Nossa reportagem ouviu eleitores em seis capitais brasileiras para saber o que pensam sobre a participação nas eleições italianas e como se informam sobre os candidatos e partidos

       Dos enviados Roberta Costa, Cejana Montelo, Caroline Pellegrino, Stefania Pelusi, Giancarlo Palmesi, Mauricio Cannone e Fernanda Queiroz

De São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Brasília, Vitória e Rio de Janeiro

Em São Paulo, estado que concentra o maior número de italianos do Brasil, a reportagem de Comunità ouviu as opiniões e expectativas de cidadãos ítalo-brasileiros, como o professor de educação física Waldemar Manassero, de 42 anos, que tem cidadania italiana desde a infância, votou em eleições anteriores e pretende ir às urnas também em 2018.  

— Já fui secretário do Partido Democrático no Brasil e acho bastante importante votar, mesmo não tendo conhecimento total da política italiana. Eu procuro me informar sobre partidos e candidatos, quando está mais próximo da data limite, lendo pela internet e por meio da lista de e-mails dos candidatos.

O ex-embaixador do Brasil na Itália, Andrea Matarazzo, também conversou com Comunità e garantiu que vai participar da votação.  

— Espero que aqueles que se elegerem trabalhem para a melhoria da Itália e com isto abram mais oportunidades de trabalho e empreendedorismo para os jovens ítalo- brasileiros. Ao mesmo tempo, tenho certeza que a ida de jovens ítalo-brasileiros levando a experiência do Brasil para a Itália fará muito bem ao país — comentou.

Ele cita entre seus candidatos preferidos a deputada Renata Bueno, “que já tem enorme prestígio e disputa a reeleição”, além da empresária “muito bem sucedida” Helena Montanarini.

Outro eleitor ítalo-brasileiro famoso é o ex-ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, Rubens Ricupero.

— Tenciono votar desde que consiga regularizar a documentação. Conheço alguns dos candidatos. Entre eles, destaco o desembargador Walter Fanganiello Maierovitch, pela cultura, reputação e os grandes serviços prestados à colaboração judiciária entre a Itália e o Brasil no combate ao crime organizado — afirmou.

Entre as medidas que Ricupero acha importantes a serem tomadas pelos parlamentares em Roma, ele cita ações para fortalecer a cooperação entre os dois países e irradiar a língua e a cultura italianas na sociedade brasileira. 

Por sua vez, o presidente do colégio Dante Alighieri, José Luiz Farina, declarou seu voto a Silvana Rizzioli para senadora e a Walter Fanganiello para deputado “pelas elevadas qualidades dos dois”.

A cantora e designer gráfica Debora Sanna, de 33 anos, natural de Castel San Pietro Terme, que mora na capital paulista, acompanha a política por meio da televisão, além de internet e jornal.

— Acho dever de todos votarem. Mesmo que, muitas vezes, não vejamos alternativas válidas entre os candidatos, ou desconfiemos do sistema político, acredito que seja fundamental avaliar as opções, escolher e votar — ressalta.

O técnico em tecnologia da informação Antonio Agrelli, de 34 anos, procura informações no jornal italiano Il Messaggero por considerá-lo o mais apartidário.

— Minha informação sobre partidos italianos é por conveniência. Quando fico sabendo de decisões que me afetam, procuro saber sobre o partido de origem do político em caso.

Agrelli, que morou oito anos na Itália, acha importante participar das eleições.

— A Itália viveu uma época de descaso político, depois de uma fase de total interesse da população, na pós-ditadura mussoliniana. Acho que agora, durante a crise europeia, tivemos uma sensível busca por interesse político que tinha sido perdida.

Alguns eleitores preferem não votar por falta de informações

Na capital do Paraná, ouvimos pessoas oriundas das regiões do Vêneto e da Lombardia, com idade entre 30 e 66 anos. Quarenta por cento são italianos e 60% são brasileiros com cidadania italiana. Grande parte dos entrevistados se informa sobre a política italiana por veículos digitais (sites e revistas eletrônicas); alguns, pela televisão. A maioria revela não estar bem informado sobre política italiana por se considerar muito distante do dia a dia do país. Glaison Citadin, de 40 anos, diz que até tenta, mas não se considera suficientemente informado:

 

— Não é por falta de interesse. Leio alguma coisa, principalmente em sites de notícia de lá, mas, como não participo do dia a dia, fica complicado ter uma opinião mais embasada — analisa.

A maioria, 80%, acha importante se envolver no processo decisório. Entretanto, Paolo Paccagnella, 30, tem suas dúvidas sobre o processo:

— É estranho dar poder de voto a pessoas que não vivem na Itália, não conhecem muito bem o que acontece por lá e não vivenciam aquele cotidiano. Não me sinto muito à vontade para participar desse processo — reconhece.

Contudo, Francesco Conti, 55, italiano que já vive no Brasil há quase 20 anos, discorda:

— Quem não vota permite que outros eleitores decidam no seu lugar.

A visão de Conti é reforçada por Glaison Citadin, que tem a cidadania italiana há mais de 10 anos e votou uma vez pelo correio:

— Quem busca o reconhecimento de cidadania se propõe a participar da realidade daquele país, portanto, é importante votar sim — afirma convicto.

Sandra Poli, 66, que tem cidadania italiana há 25 anos, também acha relevante participar do contexto eleitoral italiano, mas admite que votou somente uma vez:

— Tenho uma ligação sentimental com a Itália porque também é o meu país. Mas, como não estou envolvida no processo e disponho de poucas informações, não tenho participado das eleições, por medo de votar errado — admite.

Maioria é composta por brasileiros com dupla cidadania

Os eleitores ouvidos no Rio de Janeiro consideram-se razoavelmente bem informados sobre a política italiana ou procuram preparar-se melhor em época de eleições para votar bem. Comunità fez a sondagem com italianos natos que residem no Brasil e oriundos.

Vários vão votar pela primeira vez, alguns por ter obtido a cidadania recentemente, outros pela pouca idade. Carolina Perlingeiro, de 22 anos, possui cidadania italiana há 12 anos e confessa não ter muito interesse sobre a política do país.

— Apesar de termos finalizado o processo de obtenção da dupla cidadania 12 anos atrás, na minha casa, não é muito comum buscarmos informações sobre candidatos e a política da Itália em geral.

Já Matheus Baldi, de 32 anos, cidadão italiano há apenas três anos, está animado por poder participar dessas eleições.

— Na minha casa temos a tradição de acompanhar as notícias da Itália. O meu avô, que veio da Itália para o Brasil quando tinha 26 anos, nunca deixou de acompanhar as notícias do seu país natal e sempre fez questão de repassá-las para os filhos e netos. Este ano poderei me sentir um pouco mais italiano, como ele, ao votar nas eleições parlamentares.

Nascida na Sardenha e residente no Brasil desde os oito anos de idade, a atriz e produtora cinematográfica Rossana Ghessa se preocupa com a crescente invasão de estrangeiros em seu país.

— Meu sobrinho que mora na Itália diz que há estrangeiros que recebem 50 euros por dia, têm moradia e estão assaltando, matando gente porque acham que é pouco o que a Itália está dando. Vou votar em quem tirá-los de lá.

Ela procura se informar, mas diz que a situação já foi melhor:

— Recebia jornais e revistas com informações políticas sobre o que acontecia na Itália, na Sardenha. Era muito bom. Não sei por que acabaram. Mas os partidos costumam mandar informações antes das eleições. Até uns dois anos atrás eu ia à Itália para votar e me reembolsavam 70% da passagem quando trazia o comprovante da cédula eleitoral.

O biólogo Mario Moscatelli, oriundo de pai e mãe, lutou muito pela nacionalidade italiana, mas depois descobriu que não precisava esforçar-se tanto:

— É engraçado. Lá pelos meus 20 anos, estava à procura de documentos quando meu pai me avisou que eu já tinha a cidadania desde que nasci. Estou mais ligado no dia a dia da política brasileira, mas quando se aproxima mais o período eleitoral entro nos sites italianos e vou fuçando.

O agente de turismo carioca Massimo Ferrarese, filho de italianos, além das consultas nos sites de jornais italianos, também se encontra com frequência com pessoas nascidas no Belpaese e oriundos para informar-se da política da península. O psiquiatra Edson Saggese, neto de italiano nascido na província de Salerno, também procura informações na internet para votar melhor. Já o advogado calabrês Attilio Mellone Mauro, que vive desde 1952 no Brasil, é uma referência para causas jurídicas de italianos em terras cariocas. Não mexe com a internet, mas assiste à TV Rai, lê a revista Comunità e costuma reunir-se com seus compatriotas para trocar ideias sobre política.

Nascidos na Itália tendem a ler sobre política italiana de forma mais assídua

No Espírito Santo, ouvimos sete eleitores acima de 30 anos, sendo 60% italianos que se mudaram para o estado e 40% brasileiros com dupla cidadania. A maioria se considera bem informada e procura saber notícias sobre a política italiana. Grande parte prefere se atualizar pela internet através de sites de notícias, enquanto menos de 30% optam pela televisão. Entre os entrevistados, 85% afirmaram que estavam procurando informações sobre os candidatos da América do Sul. Esta será a primeira participação da professora de italiano Neusa Cristina de Sá Martha, carioca que atualmente mora em Vitória e já morou muitos anos em Milão. Ela obteve a naturalização por casamento há cinco anos, porém não se considera suficientemente informada sobre política italiana.

— Ainda não me informei sobre as eleições, mas estou tentando me atualizar — disse.

O milanês Paolo Ferraris, que mora há quatro anos no Espírito Santo, vai votar pela primeira vez pelo correio. Assíduo leitor de jornais italianos, ele se considera bem informado sobre a situação política do seu país.

— Eu sempre procuro me informar e estar por dentro do que acontece na Itália. Não é difícil ter uma orientação política e saber sobre os candidatos — comenta.

Eleitores reclamam do atraso na chegada das cédulas eleitorais pelo correio

Vários eleitores reclamaram do envio demorado das cédulas eleitorais nos anos anteriores. É o caso da italiana Chiara Folli de Oliveira, que reside há oito anos em Vila Velha.

— Desde que moro no exterior nunca consegui votar porque a cédula eleitoral chega atrasada — comenta a italiana, originária da província de Brescia.

Nascido em Mantova, Luca Fanni só conseguiu votar apenas uma vez desde que mora no Espírito Santo, pois, nas outras vezes, o envelope chegou tarde. Apesar de tudo, ele elogia as informações que acompanham a cédula eleitoral.

— No envelope vem o material informativo que explica muito bem o procedimento de como votar.

Em Brasília, ouvimos eleitores com idade entre 18 e 70 anos, sendo 60% homens e 40% mulheres. Grande parte é constituída por brasileiros com cidadania italiana. Todos já participaram de outras votações e procuram saber informações pela internet, entretanto a maioria admite que não se considera bem informada sobre a política italiana. De acordo com a ítalo-brasileira Eliana Maria Corbelli, há uma “falta de conhecimento sobre a função e a atuação dos parlamentares representantes da América do Sul e consequentemente falta de interesse em se inteirar da política italiana”. Com cidadania italiana há 10 anos, não é a primeira vez que ela vota.

Já os oriundi Paulo e Lorenza Maria Frattesi, cidadãos italianos desde 2002, também já votaram, porém não se consideram bem informados.

— Não recebemos folders dos candidatos — explicam.

A aposentada Eliana Rossi Machado já participou das eleições italianas, mas gostaria de receber mais informação das autoridades italianas. Por sua vez, o italiano Andrea Ferrini acredita ser bem informado, pois acompanha diariamente os acontecimentos lendo jornais e sites de notícias. Da mesma opinião, Emanuele Cardinali, originário de Marche, procura se informar através de veículos digitais.

— Considero-me bem atualizado sobre a vida política italiana e sobre a atuação dos partidos. Gosto de me manter informado — analisa ele, que já participou de outras eleições por correspondência.

Em Belo Horizonte, conversamos com eleitores em sua maioria com dupla cidadania e com idade superior aos 50 anos. A grande maioria acredita na importância de participar as eleições e garante que já votou.

A principal fonte de notícias é a internet, seguida por jornais, revistas e pela TV Rai. Todos declararam estar interessados em saber informações políticas italianas. Surpreendentemente, uma senhora mostrou estar muito informada e chegou a comentar, com muita competência, as últimas eleições sicilianas.

O eleitor Anisío Ciscotto, de 56 anos, por exemplo, frisou que não é difícil se informar:

— Basta acessar a internet e acompanhar as redes sociais, principalmente Facebook e Twitter.

Raramente ele acessa a sites de jornais, a não ser Il Piccolo di Trieste, mais ligado às suas origens.

Por sua vez, Renzo Lucciola, de 60 anos, sugere a divulgação de uma lista com todos os candidatos na qual sejam especificadas as ligações partidárias e o percurso político de cada um, assim como as tendências políticas gerais e um resumo dos programas.

— Sem isso, está difícil escolher os candidatos — resumiu.

Entre os mais jovens, João Gabriel Pacetti Capobianco, de 28 anos, elege a internet como principal fonte de informação, citando o site www.pagellapolitica.it

Já o comentarista da ESPN Brasil, Antero Greco, comentou que o material não chega com regularidade em seu domicílio, o que dificulta sua participação no processo. 

— Infelizmente, temo que não venha a votar. Não sei por que, mas, raras vezes, recebi formulários. Chegam com mais regularidade para meus filhos e para minha mulher. Por isso, há algum tempo deixei de acompanhar como gostaria (e deveria) as propostas dos candidatos. Diante da intermitência do material para mim, acabei desistindo de seguir de perto. Ainda assim, mantenho sonho antigo de ver maior aproximação entre Brasil e Itália. Sinto que, mesmo com os fortes laços italianos que temos por aqui, há um distanciamento inexplicável entre os dois países. Sinto falta de mais Itália no Brasil, da música, do teatro, da literatura, da gastronomia atual, da moda. Quem sabe, um dia, nos tornemos próximos.