Fotos de gatos, tortas napolitanas, uma xícara de café expresso recém-saído da máquina e o skyline de Roma junto da legenda “como é bom acordar com o céu azul”. Em redes como Facebook, Twitter e Instagram, os quase 5 milhões de seguidores de Matteo Salvini — vice-premiê e ministro do Interior da Itália — encontram posts que vão muito além da política.

Recentemente, o tema de uma das publicações foi o fim do namoro com a apresentadora de televisão Elisa Isoardi: “Adorei, perdoei, com certeza também cometi erros, mas acreditei nisso até o fim”, escreveu Salvini.

Coincidência ou não, ele é um dos políticos mais reconhecidos pelo eleitorado de seu país.

Em pesquisa publicada pelo jornal La Repubblica no início do mês de novembro, 58% dos entrevistados afirmaram enxergar o vice-premiê e ministro do Interior como o verdadeiro líder do governo. Ele ficou bem à frente do próprio primeiro-ministro Giuseppe Conte, cuja liderança foi mencionada por apenas 16% dos italianos.

“As redes sociais mudaram a forma como a gente se relaciona em todos os níveis da sociedade. Hoje, as pessoas esperam que todos os interlocutores sejam mais humanos. Dependendo da forma como políticos e executivos administram suas redes, sua popularidade pode, de fato, crescer significativamente”, comenta o professor de Marketing Digital Edney Souza.

Selfie de gabinete

Fora as comidas e paisagens, Salvini não deixa de atualizar seus seguidores sobre o dia a dia de trabalho dentro e fora do Palazzo Chigi — sede do governo italiano em Roma. Não raro, posta selfies usando capacetes de segurança em obras, durante reuniões com autoridades locais ou assinando decretos em seu gabinete. A estratégia, segundo Souza, só deve fazer crescer a base de admiradores.

“Se o político posta fotos em muitas festas, não dá a impressão de que faz bom uso do dinheiro público. Quando, por outro lado, se expõe e mostra um lado humano que gera identificação pelo trabalho, que reforça que acorda cedo para exercer suas funções, etc., ele deixa de ser um integrante frio e distante de um órgão público e passa ser um amigo de seu público”, completa o professor.

Aos 45 anos de idade, Matteo Salvini é líder do partido de extrema-direita italiano Liga. Ele é considerado o responsável por transformar a legenda na força política mais forte do país em pouco menos de oito meses, desde que seus candidatos conquistaram 17,4% das urnas nas eleições gerais em março. Hoje, a Liga forma o governo junto do populista M5S (Movimento 5 Estrelas).

Apesar do bom desempenho nas redes em termos gerais, o vice-premiê já deu seus escorregões. Foi muito criticado, por exemplo, ao postar uma foto sorrindo enquanto visitava a cidade de Veneza devastada por enchentes no dia 4 de novembro.

Antes disso, teve a conduta questionada por aparecer nas imagens em uma celebração de seu partido poucas horas depois do desabamento de uma ponte em Gênova, que deixou 43 mortos no último mês de agosto.

Política além das redes

Defensor de maior rigidez nas leis de imigração e crítico ferrenho do euro, Salvini também não deixa de compartilhar notícias relacionadas a suas propostas.

O grande desafio, na opinião do especialista Edney Souza, deve ser convencer o grande número de seguidores nas redes sobre a viabilidade de sua agenda.

“Atualmente, criar uma presença nas redes é fundamental para ser bem-sucedido. Não há mais quem questione essa necessidade. O que fica, agora, é o desafio de se alinhar ao eleitorado e mudar a mentalidade dele. A popularidade nas redes te dá um palanque para começar seu discurso. A partir daí, o que se tem é o debate de ideias.”

Por ora, o Parlamento da Itália já aprovou, na última terça-feira (27), o Decreto de Segurança e Imigração, elaborado pelo próprio Salvini.

O texto restringe a concessão de proteção humanitária para requerentes de asilo na Itália, muda algumas regras relativas ao reconhecimento da cidadania italiana e inclui iniciativas para reforçar a segurança e combater a máfia.

Para Edney Souza, o que deve estender a sobrevivência da pauta de políticos como Salvini — dentro e fora das redes — é a capacidade dos líderes de “vender esperança” ou “vender desconfiança”.

“Quando você provoca alguma desconfiança em relação ao outro, você move parte do eleitorado para o seu lado. Quando se vende esperança, também há mais pessoas que acreditam nas suas ideias’, finaliza o especialista.

O próximo impasse a ser enfrentado pelo vice-premiê é a aprovação da lei orçamentária da Itália para o próximo ano — que já foi rejeitada pela Comissão Europeia. Enquanto a zona do euro acredita que os planos de empréstimos e gastos de Roma possam desencadear outra crise de dívidas que prejudicaria a todos, o governo italiano argumenta que uma expansão no orçamento vai impulsionar o crescimento econômico no país.

(R7)