M5S e Liga indicaram o professor Giuseppe Conte como premier

(ANSA)

O presidente da Itália, Sergio Mattarella, decidiu tomar tempo antes de encarregar o professor universitário Giuseppe Conte, até então desconhecido da maior parte da população, como novo primeiro-ministro do país.

O nome do docente de 54 anos foi proposto nesta segunda-feira (21) pela coalizão entre o antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S) e a ultranacionalista Liga, que, após dois meses e meio de negociações, conseguiram formar uma aliança de governo.

No entanto, antes de confirmar o encargo a Conte, Mattarella decidiu convocar os presidentes da Câmara dos Deputados, Roberto Fico, e do Senado, Elisabetta Alberti Casellati, que subirão ao Palácio do Quirinale na manhã desta terça (22).

A opção por Conte é, de certa forma, surpreendente, já que Liga e M5S passaram os últimos cinco anos criticando os primeiros-ministros do Partido Democrático (PD), Enrico Letta, Matteo Renzi e Paolo Gentiloni, por eles terem assumido o governo sem ter liderado a legenda nas eleições de 2013.

Conte, professor de direito privado na Universidade de Florença, não tem experiência política e não passou pelo batismo das urnas. Sua indicação é fruto de um acordo entre os líderes do M5S, Luigi Di Maio, e da Liga, Matteo Salvini, que se recusaram a participar de um governo guiado pelo outro.

O movimento antissistema, acionista de maioria na coalizão, precisou encontrar um nome que não espantasse a base da Liga e fosse capaz de encampar as propostas previstas no “contrato de governo”, um pacote que combina generosas desonerações fiscais com aumento substancial dos gastos sociais, em um país com dívida pública superior a 130% do PIB.

Próximo ao M5S, Conte já havia sido indicado por Di Maio como possível ministro da Administração Pública, ainda antes das eleições, e é defensor da “desburocratização” do Estado. Além disso, prega a redução do débito italiano por meio do aumento dos investimentos.

Apoiado por um movimento antipolítica e com o aval de uma legenda ultranacionalista, Conte, em entrevista concedida em fevereiro passado, reconheceu que seu “coração” sempre “bateu à esquerda”, o que mostra a fluidez ideológica do M5S.

Como primeiro-ministro – caso a indicação seja acolhida por Mattarella -, o professor terá de lidar com um Parlamento historicamente instável para aprovar o ambicioso programa de governo de Salvini e Di Maio.

Além da desburocratização da máquina pública, o projeto prevê apenas duas faixas no imposto de renda e o pagamento de uma “renda de cidadania” para que todos os italianos na faixa da pobreza tenham no bolso pelo menos 780 euros por mês.

Para reduzir a elevada dívida pública italiana, o plano é impulsionar o crescimento do PIB, “por meio de uma retomada da demanda interna com investimentos de alto multiplicador e de políticas de apoio ao poder aquisitivo das famílias, criando condições favoráveis às exportações”.

Na questão migratória, bandeira de Salvini, Liga e M5S prometem acelerar as deportações de imigrantes clandestinos – eles estimam o número de ilegais em 500 mil -, cortar gastos com políticas de acolhimento e proibir desembarques de navios que resgatam pessoas no Mediterrâneo.

Europa

A indicação de Conte é, por outro lado, uma forma de tranquilizar os mercados e a Europa e de mostrar que a Itália não provocará nenhuma ruptura com Bruxelas.

“Lemos com interesse e estupor declarações que chegam de ministros e comissários que não têm motivo para se preocupar. O governo quer fazer a Itália crescer, aumentar o trabalho, torná-lo mais estável e fazer as empresas voltarem”, disse Salvini nesta segunda.

“A quem nos critica do exterior, eu digo: deixem-nos começar primeiro. Depois nos critiquem, mas ao menos nos deixem começar”, reforçou Di Maio. De fato, o programa de governo não prevê mais a saída da Itália da zona do euro, cavalho de batalha dos dois partidos nos últimos anos.

Porém o que mais preocupa a União Europeia neste momento não é nem a possibilidade de um “Italexit”, mas sim a fragilidade das contas públicas do país, onde uma crise poderia contaminar toda a eurozona.

Também é incerto qual será o papel de Salvini e Di Maio. Conte se reportará diretamente a eles, mas ainda se discute se os dois terão algum cargo no gabinete do futuro premier.

A hipótese mais forte hoje é de que o secretário da Liga assuma o Ministério do Interior, pasta responsável pela gestão migratória, e o líder do M5S comande um “Superministério” do Trabalho e do Desenvolvimento Econômico, onde poderia implantar sua renda de cidadania.