As urnas brasileiras espelham muito do que resultam das urnas europeias. Partidos moderados, populares, de centro, liberal-democráticos que davam o equilíbrio político em países do bloco europeu perdem cada vez mais espaço. Na Itália, o dia 4 de março deste ano marcou a entrada em campo do partido antissistema M5S e do Lega Nord, do badalado vice-premier Matteo Salvini, homem da direita mais pura e radical. Assim, os pilares históricos de famílias políticas que conduziram a Europa pós-bélica para a saída das ruínas da guerra parecem entrar em uma fase de extinção. Esse apocalipse por lá mostra que partidos históricos não entenderam que existe uma insurreição eleitoral de cidadãos que conquistaram bem-estar e a ordem e não querem saber de novos problemas. Não estão dispostos a abrir mão do código de conduta que estão habituados no dia a dia para dar espaços a populações que chegam com novos problemas sociais.

Pietro Petraglia
Editor

No Brasil de incertezas, a maior parte da população escolheu decididamente no primeiro turno por quem conseguiu interpretar melhor as decepções dos eleitores. Com o discurso radical do ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro, de 63 anos, identificaram-se milhões de brasileiros que se agarram nele como um salva-vidas em mar revolto.

O fenômeno Bolsonaro é uma resposta clara ao processo da Lava Jato. O PT de Lula não saiu vitorioso, mas quem mais perdeu espaço foram partidos da centro-direita brasileira como os históricos PSDB e o PMDB, que, apesar de se colocarem como promotores da operação mãos limpas brasileiras, não resistiram aos escândalos que envolvem suas próprias legendas e perderam a maioria das cadeiras do Parlamento.

A maciça resposta das urnas do maior País da América Latina é considerada na verdade não somente um voto de protesto. Mas um voto de medo. Medo da criminalidade que avança nos grandes centros, de repulsa à velha política que não garante direitos básicos da Constituição e desdenha do eleitor. A ansiedade agora é para saber se o mercado, que mostrou sua posição favorável através das altas da bolsa de valores pró-Bolsonaro, estava certo. Se esse político em sua sétima legislatura – conhecido por defender a máxima de “bandido bom é bandido morto” –, que se negou a falar de economia durante a campanha, conseguirá, se confirmado no segundo turno, melhorar os tristes índices de violência e corrupção do País.

Contra ele, o afilhado de Lula, Fernando Haddad, de 55 anos, nascido em São Paulo e de origens libanesas, é um advogado e professor, ex-ministro da Educação no governo Dilma e ex-prefeito da capital paulista. Haddad teve pouco tempo para sair da sombra de Lula pela demora do Partido dos Trabalhadores a lançar um nome para a corrida presidencial. Precisaria demonstrar posições mais moderadas ao mercado e costurar as fendas da esquerda que demonstra ter se desesperado com o avanço do oponente.

Mais que uma luta de origens, libanesas de Haddad, contra italianas, seja por parte do pai, do Vêneto, que da mãe, da Toscana, de Bolsonaro, esta batalha tem que
dar vida a um País dilacerado. Um país que há pouco tempo era considerado pelo mundo um dos melhores territórios para investir e tem todos os potenciais para retornar a crescer como grande nação.

É necessário parar de uma vez com esse ódio de todos contra todos, esta violência privada e pública. Estudiosos de comportamento dizem que quando uma espécie está desaparecendo, ao invés de proteger os pequenos, os mata, defeca nos seus ninhos e destrói seu ambiente, numa cega e desesperada corrida suicida. Como, ao contrário de sumir, a humanidade se multiplica, outros problemas como a fome e a poluição surgem mais aparentes… Mas é hora de grandes líderes refletirem em palavras de ordem que levam ao ódio aos diferentes, ou ao armamento até de crianças, ou ao totalitarismo. São as condutas de hoje que podem levar inteiras gerações ao precipício.

Que o bom senso e novas formas de responsabilidade prevaleçam, o contrário só estimula o ódio indiscriminado. São também em momentos assim que o ser humano se diferencia e faz despertar toda sua extraordinária capacidade criativa.

Boa leitura!