A morte de 10 pessoas em uma cabeça d’água nos Cânions do Raganello, no sul da Itália, levantou questionamentos sobre a presença turística no Parque Nacional do Pollino, local da tragédia, e sobre a falta de alertas para os perigos oferecidos pela natureza

A cabeça d’água é o fenômeno no qual chuvas na parte alta de um rio ou curso d’água provocam cheias repentinas nos trechos baixos. Foi o que aconteceu nos Cânions do Raganello. Cercadas por paredes rochosas de ambos os lados, dezenas de pessoas foram arrastadas pelas águas do riacho na última segunda-feira (20), e 10 acabaram morrendo.

Outras 34 pessoas foram resgatadas, das quais 11 apresentaram ferimentos, incluindo uma menina de nove anos colocada em sedação profunda por causa da inalação de grandes quantidades de água lamacenta. Ela está na UTI de um hospital em Roma, e seu estado é grave.

Os Cânions do Raganello ficam em uma reserva ambiental que, nos últimos anos, passou por um intenso desenvolvimento turístico. O governo diz que tem “99,9% de certeza” de que não há mais desaparecidos, mas as buscas continuarão até esta quarta-feira (22), já que não era exigido registro para excursionistas se aventurarem no cânion.

“Faltou regulamentação, e alguém deverá responder pelo que ocorreu. Não posso nem imaginar o que teria acontecido se ocorresse uma situação do tipo poucos dias antes, em Ferragosto [principal feriado de verão na Itália, celebrado em 16 de agosto], quando havia 650 pessoas no local”, disse Emanuele Pisarra, guia oficial do parque.

As excursões pelo Raganello, segundo ele, são aconselhadas apenas a especialistas: o longo canal de água encravado no maciço do Pollino sobe muitas vezes de maneira repentina, formando belas vistas de cachoeiras e corredeiras, mas também se tornando extremamente perigoso, especialmente em uma área com poucas vias de escape.

“O trágico caso dos Cânions do Raganello obriga as instituições responsáveis a adotarem uma regulamentação das atividades no vale do Raganello”, declarou o presidente do Parque do Pollino, Domenico Pappaterra.

Atualmente, o acesso aos cânions é livre e sem controle. “Havia um alerta amarelo [na região]. E lembro a todos que, com alerta amarelo, há risco de morte”, disse o chefe da Proteção Civil da Itália, Angelo Borrelli.

O Ministério Público abriu uma investigação sobre as mortes e apura as hipóteses de homicídio e lesões culposos e omissão de ato de ofício, ou seja, quando uma autoridade deixa de fazer o papel que lhe cabe.

(Agência ANSA)