De Trebaseleghe, na província de Pádua, no Vêneto, para o Rio Grande do Sul. Esta é a saga da família Guadagnin, que saiu há mais de 100 anos do Norte da Itália para ajudar a desbravar o Brasil meridional. Detalhes que a professora de história Firléia Guadagnin Radin, de 48 anos, hoje diretora de escola na cidade gaúcha de Nova Bassano, colonizada por imigrantes italianos, conta ao repórter Maurício Cannone.

O vêneto Giacomo Guadagnin chegou ao Brasil por volta de 1888 e constituiu família no Rio Grande do Sul. Hoje seus descendentes vivem em Nova Bassano, onde se realiza todos os anos a Romaria do Bom Senhor Jesus.

Fim do século XIX. O Brasil tinha acabado de abolir a escravidão e precisava de novos braços para a agricultura. Giacomo Guadagnin deixou a Itália em 1889, aos 18 anos de idade. Não queria prestar o serviço militar numa época de muitas revoltas em seu país.

— Lá por 1888, não sei bem ao certo, meu bisavô Giacomo Guadagnin chegou ao Brasil, não exatamente onde hoje é Nova Bassano. Ele estava na primeira grande leva migratória que povoou a região da Serra Gaúcha, veio com a irmã mais velha que já era casada e estabeleceu-se com ela no início. Acabou constituindo família no Brasil. Outra irmã também se estabeleceu na antiga colônia Alfredo Chaves, hoje Veranópolis. Como a grande maioria dos imigrantes daquela época, ele veio como agricultor para trabalhar seu pedaço de terra — conta Firleia.

O sobrenome teria origem no verbo guadagnare, que significa ganhar em italiano:

— O primeiro Gudagnin, séculos antes, havia sido comerciante. Tinha uma venda pequena, ficou sendo Guadagnin. Antes tivesse sido Guadagnon — brinca Firléia, colocando aumentativo no sobrenome.

O marido de Firléia também é de origem italiana, de sobrenome Radin.

A família Guadagnin veio da província de Pádua (Padova no nome original). Mas Nova Bassano foi batizada em

 homenagem a outra cidade do Vêneto: Bassano del Grappa, na província de Vicenza. Localizada no nordeste do Rio Grande do Sul, a cidade onde nasceu Firléia mudou de nome, pertenceu a vários municípios e desde 1964 foi emancipada. Imigrantes italianos fundaram Bassano por volta de 1890. Até 1898, fazia parte do município de Lagoa Vermelha, quando houve a emancipação de Veranópolis, então Alfredo Chaves, que englobava o território da atual Nova Bassano. Em 1924, passou a ser segundo distrito do município de Nova Prata, antiga Capoeiras, que então se emancipou de Veranópolis.  Durante a Segunda Guerra Mundial, a então Bassano teve de mudar de nome para Silva Pais. O Brasil entrou no conflito ao lado dos aliados e qualquer menção ao inimigo Eixo, do qual fazia parte a Itália, era proibida. 

— Aos italianos não era permitido nem falar a própria língua — lembra a professora.

Em 1947, já depois da guerra, passou a chamar-se Nova Bassano, voltando às origens para render homenagem aos pioneiros italianos.

Bassano del Grappa, no Vêneto, e Nova Bassano, no Rio Grande do Sul, foram cenários da minissérie televisiva Di Padre in Figlia, exibida no ano passado pela Rai tanto na Itália como no Brasil, por meio de seu canal internacional. As duas cidades mantêm laços de amizade e intercâmbio cultural. Em final de julho, Nova Bassano vai receber comitiva do grupo italiano de teatro Le Arti Per Via, de Bassano del Grappa.

— É um grupo que se apresenta nas ruas — explica Firléia.

Na cidade gaúcha, hoje com cerca de dez mil habitantes, é muito difundido o talian, o dialeto vêneto utilizado pelos imigrantes no fim do século XIX, misturado com o português. Hoje, Firléia dirige a Escola Estadual Padre Colbachini, um dos pioneiros na imigração em Nova Bassano, originário de Bassano del Grappa. Firléía tem também a cidadania italiana e já estudou a língua de seu bisavô.

— Hoje, nossa economia se baseia na indústria metalúrgica, nos serviços que giram em torno dela e na agropecuária. Temos o sétimo melhor índice de desenvolvimento humano do estado — conta ela, com orgulho.