Não só o Sudeste e o Sul do Brasil receberam imigrantes italianos. Além de outras regiões, o Nordeste também. Uma leva vinda depois da Segunda Guerra Mundial chegou à Bahia para trabalhar na agricultura. Antonio Martinelli, casado com a também italiana Marisa Palmarella Martinelli, foi um deles. Há 68 anos, vindo da região do Abruzzo, partiu com a família do porto de Gênova para se estabelecer em terras do nordeste do Brasil. História que ele contou ao repórter Maurício Cannone.

Corria o ano de 1950. O patriarca da família Martinelli já tinha deixado a Itália. Pouco depois vinham mulher e filhos. Imigração que ajudou a desenvolver Jaguaquara, cidade do sudoeste baiano de 924,743 quilômetros quadrados, onde mais tarde fincariam raízes. Tudo dentro de um convênio com a cooperativa agrícola de Pescara. Antes disso, a família experimentou outra experiência no estado antes de chegar a Jaguaquara. A Itália, na ocasião, vivia a penúria do pós-guerra. O boom econômico só ocorreria alguns anos depois, diminuindo a emigração.

— Sou de Turrivalignani, na província de Pescara. Meu pai já trabalhava com agricultura lá. Eu estava na escola na Itália. Hoje Turrivalignani tem 884 habitantes? É mais ou menos do tamanho da fazenda de gado que tenho hoje, de 800 hectares. Hoje, mexo menos com a terra, mexo mais com gado. Ottavio, meu pai, veio seis meses antes para o Brasil, como chefe de família. Era comum na época. Veio conhecer, ver como era tudo, saber se tinha condição de trazer a família, que depois se mudou para o Brasil. Ele tinha nove filhos no total — conta à Comunità Antonio Martinelli.

Ele chegou em 1950 à Colônia Boa União, pertinho de Salvador. Havia três colônias de italianos na Bahia naquela época, conta ele: Boa União, no município de Camaçari, além daquelas de Jabaquara e Itiruçu. Em 1967, foi para Jaguaquara — nome que significa Toca da Onça em tupi. Era o nome da vila antes de tornar-se uma cidade na década de 1920. Em 1950, segundo a prefeitura desse município baiano, 41 famílias receberam do governo pequenos lotes de terras. Os imigrantes italianos trouxeram da Europa a lavoura com produtos na época ainda desconhecidos na Bahia e técnicas mais desenvolvidas de cultivo. Além de hortifrutigranjeiros, plantaram uva e trigo. Esses últimos dois produtos não se adaptaram muito à região, segundo Antonio Martinelli:

— O pé de uva dá só para o gasto. Lá em Juazeiro, também na Bahia, dá muita uva, lá é melhor. Em Jabaquara, o trigo bom não cresce, não dá espiga boa. Com muito sol ele pifa. É diferente da Itália, onde é plantado em novembro e fica sob a neve três meses, e depois levanta para crescer. Aqui o clima não permite muito.

Para Martinelli, a vinda de seus compatriotas foi fundamental para o desenvolvimento da cidade:

— Se não fossem os italianos, Jaguaquara estaria morta. Hoje é quase a cidade mais rica da Bahia. Saem daqui mais de 30 carretos de verdura por semana. Os italianos ajudaram muito, muito, muito. Aqui se planta abóbora, chuchu, tomate, pepino. Quem sabe tem obrigação de ensinar para o povo. Antes, na Bahia, só se plantava mandioca, umas frutinhas, mas muito ruins mesmo.

Aos 82 anos de idade, e há 14 no Brasil, ele nunca se naturalizou.

— Nunca me naturalizei. Naturalizar para quê? Sou ítalo-brasileiro. Vivo aqui há tantos anos. Não sou mais brasileiro do que italiano? Dificuldades nos primeiros tempos de Brasil? Não, só para quem é preguiçoso. Há mais preguiçosos no Brasil do que na Itália. Mas lá também tem preguiçoso. E o governo brasileiro mandou os italianos preguiçosos de volta para a Itália. Quem trabalha não tem medo. Voltei à Itália duas vezes para passear. A última tem uns seis anos. Para rever onde eu nasci, onde eu brincava, pertinho da estrada que leva Pescara a Roma — conta.

Atualmente, Giuliano Martinelli, sobrinho de Antonio e filho de seu irmão Rocco, é o prefeito de Jaguaquara. O município, segundo o IBGE, tem pouco mais de 56 mil habitantes. Está em segundo lugar na produção de hortigranjeiros da Bahia, de acordo com os dados da prefeitura, que destaca a pecuária como outra de suas atividades principais.