A Corte de Apelação de Palermo emitiu nesta sexta-feira (20) a aguardada sentença do processo sobre as supostas relações entre o Estado da Itália e a Máfia e condenou à prisão políticos, funcionários públicos e líderes mafiosos

Entre eles estão o ex-senador Marcello Dell’Utri (12 anos de cadeia), um dos aliados mais próximos do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi; os ex-comandantes da Arma dos Carabineiros Mario Mori e Antonio Subranni (12 anos); o ex-coronel Giuseppe De Donno (oito anos); os ex-chefes mafiosos Leoluca Bagarella (28 anos) e Antonino Cinà (12 anos); e o delator Massimo Ciancimino (oito anos).

Já o ex-ministro do Interior Nicola Mancino (1992-1994) foi absolvido. O crime imputado aos réus é de “ameaça a corpo político do Estado”, com exceção de Ciancimino, condenado por associação mafiosa e calúnia.

“Este processo e esta sentença são dedicados a Paolo Borsellino, a Giovanni Falcone e a todas as vítimas inocentes da máfia”, afirmou o procurador Vittorio Teresi, em referência aos dois juízes assassinados pela Cosa Nostra no início dos anos 1990.

O processo “Estado-Máfia” durou cinco anos, após outros cinco de inquérito, e investigou as negociações entre o poder público e a Cosa Nostra para interromper os atentatos terroristas que a organização realizava nas principais cidades da Itália na primeira metade da década de 1990, em troca do relaxamento das penas de criminosos.

Ao todo, foram ouvidas mais de 200 testemunhas, incluindo o então presidente da República, Giorgio Napolitano, em outubro de 2014. Na época dos fatos, no início dos anos 1990, ele comandava a Câmara dos Deputados da Itália.

Entre os atentados mais famosos cometidos pela Cosa Nostra naquele período estão os que vitimaram os juízes antimáfia Giovanni Falcone (23 de maio de 1992) e Paolo Borsellino (19 de julho de 1992), ambos na Sicília.

Segundo a acusação, políticos e carabineiros ofereceram relaxamento no regime prisional de mafiosos em troca do fim dos ataques. Um dos indícios usados pelos promotores foi a não renovação do “41 bis”, regime que mantém o detento em isolamento constante, para cerca de 300 pessoas condenadas por ligação com a Máfia.

Berlusconi

Além de toda a atenção midiática que atraiu nos últimos anos, o processo “Estado-Máfia” pode respingar nas delicadas negociações para a formação do novo governo.

Outro promotor do caso, Nino Di Matteo, afirmou que a sentença mostra que o ex-senador Dell’Utri transmitia os pedidos da Cosa Nostra ao governo de Silvio Berlusconi, que exerceu seu primeiro mandato como premier entre maio de 1994 e janeiro de 1995. “A Corte considerou isso provado”, disse.

Dell’Utri, Mori, Subranni, De Donno, Cinà e Bagarella terão de ressarcir a Presidência do Conselho dos Ministros em 10 milhões de euros. O advogado do ex-senador promete recorrer da sentença, a qual ele chamou de “injusta”, mas as atenções já se voltaram para Berlusconi.

A decisão da Justiça chega no momento em que o antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S) tenta tirar a ultranacionalista Liga, comandada por Matteo Salvini da coalizão de direita, também composta pelo ex-primeiro-ministro conservador.

De acordo com fontes ouvidas pela ANSA, as lideranças do M5S afirmam que a sentença obriga Salvini a tomar uma decisão e encerra qualquer hipótese de formar uma aliança com o Força Itália (FI), partido de Berlusconi. “Houve negociação entre o Estado e a Máfia. Com as condenações de hoje, morre definitivamente a Segunda República”, afirmou Luigi Di Maio, líder do movimento antissistema.

Salvini, por sua vez, ainda não se pronunciou. O secretário da Liga vem se recusando a romper a coalizão de direita, por um lado para ter mais chances de garantir a cadeira de primeiro-ministro, e por outro para não perder o apoio do FI nas regiões governadas pela legenda ultranacionalista, como as ricas Lombardia e Vêneto.

Berlusconi, por sua vez, afirmou que é “absurdo e ridículo” ligar seu nome ao processo. “Nunca recebemos nenhuma ameaça da Máfia”, declarou. Além disso, o Força Itália prometeu processar o promotor Di Matteo. (Agência ANSA)