Após a Segunda Guerra, a Itália era um País despedaçado. Nos campos ficaram mais de 16 milhões de bombas que não explodiram; três entre quatro famílias não tinham chuveiro em casa e muitos se lavavam nos balcões das residências; o país não exportava tecnologia, mas sim mão de obra barata; a maior parte das famílias, à parte as que se favoreceram do mercado negro ou não tiveram suas casas destruídas, entre as duas milhões bombardeadas, estavam falidas. Um povo de camponeses pobres. Coisas simples como armazenar comida ou cozinhar dependiam
de muito empenho. O Facebook era o bar. O rádio, o principal meio de comunicação e a bicicleta o meio de transporte. Enquanto as horas eram contadas ao som dos sinos das igrejas, as mulheres preparavam a refeição para levar para quem trabalhava no campo, e também trabalhavam duro nas plantações.

A população sofreu demais. Com fome, frio e doenças, depois da guerra que vitimou quase 500 mil pessoas entre militares e civis.

Pietro Petraglia
Editor

Mas a capacidade de reconstruir a nação era a beleza que não se descreve, mas se vive até os nossos dias. Nos relatos de tantos pais e avós que viveram esse período é possível ver a expressão de tempos dramáticos, mas também deixam claro a alegria com que trabalhavam e a certeza de que cada dia que acordavam construíam um presente melhor.

Os italianos beijavam o pão antes de come-lo e criavam receitas originais de produtos que não poderiam ser desperdiçados. Tornar-se uma potência mundial que exporta tecnologia
de ponta em todos os setores e centro de excelência para diversas áreas do conhecimento humano foi possível também graças aos milhões de cidadãos que deixaram suas casas para conquistarem espaços em outros países. E nesses países foram capazes de levar desenvolvimento e “fazer a América”. Um sacrifício que levou divisas fundamentais para o bem-estar atual.

É preciso essa “grinta” pelo bem comum de volta! A palavra em italiano que significa uma força absoluta, determinante, muito usada no futebol. Os brasileiros e italianos de hoje precisam de uma sacudida para despertar essa grinta. Hoje a Itália se tornou o país com maior número de celulares por habitante, 65 milhões; 37 milhões de carros… o Brasil, que não passou por nenhuma guerra ou terremoto ou qualquer outro abalo por força da natureza, tem índices melhores que num passado recente, mas a felicidade de outros tempos deu lugar a uma resignação moral estagnada em nossos países.

Nestes dias de extremos e elucubrações irresponsáveis é fundamental termos a história presente. Um rascunho de decreto de Segurança, elaborado pelo vice-premier Matteo Salvini, causou grande preocupação entre os milhões de ítalo-brasileiros ao sugerir limitar a concessão da cidadania italiana somente até a segunda geração. Em poucas horas, um abaixo assinado contra a medida conseguiu reunir milhares de assinaturas no Brasil.

Assim como parece ser justo que todos lutem pelo direito histórico do reconhecimento também é mais do que hora de se valorizar mais o exercício da cidadania. A ancestralidade não se resume à genealogia. Os ancestrais biológicos não foram escolhidos, mas a opção por uma linhagem intelectual, criativa e ideológica que mostre o verdadeiro caminho percorrido para a formação da cidadania é necessário entre as famílias. Como diz o cônsul geral em São Paulo, Filippo La Rosa, em entrevista nesta edição, o Consulado não é uma “fábrica de passaportes”. Deve fazer parte do trabalho das instituições oficiais italianas incentivar também o pleno exercício da cidadania através de atividades socioculturais e não só comerciais. Desde março de 1994, nós fazemos a nossa parte com informação plural de qualidade e difusão da língua e da cultura para o crescimento comum entre o Brasil e a Itália.

Boa leitura!