A estratégia de distribuição da Netflix para seus conteúdos originais, exclusivamente voltada para sua plataforma de streaming, não é vista com bons olhos pelos donos de salas de cinema. Por isso, após as polêmicas entre a companhia californiana e os festivais de Cannes e Veneza — de onde a gigante do streaming saiu vencedora do Leão de Ouro com o Roma de Alfonso Cuarón —, os distribuidores italianos “tradicionais” decidiram intervir: agora, todo filme deve ser exclusivo das telonas italianas durante 105 dias antes de poder ser lançado on demand.

Apesar da repentina instituição da legislação e das rusgas entre a Netflix e os donos de salas de cinema na Itália — também por causa do italiano Na Própria Pele, que fez sua estreia em Veneza e foi lançado ao mesmo tempo nos cinemas e na plataforma da Netflix —, Luigi Lonigro, chefe do sistema de distribuição cinematográfica italiano, afirmou em entrevista à Variety que a medida não tem a intenção de ir contra a gigante do streaming: “Quero sublinhar que este decreto é a favor do cinema italiano. Não é contra ninguém. O filme Roma não tem nada a ver com isso”.

Contudo, Lonigro, que declarou anteriormente que a Netflix deveria comprar ou alugar salas de cinema se quisesse entrar na Itália, também disse que a empresa precisará respeitar a lei, seja no caso do drama de Cuarón, seja no caso de qualquer outro filme. “Não estou preocupado com uma companhia que não está na Itália […] Eles não são distribuidores de cinema. Eles não têm acordos de distribuição na Itália no momento. Por que devemos encontrar um problema nisso? Temos uma indústria que funciona 365 dias por ano com uma tonelada de produtos. Por que deveríamos ser afetados por uma companhia que respeitamos, mas que não tem nada a ver conosco?”, arrematou Lonigro.

As palavras do executivo, entretanto, podem colocar mais lenha na fogueira do que aplacar a disputa entre os meios tradicionais e a disruptiva Netflix. A Itália, que agora segue oficialmente uma lei de respeito à janela de distribuição como a França para promover e fomentar produções locais, é mais uma nação que se coloca na contramão da gigante do streaming. O embate entre os dois lados pode vir a ser benéfico no futuro em termos de incentivo à produção e à diversidade, mas no momento, o certo é que as rusgas têm gerado um contexto de desconforto e desconfiança. Resta aguardar o desenrolar dos próximos capítulos.

(Adoro Cinema)