outras.
—
Já analisei mais de 400 mil rostos em mais de 40 anos de profissão.
Nossa clientela é formada por pessoas pertencentes a todas as classes
sociais. O trabalho mais gratificante é atender as crianças porque
criamos uma sistemática em que elas escolhem os seus óculos. Aliás, na
loja de Bela Vista, temos um cantinho com mesas e cadeiras
especialmente criado para elas, onde podem manusear e experimentar suas
armações – explica Giannini.
Atualmente,
há três lojas na cidade de São Paulo. A primeira, aberta na década de
70, está localizada na Galeria Nova Barão, a outra fica dentro do
Jockey Club de São Paulo, além da loja do bairro Bela Vista, onde o
esteta atende cerca de 20 clientes por dia.
O consultor é descendente
de italianos da Toscana e Veneza. Seus antepassados já trabalhavam com
óculos e máscaras para pilotos de avião durante a Primeira Guerra
Mundial.
Talvez isso queira dizer que o talento para a profissão corre no
sangue. Depois de começar
como office-boy numa antiga e famosa ótica de São Paulo quando tinha
apenas 13 anos, aos 24, tornou-se um pequeno empresário ao abrir uma
loja em um dos prédios da Galeria Nova Barão, em sociedade com o amigo
Fioravante Fernandes.
O atendimento personalizado criado por Giannini consiste em receber o
cliente e analisar seu rosto. A altura das sobrancelhas e do nariz, o
formato dos olhos, a cor ou a tonalidade da pele e dos cabelos são
detalhadamente avaliados. Desta forma, com dois alicates e uma
espiriteira, ele transforma uma armação comum em outra peça de estilo
único.
— Os óculos têm de ter a cara do cliente – resume.
Miguel
conta ainda que não gosta de trabalhar exclusivamente com marcas e
grifes. Para ele o cliente tem direito de escolher uma armação pelas
vantagens que oferece em termos técnicos, estéticos e preço.
— Nas minhas lojas não há marcas mais ou menos vendidas ou procuradas
porque não acredito em marca ou grife. O consultor deve conhecer cada
modelo e explicar o porquê da escolha. Mas a indústria italiana de
armações é representativa, há décadas, porque, de uma certa maneira os
óculos foram criados na Itália. Hoje, os italianos continuam sendo os
melhores nesse segmento, não só porque a indústria se mantém em
constante atualização, mas porque lá tem uma tradição de profundo
conhecimento nesses oito séculos de história dos óculos — revela.
Museu dos óculos
Apaixonado por óculos, Miguel Giannini criou, há quatro anos, o
Museu de Óculos Gioconda Giannini, localizado no terceiro piso do
Casarão, em Bela Vista. O nome é uma homenagem à mãe que sempre o
ajudou e esteve presente na vida pessoal e profissional.
— Criei o Museu por vários fatores. Sempre colecionei armações antigas. Quando
saí da loja do centro e vim para o Bela Vista, bairro formado
essencialmente por calabreses no começo do século passado, precisava de
um imóvel grande para montar a loja, o laboratório de montagem de
óculos e mais o museu. Encontrei este casarão de três andares e
comprei. Na época, o acervo era pequeno, mas hoje eu tenho uma coleção
de 800 peças, das quais 200 estão em exposição permanente – conta
Giannini.
O único museu de óculos da América Latina oferece aos visitantes todas as
grandes tendências. A mostra apresenta algumas coletâneas, entre elas a
coleção chinesa do século 18 com duas peças originais e seus estojos de
pele de peixe, usados pela aristocracia 500 anos antes de Cristo.
Existe também réplica dos primeiros óculos, descobertos na Alemanha, no
fim do século 13, que mostra ao visitante a origem das armações e
lentes para perto e como elas evoluíram para os demais modelos surgidos
entre o século 15 e 16.
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