Hoje, 21 de março, os voluntários da associação Libera relembram as cerca de 970 vítimas da máfia italiana. A data coincide o início da primavera e com o Dia em memória e do empenho em favor das vítimas do crime organizado

Desde 1996, a praça de uma grande cidade italiana é palco da leitura de nomes de inocentes que pagaram com a própria vida o alto preço de desafiar a máfia. Esse ano, o lugar escolhido para essa tradição é Foggia, na região da Puglia.

No exterior, a palavra máfia muitas vezes é associada à imagem estereotipada de Al Capone, o mafioso mais conhecido da história dos Estados Unidos da América, ou à gangsters munidos de chapéu e espingarda. Não é raro que a palavra “máfia” também tenha um uso distorcido. É recente a condenação por parte da União Europeia de uma rede de restaurantes espanhóis que utilizava o nome “La mafia se sienta a la mesa”.

A verdade é que a criminalidade ligada ao território e o “pizzo” ou extorsão de comerciantes locais ainda existem, mas a máfia italiana voa mais alto e o seu core business é bem mais vasto, global. Como denunciado pelo jornalista Roberto Saviano, são crimes de colarinho branco como o despejo ilegal de lixo tóxico ou agribusiness.

Libera

Libera, na Itália, é sinônimo de luta pela legalidade. A associação foi fundada pelo padre Luigi Ciotti e, em 1996, recolheu mais de um milhão de assinaturas e incentivou o governo a aprovar a reconversão e o uso para fins sociais de bens confiscados ao crime organizado.

A normativa representou um marco na história de combate à máfia e, desde então, a ação combinada entre ação popular e de governo gerou resultados entusiasmantes. Segundo dados recentes divulgados pela ANBSC, agência criada para catalogar e administrar os bens, foram sequestrados da máfia 17.333 imóveis e 2919 empresas; um patrimônio que equivale a milhões de euros.

A maior dificuldade, no entanto, ainda é agilizar o processo que prevê a devolução dos imóveis à sociedade através de associações, ONG´s, entidades ou cooperativas capazes de colocá-los a serviço da comunidade italiana.

Os bens confiscados conquistam um novo valor real e simbólico transformando-se, por exemplo, em terrenos para o cultivo de trigo ou em vinhedos. Do cio da terra, parafraseando Chico Buarque, nascem alimentos como macarrão ou vinhos produzidos eticamente e comercializados com a marca da associação Libera em alguns supermercados do país como a rede Coop.

A associação continua recebendo ameaças e não é raro que os agricultores que administram as terras confiscadas sofram atos de represália, mas mesmo assim segue firme em defesa da legalidade.

Quem mora no Brasil pode pensar que máfia é algo distante da nossa realidade, mas não é bem assim. As organizações criminosas italianas continuam condicionando muitos comerciantes, mas há quem se exponha e se rebelar à extorsão. Nós, como viajantes, podemos apoiar uma forma de turismo ético e responsável, premiando a legalidade.

Por esse motivo, informar-se antes de viajar é sempre uma boa pedida. Na Sicília, por exemplo, existe uma rede chamada Addio Pizzo (Adeus Pizzo) que identifica com adesivos bem visíveis as lojas de Palermo que declaram explicitamente não pagar a máfia em troca de proteção. (Post Italy)