Estilista ítalo-brasileira adepta do No Fur explica como o movimento influenciou grifes renomadas mundialmente, como Armani, Gucci e Versace, que anunciaram a abolição do uso de peles de animais em suas coleções

“Pele? Estou fora disso. Não quero matar animais para fazer moda. Isso não parece certo”. Com essa afirmação à revista britânica The Economist 1843, Donatella Versace, designer de moda italiana e atual vice-presidente do Grupo Versace, impulsionou e se tornou uma das principais referências do movimento No Fur (Sem Pele em tradução do inglês). O movimento, que pede o fim da utilização de peles de animais em detrimento da fabricação de roupas, calçados e acessórios, vem ganhando adeptos de peso nos últimos meses, como as gigantes italianas Gucci e Armani, e tem causado uma verdadeira revolução no mundo fashion. Questões como a real necessidade da utilização de peles na moda e os materiais que podem ser os substitutos vêm sendo amplamente debatidas dentro da indústria mundial.

Considerado desnecessário e majoritariamente reprovado pelas pessoas, segundo a consultora de moda ítalo-brasileira Roraine Zanetti, a utilização de peles de animais é um assunto bastante controverso quando debatido.

— Por serem facilmente substituídas por lãs e outros materiais têxteis visando à evolução e ao desenvolvimento tecnológico da área, a sua não utilização impulsiona o desenvolvimento de novos materiais substitutos — afirma a consultora.

Na prática, quando considerados os quesitos tecnologia e sustentabilidade, os impactos negativos da produção de peles chegam a ser até 28 vezes maiores do que a produção de qualquer outro têxtil, incluindo sintéticos como acetato, poliéster e acrílico. Além disso, apenas 10% do acrílico produzido no mundo destina-se à produção de itens faux fur. Assim, o uso de peles atualmente vem sendo mais relacionado ao comportamento e status pessoal, quando visto de forma positiva, e não à necessidade.

Enquanto que, para um determinado círculo social usar peles de animais pode ser considerado algo a se admirar e transmitir prestígio, cada vez mais celebridades aderem, em conjunto com renomadas grifes mundiais, ao movimento No Fur. A utilização de peles na moda sobrevive, porém, graças ao mercado de luxo, apoiado por socialites, ricos e novos ricos, e pelos próprios esforços.

— Em média, estima-se que 12% do mercado de pele seja responsabilidade dos Estados Unidos, enquanto que mais de 60% estão concentrado na Europa.  Entretanto, é na Rússia e na China que a indústria da pele tem apostado com mais afinco, visando aos crescentes mercados de luxo locais.

Indústria da pele joga com o prestígio social e o status para ganhar adeptos

Usar peles ainda denota status para certas pessoas, comenta a estilista.

— A verdade é que o uso de peles está relacionado ao comportamento e não à necessidade. Para um determinado círculo social, usar peles de animais pode ser considerado algo a se admirar e transmitir prestígio. Graças ao mercado de luxo e aos próprios esforços, a indústria da pele sobrevive. As celebridades não compram casacos de pele, mas socialites, ricos e novos ricos perpetuam esse hábito como uma forma de demonstrar poder. Como disse Katherine Schafler, “o couro é desnecessário, mas a pele é frívola, escassa e reforça o poder de classes”.

Para Roraine Zanetti, o No Fur que tende a se fortificar a cada dia e agregar novos adeptos.

— Eu sou favorável a este movimento. Acho que vários movimentos de conscientização e sustentabilidade até estão na “moda” e agregam muitos seguidores pelo simples fato de ser uma tendência de moda, mas este, em especial, tende a se posicionar como tendência de comportamento e consumo. As pessoas estão cada vez mais preocupadas com os direitos dos animais e o meio ambiente, mudam seus hábitos com pensamentos coletivos e consideram o bem-estar do planeta e dos animais, tornando-se mais conscientes sobre os métodos de obtenção das roupas e artigos consumidos.

Grandes marcas italianas já aboliram o uso de pele animal

As mudanças da forma de consumo do público fomentaram a abolição do uso de peles em marcas como Gucci, Versace, Chanel, Calvin Klein, Vivienne Westwood, Ralph Lauren, Hugo Boss, Tommy Hilfiger, H&M, Topshop e Forever 21. Além dessas, outro nome de peso na indústria que apoia esse movimento é Stella Mc- Cartney. Vegetariana desde criança, ela tenta combinar moda e materiais sustentáveis sem que as roupas pareçam menos impactantes.

— A última a aderir ao movimento foi a tradicional italiana Armani que, a partir de março deste ano, se comprometeu a não usar mais peles de animais em suas coleções, mostrando que as grifes de luxo podem e devem se comprometer na luta a favor dos direitos dos animais — lembra Roraine Zanetti.

Em contrapartida ao No Fur, a International Fur Trade Federation (IFTF) investe em desfiles de novos designes e financiamento dos mesmos durante a faculdade de moda para a sua perpetuação.O IFTF se mantém vivo ao distribuir casacos de pele para celebridades e dar matérias-primas para estilistas famosos, além de fazer um enorme trabalho de relações públicas com matérias na mídia, difundindo a ideia não só de que usar peles está na moda, como também que a indústria da pele é sustentável e economicamente necessária.

Em relação à visão italiana sobre as marcas brasileiras e a visão do Brasil acerca das grifes do país europeu, Zanetti, que morou na Itália por um período de dois anos, possui 12 anos de experiência no mercado de moda e varejo trabalhando como estilista e coordenadora de grifes cariocas e hoje presta o serviço de consultora de moda para a faculdade Senai-Cetiqt, no Rio de Janeiro, só tem críticas positivas a fazer:

— O estilista e a moda brasileira são muito bem-vistos lá e em toda Europa. A moda brasileira é focada como fonte de criatividade e vista como referência principalmente na moda praia. A Itália, tanto no Brasil quanto no mundo, é vista como referência na moda, têxtil e de confecção, não só como disseminador de tendências e consumo de moda, mas também como pioneira no desenvolvimento de tecnologia de fibras, fios e maquinários da indústria têxtil — afirma a mineira, apreciadora de bordados e artesanatos e com uma marca própria focada no handmade, a consultora de moda ítalo- brasileira tem como objetivo em seus aconselhamentos ajudar no desenvolvimento de projetos de moda e tecnologia para aprimorar e impulsionar a indústria.