“É a terceira eleição que ganhamos na região. Vemos que as pessoas ainda confiam na gente”, diz o ex-deputado ítalo-argentino e agora senador

DA REDAÇÃO

A contagem de votos dos italianos no exterior em Castelnuovo di Porto, a 28 quilômetros de Roma, foi conturbada. Além do trânsito confuso, que impediu que as urnas vindas do exterior chegassem mais rapidamente ao hangar no qual foi feita a contagem dos votos, houve uma série de denúncias de irregularidades. Um dos mesários responsáveis por contar cédulas eleitorais falou ao jornal La Repubblica que demorou cinco horas para percorrer 20 quilômetros até Castelnuovo.

Muitos funcionários que deveriam estar em Castelnuovo a tempo da contagem tiveram de ser substituídos às pressas por ordem do Tribunal de Recursos. Denúncias de representantes de vários partidos foram acatadas e inúmeras cédulas com voto foram canceladas. Somente de Genebra, na Suíça, cerca de 800 votos foram impugnados. O programa televisivo Lei Iene Show, do Mediasete, mostrou, em reportagem com uma câmara escondida, uma negociação de cerca de 3 mil votos em Colônia, na Alemanha. A polícia em Roma já investiga o caso.

Em meio ao caos, uma única certeza até aqui em relação aos candidatos da circunscrição da América do Sul: o ítalo-argentino Ricardo Merlo, o jornalista e cientista político líder do Maie (Movimento das Associações Italianas no Exterior), é o grande vitorioso do continente e o principal nome da política italiana no continente.

Ao jornal argentino La Nación, Merlo declarou ter sido a contagem em Castelnuovo a mais tranquila desde 2006, quando os italianos no exterior passaram a ter direito a eleger 12 deputados e seis senadores ao Parlamento de cinco circunscrições mundiais. A América do Sul entre elas. “A verdade é que o escrutínio foi o mais normal de todos, eu estava lá até às oito da manhã e não vi esse caos, o que acontece é que temos uma imprensa terrível”, resmungou Merlo.

Os resultados, até aqui, mostram o Maie, de Merlo, com pouco mais de 30% dos votos na América do Sul. Bem a frente do Usei (20%) e do Partido Democrático (17%). “É a terceira eleição que ganhamos na região. Vemos que as pessoas ainda confiam na gente”, disse Merlo, que após dois mandatos de deputado, assumirá agora uma cadeira no Senado.

Sobre o cenário de fragmentação política no Parlamento que será constituído, Merlo não rechaça o diálogo seja com quem for, mesmo que tenha que se aliar a centro-direita, a coalização ideológica vitoriosa, ou mesmo com xenófobo de extrema-direita Matteo Salvini, do Lega. “Se ele [Salvini] nos oferece o que queremos para os italianos no exterior — sim, as pessoas não podem renovar seus passaportes, não podem obter a cidadania, são maltratadas nos consulados, as pessoas querem soluções —, e se o governo estiver empenhado em nos dar essas soluções, iremos acompanhá-lo”, assinalou.

Para Merlo, o acordo é mais que uma necessidade política. É uma sobrevivência do sistema. Ele alega que as campanhas eleitorais são extremamente dispendiosas e por isso aqueles que formarão o novo parlamento pensarão duas vezes ao negociar acordos que levem a uma grande coalizão. Uma nova eleição em poucos meses, como desdobramento de um racha político, não estaria nos planos de nenhum partido.