Em tempos que a palavra crise é a mais pronunciada graças à conjuntura econômica, um debate sobre a “cultura da falência” é no mínimo necessário. Um relatório global de empreendedorismo realizado no ano passado pela Amway, com entrevistas em 44 países, mostra que brasileiros e italianos tem uma posição parecida quando o assunto é empreender. Cerca de 40% projeta abrir uma atividade própria, mas 90% freiam com medo de falir. Isso é explicado em um recente livro lançado na Itália com o título de Il magico potere del fallimento, de autoria do filósofo francês Charles Pépin. Enquanto temos verdadeira aversão ao imprevisto por medo da perda moral e do crédito, os anglo-saxões tem o ditado do “fail fast, fail often” (erre rápido, erre frequentemente). “Nós somos filhos de Platão, portanto racionalistas e não empiristas como os pensadores ingleses”, atribui o autor que, afirma que os europeus e ocidentais em geral são muito ligados ao poder do sucesso conquistado.

O medo de errar foi também tema de uma exposição de um museu criado especificamente para tratar do assunto na Suécia. O Museum of Failure de Helsingborg nasceu com validade para acabar em quatro meses e faliu, ou fechou suas portas, no dia 15 de setembro. Até então, mais do que expor aos visitantes, passou a mensagem de que não é preciso demonizar a falência, mas sim aceitá-la como ponto de partida para algo novo. Tudo através de peças de estratégias aplicadas por grandes empresas como a Coca-Cola, que tentou vender o produto como café, ou da Colgate, que tentou vender lasanhas congeladas. Verdadeiros desastres mercadológicos que mostram ao público o espírito do recomeço vencedor.

Mas é necessário separar a derrota terapêutica das reiteradas e superficiais, que não levam muito em conta os erros cometidos. Em Modena, a economista e pesquisadora Francesca Corrado criou cursos de falência, com apoio de importantes instituições de crédito. A ideia é passar aos alunos como avaliar corretamente os erros, ao invés de simplesmente cancelá-los. “Temos que diferenciar uma falência de trabalho de uma falência no âmbito das relações humanas, com sua carga de emoção”, explica, em um manual feito para o Il Mulino, Donatella Cavanna, docente de Psicologia dinâmica Psicopatologia do desenvolvimento na Universidade de Genova. Para ela, uma cultura de falência deveria fazer parte plenamente da mentalidade científica e, muitas vezes, é esquecida. Ela recorda, por exemplo, que antes de mudar para sempre a antropologia, Charles Darwin havia abandonado os estudos de medicina e de teologia. Ela também analisa o que segundo ela seria uma recente tendência: a de mostrar, muitas vezes até nas redes sociais, a própria experiência falimentar como uma experiência vitoriosa, numa lógica de reivindicação. “Vivemos numa sociedade narcisista que parece ter feito do sucesso e da superficialidade uma bandeira. Existem tantos sinais, no mundo ocidental, que deveriam nos conduzir a relações menos triunfantes, seja em plano pessoal que em níveis de interpretações dos eventos políticos e econômicos atuais”.

Não basta resiliência, é necessária uma análise profunda da engrenagem que proporcionou o evento negativo da falência.

Boa leitura!