Os 2.000 metros quadrados de mosaicos bizantinos do andar da basílica de São Marcos, em Veneza, se estendem encurvados. Passo a passo, os pés percebem as ondulações constantes. Em algumas partes o piso se levanta, se dobra e termina quebrando-se. A parte central é a mais deteriorada. Por isso, há uma década, é preciso caminhar sobre um tapete sintético

Apenas 20% das figuras geométricas de mármore e pedra são originais. O restante foi restaurado ao longo de sua existência pelos artesãos da veterana Fábrica de São Marcos, respeitando os desenhos do século XI. Há séculos, no local existe uma luta infinita contra os danos provocados pelas marés altas e pelas pisadas das cinco milhões de pessoas que caminham todos os anos sobre os mosaicos do segundo patrimônio italiano mais visitado, atrás apenas do Coliseu em Roma.

“A água salgada é terrível: é responsável por todos os processos de deterioração dos materiais que compõem a arquitetura”, diz Mario Pina, responsável pela conservação da que foi a igreja privada do Doge de Veneza, construída para albergar os restos do santo protetor  São Marco, em 828 e consagrada em 1094. Pina mostra como se escava para consertar o antigo sistema das águas do esgoto e das chuvas.

O arquiteto é o pai intelectual do projeto como qual se pretende defender a catedral da água desde suas entranhas. Sua ideia consiste em impermeabilizar os canais subterrâneos da chuva que se comunicam com a lagoa; quando a maré cresce, estes transportam a água para a superfície e inundam a grande velocidade a praça de São Marcos, o ponto mais baixo da cidade. No papel, o projeto soa simples, mas não  é, diz Pina. “Serão instaladas cinco tampas nos canais subterrâneos que impedirão empurrar o o ingresso das marés altas para a superfície”, acrescenta. Com o novo projeto, segundo Pina, as marés altas no nártex (vestíbulo) diminuirão. A parte central, os laterais e o presbitério, que estão em um nível mais alto, só se inundaram no dia 6 de novembro de 1946.

Segundo a imprensa italiana, São Marcos está à beira do colapso. Pina desmente tais termos: “Sofre uma grande variedade de formas de deterioração dos mármores, pedras e mosaicos. Continuamos  trabalhando para contrastar o deterioro. Não se pode curar, mas sim mitigar”.

(EL PAÍS)