Ítalo-brasileiro destaca-se como agricultor no Friuli e fornece seus produtos para restaurantes locais. A caminho da certificação orgânica europeia, ele cultiva frutas vermelhas em uma pequena propriedade rural da família, no Friuli

“Eu era um desses caras que achavam que as frutas nasciam nas bancas da feira”. Essa afirmação poderia passar despercebida se viesse de qualquer outra pessoa. Mas não do paulistano Marcelo Cavalcanti, pequeno produtor de frutas vermelhas na região do Friuli-Veneza Giulia, no norte da Itália. De certa forma, o setor da alimentação já estava em seu caminho. Quando chegou à Europa, 20 anos atrás, trabalhou em vários restaurantes e até se arriscou a atravessar novamente o oceano, estagiando nos Estados Unidos. Mas seu destino estava mesmo na terra de Dante Alighieri, onde o brasileiro se casou com uma italiana, teve dois filhos e, atualmente, divide-se entre a gerência do restaurante La Frasca, em Pavia de Udine, e o pomar cultivado com a ajuda da família. Sua pequena empresa Rubus (framboesa, em latim) fornece framboesas, amoras e ribes para restaurantes locais. Este ano, o projeto — que começou tímido, dois anos atrás — celebra uma conquista: a inclusão da Rubus no Friuli dei Sapori, um guia do setor alimentício da região. Em sua trajetória, o paulistano contou com a colaboração familiar e incentivos do governo, mas também teve que aprender a se virar com o orçamento apertado e uma rotina de trabalho intensa. Hoje, suas frutas figuram nos menus de restaurantes locais.

Quando criança, no bairro de Santa Cecília, na zona central de São Paulo, a maior alegria de Cavalcanti era ver a nonna trazendo as cestas de frutas vermelhas da feira. As cores vibrantes e o doce aroma das framboesas ainda são as recordações mais saborosas da infância de Cavalcanti:

— Era delicioso. Ainda tenho a imagem da minha avó chegando com aquelas cestas apetitosas e perfumadas — recorda-se saudoso.

Cultivo é feito sem uso de agrotóxicos ou produtos químicos

Na área cultivada de mil metros quadrados, nada de agrotóxicos ou produtos químicos. A terra recebe apenas adubo orgânico e, para combater as formigas, Cavalcanti lança mão de pó de café e tabaco. Para regar o pomar, utiliza água de drenagem da chuva. Começou agora o processo para obter a certificação orgânica, o que deve levar cerca de três anos:

— O processo é um pouco longo porque, durante esses três anos, eles fazem visitas frequentes para observar se realmente damos continuidade à produção orgânica, sem o uso de pesticidas e com a aplicação dos métodos permitidos. Mas somos persistentes e sabemos esperar — explica.

Segundo pesquisas recentes da Università di Torino, o interesse pelo setor de hortifrutigranjeiros tem crescido nos últimos anos com um público cada vez mais preocupado com a saúde, através da busca de benefícios que as frutas podem trazer. Neste contexto, trata-se de um nicho que vai ao encontro de um mundo cada vez mais sustentável e eco-friendly. De acordo com dados divulgados pelo CSO Italy – Centro Servizi Ortofrutticoli, nos últimos dois anos, a população italiana teve um consumo doméstico de hortifrutigranjeiros próximo a 8,27 milhões de toneladas, totalizando compras acima de 13,7 bilhões de euros.

Negócio começou com herança da família e doação de terceiros

Há 20 anos, nenhum desses números faria sentido na cabeça do jovem paulistano que se mudava para a Europa e nem sonhava em criar a Rubus. O primeiro passo foi obter a cidadania italiana, respaldado nas raízes de seus bisavós, originários de Castelnuovo di Garfagnana (Toscana) e Modena (Emília-Romanha). Depois, começou a trabalhar em restaurantes italianos. A ideia não era nova, visto que sua mãe já era proprietária de um estabelecimento em São Paulo. Na Itália, começou por Trieste, passou pelas zonas balneárias de Bibione e arriscou seis meses na Alemanha. Em 2010, diplomou-se sommelier e fez estágio em Nova York, fase da qual fala com certa nostalgia:

— Tinha esse espírito aventureiro de viajar o mundo, conhecer novos lugares, encontrar gente nova, o que eu acho que também fazia parte da idade.
No final, foi ótimo. Aprendi muito e, depois de passar por tantos lugares, voltei às minhas origens — avalia.

A ideia de retomar as framboesas da infância só surgiria anos mais tarde, depois de casado e dos filhos crescidos, quando Cavalcanti e a esposa herdaram a propriedade em que o sogro dele morava, em Mortegliano, em Udine. Percebeu que havia uma pequena horta já cultivada, mas que ainda havia muito espaço ocioso para ser ocupado. Antes de começar seu projeto, ele pesquisou sobre o assunto e visitou pequenas propriedades que já praticavam essa atividade. Mas confessa que não dispunha de grande investimento para dar o pontapé inicial no negócio:

— Começamos com o que a gente tinha, com o que cabia no orçamento e com doações de terceiros. Algumas ferramentas agrícolas, por exemplo, foram doadas por freiras de Trieste. Depois, também fiz outras melhorias, comprei um trator para me ajudar a trabalhar a terra e agora quero continuar — empolga-se.

Além do trator, o ítalo-brasileiro conta com outra “mãozinha” preciosa: a ajuda da esposa Marianna e dos filhos Edoardo e Rita. — Eles são fundamentais. Sem essa força, certamente teria sido complicado chegar até aqui — reconhece.

A rotina exige, de fato, colaboração coletiva. Entre julho e outubro (com uma pausa de duas semanas em agosto), a colheita deve ser feita todos os dias, nas primeiras horas da manhã. Em seguida, as frutas devem ser imediatamente refrigeradas para conservar melhor características como brilho, cor, aroma e sabor. As quantidades excedentes também já têm um destino certo:

— Com as frutas que sobram, faço geleia para minha família e para os amigos. Fica uma delícia — comemora.

Grande parte dos pequenos produtores rurais italianos é filiada à Confederazione Nazionale Coltivatori Diretti (Coldiretti), da qual Cavalcanti faz parte. Na verdade, ele revela que o grande incentivo dado ao pequeno agricultor na Itália foi um dos motivos que o estimularam a começar seu empreendimento:

— Costumo brincar que o agricultor aqui é “uma raça protegida”. Eles favorecem bastante, dão incentivo para a compra de máquinas, isenção de taxas e contador e, se as minhas vendas não superarem 10 mil euros/ano, também não preciso declará-las. Para ser sincero, se tivesse que dar conta de tudo isso antes mesmo de
começar, provavelmente, não teria cogitado a ideia — confessa.

Frutas de Cavalcanti ganham espaço na gastronomia local

Depois de encontrar apoio da família e do governo para começar seu projeto com a Rubus, bastou sincronizar o cultivo das frutas com o trabalho que já desempenhava, no restaurante La Frasca, em Pavia de Udine, especializado em gastronomia friulana, um de seus clientes. Por lá, ele atua há dez anos gerenciando o setor de atendimento e, recentemente, tornou-se fornecedor de frutas vermelhas para a cozinha.Com elas, o chef Arjan Kuqi prepara uma das principais sobremesas do menu: a torta folhada com creme de chantilly, framboesa e amora, acompanhada do vinho doce regional Verduzzo Friulano. Já o chef Luca Zucchiati, do mesmo estabelecimento, prefere utilizá-las em pratos salgados, como o lombo de porco com molho de frutas vermelhas.

— As frutas vermelhas podem ser combinadas tanto com pratos doces quanto salgados, incluindo antepastos, peixes e risotos. Elas têm um sabor delicado e se integram bem às receitas, com molhos, cremes ou aperitivos — aconselha.

Cavalcanti reconhece que é um desafio conciliar duas funções tão diferentes: gerente de atendimento e agricultor orgânico. Contudo, observa que são também atividades que se integram.

— O restaurante tem um ritmo acelerado, exige atenção em todos os setores e resposta rápida aos pedidos dos clientes, então é muita pressão. É na horta que recarrego as energias para recomeçar no dia seguinte. A ideia de se envolver em um trabalho manual libera a mente de outras preocupações e me ajuda a não pensar
em outras coisas, pelo menos, enquanto estou ali — analisa.

A inclusão da Rubus do guia Friuli dei Sapori, publicação que reúne os principais restaurantes e profissionais do setor alimentício da região, é celebrada com euforia
por Cavalcanti. Para o próximo ano, ele quer mais:

— Temos um potencial na propriedade de 300 quilos de produção. A ideia é ampliar um pouco a cada ano e, quem sabe, algum dia, viver exclusivamente dessa atividade. Gostaria também de expandir para o cultivo de outros produtos, talvez, fazer uma horta de aluguel. Mas aí já é outra história — prevê.