O estado berço da imigração italiana no Brasil comemora pela primeira vez em Vitória o Dia Nacional do Imigrante Italiano com um grande evento que reuniu os ítalo-capixabas

Pela primeira vez, graças à Casa d’Italia, toda a comunidade ítalo-capixaba se reuniu na capital do estado para comemorar o Dia Nacional do Imigrante Italiano em 21 de fevereiro no Clube Ítalo Brasileiro do Espírito Santo. O estado é considerado o berço da imigração italiana no Brasil, pois no dia 21 de fevereiro de 1874 ocorreu o desembarque dos imigrantes da expedição Tabacchi em solo capixaba, que trouxe da Itália 388 camponeses, do Trentino e do Vêneto, a bordo do navio La Sofia.

A data é considerada o marco do início da imigração em massa de italianos para o Brasil e há 10 anos se tornou oficial no calendário do Brasil. O Dia Nacional do Imigrante Italiano foi criado a partir de um projeto de autoria do então senador ítalo-capixaba Gerson Camata, e foi sancionado como lei pelo então vice-presidente José Alencar Gomes da Silva, em 2 de junho de 2008.

Para o presidente da Casa d’Italia do Espírito Santo, Cilmar Franceschetto, o evento foi de grande importância porque, desde que a lei foi instituída, a data foi comemorada em Vitória pela primeira vez.

— Em nosso primeiro ano de gestão, tomamos a iniciativa de mobilizar a comunidade italiana do nosso estado e pela primeira vez comemorarmos em nossa capital esse importante dia histórico. É uma comemoração que muito nos orgulh, pois, de fato, o Espírito Santo é reconhecido, oficialmente, como o berço da imigração italiana no Brasil — frisou Franceschetto que também é conselheiro do Comites e diretor geral no Arquivo Público do estado do Espírito Santo.

Ex-senador Gerson Camata marca presença no evento

O evento foi um sucesso. Reuniu várias pessoas, vindas também do interior do estado, que organizaram voluntariamente caravanas de Venda Nova do Imigrante, Santa Teresa, Aracruz e Linhares, para homenagear os imigrantes italianos no Brasil e todos os ítalo-descendentes. A comemoração contou com a alegre presença de corais, grupos de danças e musicais, grupos folclóricos de todo o estado; autoridades, como o vice-governador, o ítalo-descendente Cesar Colnago; representantes da prefeitura de Vitória e de comunidade do interior do estado; o secretário estadual da Cultura, João Gualberto Vasconcello e o cônsul honorário da Itália no estado, Roger Gaggiato. Também participou do evento o ex-senador e idealizador do projeto de lei, Gerson Camata.

— Foi uma luta muito difícil e complicada, de três ou quatro anos, para que tivéssemos este dia, e todos os outros imigrantes queriam montar a cavalo da imigração italiana — revelou o ex-senador, que também foi o primeiro governador ítalo-capixaba do estado.

Ao ser questionado se houve alguma mudança no texto original, ele disse que a única alteração foi um artigo que propunha às escolas organizar um evento para comemorar a data, porém a assessoria do presidente tirou esse item porque o governo federal não pode fazer uma lei para as escolas estaduais e municipais.

— Houve muitas emendas, pois cada estado queria ser o pioneiro, mas a primeira colonização italiana oficial, resultado de um tratado, foi a expedição Tabacchi — afirmou Camata.

A expedição foi batizada com o sobrenome do seu idealizador, Pietro Tabacchi, que era um comerciante originário de Trento.

— Foi o primeiro italiano a chegar a Aracruz, em 1852 e, após alguns anos, montou na região de Santa Cruz a fazenda Nova Trento, em homenagem à sua região de origem. Em 1874, Tabacchi trouxe para Aracruz, à sua fazenda, várias famílias italianas, iniciando a colonização italiana no Espírito Santo — explicou Paulo Bottoni, diretor do Secretariado dos Imigrantes Friulanos de Aracruz.

Festa tem coral, dança, música, princesas e rainhas

Durante as comemorações, se intercalaram momentos de dança e música italiana, além do momento oficial, com as intervenções das autoridades presentes e a execução do hino brasileiro e italiano pelo coral italiano de Venda Nova do Imigrante que este ano completa 75 anos.

— Até nem pouco tempo atrás, nós não éramos conhecidos. Nem todos sabiam que o Espírito Santo tem 67% da população descendente de italianos. Somos muitos e somos fortes, mas temos que ser unidos, trabalharmos juntos por um bem em comum — destacou a diretora de Relações Internacionais da Casa d’Italia, Rita Bortoluzzi.

Não podiam faltar as lindas rainhas e princesas das festas italianas de Santa Teresa, Venda Nova do Imigrante e Aracruz.

— A gente cresceu na cultura italiana desde pequenininhas, então, para mim, é muito importante manter essas tradições vivas — afirmou Lara Serena Romanello Altoé, estudante de arquitetura e urbanismo de 21 anos, eleita rainha da Festa da Polenta de 2017, de Venda Nova do Imigrante.

Governo do estado apoia a coletividade ítalo-capixaba

O evento teve o apoio também do governo do estado, representado pelo vice-governador.

— O governo apoia este evento e inclusive apoia na questão consular: estamos vendo se conseguimos arranjar um imóvel melhor e mais adequado para o funcionamento — revelou Colnago, referindo-se à questão da criação de uma agência consular ou de um Consulado no Espírito Santo, que atualmente depende do Consulado do Rio de Janeiro.

Em Vitória, há um Consulado honorário, porém, é limitado em suas atribuições legais, pois não é de carreira, com poderes de atendimento geral.

De acordo com o vice-governador, as relações entre o Espírito Santo e a Itália são ótimas.

— A nossa interlocução é grande até porque temos muitos italianos que são grandes empresários, pessoas que geram desenvolvimento e emprego aqui. Essa conexão com a Itália é fundamental porque é um estado também democrático avançado e o Espírito Santo tem muito interesse nessa relação — declarou o ítalo-capixaba, ressaltando com orgulho as suas origens, pois os quatro avós vieram da Itália.

ES e SC: unidos na luta por Consulados próprios, mas disputam o título de berço da colonização italiana

O Espírito Santo não está sozinho na luta para uma representação consular digna: o estado de Santa Catarina enfrenta a mesma dificuldade e foi representado no evento pelo conselheiro da Câmara Italiana de Comércio e indústria de Santa Catarina, Diego Mezzogiorno, que foi prestigiado com uma homenagem que sela a parceria entre os dois estados.

De acordo com Franceschetto, ambos os estados têm o maior porcentual de descendentes italianos em proporção à população. Mezzogiorno lembrou que Santa Catarina e Espírito Santo estão há dois anos trabalhando junto para ter Consulados próprios.

— Metade da comunidade aqui tem parentes em Santa Catarina, porque se dividiram nos barcos quando vieram. Temos muita coisa em comum e temos que aproveitar exatamente o que nos une e não o que nos separa — comentou o ítalo-paulista, referindo-se ao impasse entre São João Batista e Santa Teresa enquanto berços da imigração italiana.

A polêmica vem de uma lei recém-publicada que reconheceu a cidade capixaba como município pioneiro da imigração italiana.

— A OAB de Santa Catarina está entrando para derrubar essa lei. Eu sou favorável que não haja lei. Quem cuida disso é historiador e não políticos em procura de votos, especialmente por ser época de eleições. A gente tem que se unir e parar com esse discurso de supremacia — sugeriu Mezzogiorno.

Participaram do evento também seis candidatos ítalo-brasileiros ao Parlamento italiano: Silvana Rizzioli, Thiago Roldi, Daniel Taddone, Fabio Porta, Fabio Vicenzi e Renata Bueno, que, ao final, assinaram um termo de compromisso, em que se comprometem a empenhar-se pela abertura da estrutura consular e representação italiana no Espírito Santo e em Santa Catarina.

O encontro foi também a abertura das festividades de aniversário do clube Ítalo, que em maio completa 50 anos.

— O clube tem um papel importante na divulgação da cultura italiana, até porque foi formado com esse ideal e com o tempo esse fomento estava se perdendo. Nós estamos resgatando as manifestações, como esta que aconteceu hoje — comentou, satisfeito, ao término do evento, o presidente da entidade, José Júlio Ferreira. O clube é situado na Ilha do Boi, onde, há 144 anos, ancorava o vapor La Sofia, que deu o início à saga italiana no Brasil.