Pesquisadores italianos criam uma esponja de poliuretano capaz de proteger os mares de vazamentos de petróleo, mas o lobby das empresas de métodos tradicionais, e mais custosos, impede a adoção do sistema

Os desastres ambientais provocados pelas grandes petroleiras ameaçam os mares e oceanos do planeta. Uma empresa italiana, a Test 1, surgiu em Brescia, três anos atrás, com o objetivo de criar um produto capaz de conter e absorver o derramamento de óleo em superfícies fluidas. A matéria-prima é a espuma de poliuretano. Dali em diante, muita água e hidrocaburetos passaram sob a ponte da pesquisa sem trégua. O resultado é a criação de uma tecnologia de ponta, sem competidores à altura, contra o vazamento de nafta, petróleo bruto e gasolina, entre outros derivados do combustível fóssil. A empresa bateu 22 adversários no concurso nacional da Confederazione Nazionale dell’Artegianato no quesito Cambiamenti.

— Nascemos em 2014 com o objetivo de criar produtos para proteger o ambiente, nos âmbitos marinhos, fluviais e portuários, onde houver a necessidade de separar o óleo da água, e em contextos industriais para a separação de óleos de condesamento — afirmou Giorgio De Vitalis, da Test 1.

Os engenheiros químicos e os técnicos conseguiram elaborar um composto absorvente, uma espécie de esponja que filtra e retém o líquido viscoso derramado na água. Ele chega ao mercado internacional este ano com o nome comercial de PU-FF, sigla que em inglês significa Polyurethane Foam-Flex. A esponja consegue absorver um volume de material até 30 vezes superior à própria dimensão e peso, capacidade que varia de acordo com a densidade do óleo a ser coletado. Mas não bastava criar uma espuma descartável e, por isso mesmo, mais barata, porém, mais poluidora. O produto pode ser utilizado 100 vezes, sem perder as suas qualidades fundamentais e que, ao fim da sua vida útil, pode ser regenerado e reciclado, totalmente, sem prejuízo para o meio ambiente.

Material ocupa menos espaço em navios e pode ser usado no mar agitado

O PU-FF pode ser utilizado 100 vezes e ser reciclado.

Os técnicos construíram um maquinário para espremer a esponja, liberando-a do produto recolhido, e, ao mesmo tempo, armazenando o líquido causador do desastre ambiental. Esta inovação pode ser comparada, superficialmente, ao antigo gesto de lavar um prato com a esponja e espremê-la ao fim da limpeza, ou a engrenagem de metal usada para tirar a água suja dos tapetes lavados dde um carro. Ao contrário das boias de contenção, usadas para evitar a fuga da maré negra, a esponja serve não apenas para limitar a disseminação dos poluentes mas, ao mesmo tempo, para retirá-los da água ao incorporá-los dentro de suas “células” arejadas.  Um quilo da esponja absorve até duas toneladas de hidrocarburantes.

A esponja pode ser usada em quaisquer condições meteorológicas. Mesma saturada com o óleo absorvido, pode flutuar na superfície da água por um longo período até ser recolhida a bordo. Nem as ondas grandes afetam a operação. Os rolos de esponja P.U.F.F ocupam pouco metros quadrados e podem ser facilmente transportados dentro dos meios de navegação e guardados em simples almoxarifados, em forma de tapete, cilindros  ou paralelepípedos flutuantes. Suas vantagens não param por aí: o custo para o uso do P.U.F.F é de três a oito vezes inferior aos concorrentes. As operações de limpeza são complexas e caras nos casos de vazamento. O colosso italiano de energia, a Eni, abriu seus laboratórios para pesquisas mais avançadas da Test, o que revela o quanto a descoberta pode ser relevante na solução de problemas ambientais.

O produto italiano está sendo testado nas Ilhas Canárias e na costa do Marrocos. Em abril do ano passado, um acidente na ilha de Las Palmas derramou uma grande quantidade de carburante no mar depois da colisão de uma embarcação com o cais. A tecnologia italiana despertou o interesse do governo espanhol. Já dentro de casa,  a burocracia e a legislação italiana ainda não permitem que esta esponja seja usada. Embora tenha sido reconhecido pelo Ministério italiano do Ambiente e da Tutela do Território e do Mar, o corporativismo dos fabricantes dos métodos tradicionais se impõe no Parlamento em Roma e impede mudanças na lei. Seria o caso de usar a nova esponja para absorver e limpar o sistema italiano, que privilegia o clientelismo em detrimento da meritocracia e que, por isso mesmo, não consegue caminhar de mãos dadas com a inovação.