O sexto dia de competição do 71º Festival de Cannes terminou na noite deste  último domingo (13) com a exibição de “Lazzaro felice” (“feliz como Lázaro”, em tradução livre), parábola sobre o poder da bondade nos tempos modernos. O filme da italiana Alice Rohrwacher bebe em referências bíblicas e um certo realismo mágico para contar a história de Lazzaro (Adriano Tardiolo), um jovem camponês de natureza pura e cordial que, como o discípulo de Jesus na Bíblia, ressuscita dos mortos para continuar seu caminho de generosidade.

O filme mereceu ovação de quase 10 minutos em sua sessão de gala, para convidados e jornalistas, mas mereceu reações mistas na projeção exclusiva para a imprensa, numa sala menor.

Lazzaro vive numa fazenda de tabaco do interior da Itália, explorada por uma marquesa, conhecida como “a rainha dos cigarros”, que impõe um sistema escravagista, baseado na ignorância e no medo, a 53 outros lavradores que trabalham e moram na propriedade. É nesse pequeno pedaço de terra isolado do mundo que Lazzaro faz amizade com Tancredi (Luca Chicovani), o arrogante filho dos patrões, que acaba orquestrando o próprio sequestro para chamar a atenção dos pais.

A improvável aliança soa como uma revelação para Lazzaro, que nunca se ofendeu com o fato de todos a seu redor tentarem tirar alguma vantagem de sua inocência e generosidade. A amizade é tão preciosa para o rapaz que, quando a polícia desmonta a operação da duquesa e ele sofre um acidente fatal, o transporta um par de décadas no futuro para reencontrar Tancredi no tempo atual, agora na cidade grande, onde as formas de exploração do semelhante se multiplicaram e se sofisticaram.

— “Lazzaro felice” é a história de uma pequena santidade, que não faz milagres ou tem superpoderes. O que é sagrado para ele é viver neste mundo sem pensar mal dos outros, simplesmente acreditando nos seres humanos — resume a jovem realizadora, conhecida por filmes como “Corpo celeste” (2011) e “As maravilhas” (2014).

 

CONHEÇA TODOS OS FILMES EM COMPETIÇÃO

“En guerre” , de Stéphane Brizé

“Asako I & II”, de Ryusuke Hamaguchi

“Ash is purest white”, de Jia Zhang-ke: Chinês Jia Zhang-ke produz seu filme mais ambicioso e lança centro de artes

“Burning”, de Lee Chang-dong

“BlacKkKlansman”, de Spike Lee

“Capharnaüm”, de Nadine Labaki

“Cold War”, de Pawel Pawlikowski: Romance ambientado na Polônia comunista desponta como candidato à Palma de Ouro

“Dogman”, de Matteo Garrone

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“Les filles du soleil” , de Eva Husson: Filme sobre mulheres que lutam contra o EI divide crítica em Cannes

“Lazzaro Felice”, de Alice Rohrwacher: Filme italiano causa sensação na sessão de gala

“Le livre d’image”, de Jean-Luc Godard: Godard participa de coletiva de imprensa via internet em Cannes

“Knife + heart”, de Yann Gonzalez

“The little one”, de Sergey Dvortsevoy

“Plaire aimer et courir vite”, de Christophe Honoré: Christophe Honoré volta a Cannes com romance melancólico entre dois homens

“Shoplifters”, de Hirokazu Kore-eda: Em ‘Shoplifters’, Kore-eda retrata família informal no Japão

“Leto”, de Kirill Serebrennikov: Cadeira vazia em coletiva marca ausência de diretor russo preso

“3 faces”, de Jafar Panahi: Ausente em Cannes, Jafar Panahi é personagem de ‘3 faces’, seu novo filme

“Under the Silver Lake”, de David Robert Mitchell

“The wild pear tree”, de Nuri Bilge Ceylan

“Yomeddine”, de A.B Shawky: Filme com atores não profissionais sobre o interno de um leprosário emociona

(O Globo)