O que começou apenas como um encontro de famílias de imigrantes italianos para a construção de uma capela em São Bernardo do Campo (SP) hoje é uma das maiores festas de celebração da tradição da cultura italiana no Brasil. Com um público de quase duas mil pessoas, a Festa de São Bartolomeu chegou à 61ª edição e contou com uma inovação no modo de preparo da tradicional polenta italiana, além de diversos pratos típicos, vinhos artesanais, procissão com o andor de São Bartolomeu, missa e muita cantoria das famosas músicas do país da bota.

Como tudo começou

A festa, ou seja, o primeiro encontro entre as famílias de imigrantes, decorreu do convite do Padre Fiorente Elena, então pároco da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem, no centro de São Bernardo, às famílias italianas Sétimo Guazzelli, Saulo Becchelli, Primo Becchelli, Ernesto Becchelli e Eduardo Santucci, para uma reunião visando a construção da Capela de São Bartolomeu no terreno que lhes foi doado, localizado no ponto mais alto do Parque Estoril. De carroças, os italianos dirigiam-se o local e subiam o morro para a construção da capela, deixando as senhoras, crianças e idosos na parte baixa, no resquício da Mata Atlântica. Durante essas viagens, cada família levava um prato de comida e vinho artesanal, que eram postos em uma grande mesa para, quando os homens retornassem do trabalho, todos pudessem desfrutar das delícias da culinária italiana. Dessa forma nasceu a Festa de São Bartolomeu, a quem foi dedicada a construção da capela. A imagem do santo veio trazida pelos imigrantes italianos da região de Castiglione di Garfagnana, paese de Chiozza, na província de Luca, na Toscana.

A influência dos italianos na cidade é muito ampla. As primeiras famílias chegaram a São Bernardo em meados da segunda quinzena de outubro de 1877, o que tornou muito viável a colonização da então Vila de São Bernardo pela aplicação dos conhecimentos milenares dos imigrantes. Em seguida, a chegada de outras levas de imigrantes proporcionou grande progresso e desenvolvimento da cidade e da região até os dias de hoje. Para se ter uma ideia, nos primeiros tempos, a festa era realizada somente entre os imigrantes italianos e descendentes, e, gradativamente, foi crescendo. A relação dos convidados foi aumentando cada vez mais, a tal ponto que, neste ano no dia 26 de agosto, cerca de duas mil pessoas participaram da festa, que chegou aos seus 61 anos.

A Festa de São Bartolomeu

De modo bastante tradicional, a festa segue o seguinte formato: inicia-se com a apresentação das famílias e a entrega de pratos típicos para o almoço comunitário. Logo se segue para a procissão com o andor de São Bartolomeu, a missa, e, finalmente, é realizado o almoço, considerado um grande piquenique regado a vinho, oferecido pelos membros da União dos Vinicultores Artesanais (Uva), composta por cerca de 100 italianos e descendentes que o produzem sem conservantes. Presente também em todas as edições é a cantoria das famosas músicas italianas, principalmente nas tarantelas, que abrilhanta a Festa de São Bartolomeu após o almoço até o anoitecer.

Inovação na área

A festa, que já havia sido propulsora do sistema de tanque com 12 mangueiras e torneiras para facilitar o saboreio do vinho, apresentou neste ano outra inovação: a utilização de uma betoneira para o preparo da polenta.

— Os dirigentes da festa, Adalberto José Guazzelli e Olga Guazzelli, o primeiro neto e a segunda filha do fundador Sétimo Guazzelli, ouviram a alegação do batedor de polenta Adalberto Miranda de que precisaria modificar essa prática, pelo fato de não ser tão fácil o preparo com a colher utilizando a força dos braços. Desse modo, incrivelmente, experimentaram bater a polenta com uma betoneira, devidamente limpa e adequada, movida a força elétrica. Assim, após a polenta alcançar o ponto era despejada no caldeirão e levada para distribuição aos presentes — revelou à Comunità o presidente da Sociedade Cultural Brasilitália de São Bernardo do Campo, Luiz José Moreira Salata.

Salata lembra o sucesso da festa:

— O sucesso foi tão grande que a repórter da TV Globo Sabina Simonato, descendente de italianos, participou da realização da missa e do Evangelho, pregados em italiano, cujas músicas sacras foram abrilhantadas pelo coral Bicchieri D’Oro, do Círcolo de Toscana de Riacho Grande, e incluiu todos os momentos da festa em uma reportagem —enalteceu o diretor da associação.

Além das inovações, Luiz José também falou sobre a importância da festa anual para a comunidade italiana.

—A importância decorre no grande entrosamento entre familiares e amigos. Além do sucesso da instalação da betoneira e do tanque de vinho com várias mangueiras, sempre imperou na festa a camaradagem, o respeito, a devoção a São Bartolomeu, a familiaridade e a italianidade. A festa também é motivos para os membros da Comissão Organizadora e os colaboradores manterem-se na ativa sempre com novas ideias para o próximo ano — frisou.