Por André Felipe de Lima e Stefania Pelusi

A corrida eleitoral para o Parlamento Italiano está bastante movimentada sob o domínio de duas coalizões e um movimento independente: a Centro-esquerda, formada por cinco forças políticas, no caso, Partito Democratico, + Europa, Insieme, Civica Popolare e Svp-Patt; a centro-direita, cuja base está calcada nas legendas Forza Italia, Lega, Fratelli d’Italia e Noi con l’Italia-Udc, e o autônomo Movimento 5 Stelle, que tem como principal nome Luigi Di Maio, candidato a premier.

Embora com alguma projeção midiática e com percentuais baixos nas pesquisas, correm por fora na disputa pelo eleitorado na Itália e no exterior o Liberi e Uguali, cujo principal nome é o juiz Pietro Grasso; o Potere al popolo, de esquerda  e radicalmente anticapitalista;  o Popolo della Famiglia, liderado por Mario Adinolfi; a lista Verdiniani Pri-Ala; o neo-fascista Casapound e os direitistas Forza Nuova e Fiamma Tricolore. Além destes, houve a aproximação política entre Stefano Parisi, do Energie per l’Italia (centro-direita) e Giovanni Monchiero, do Civici e Innovatori (centro).

Prudência é a palavra do momento. Os analistas acreditam que o resultado das eleições do dia 4 de março possa gerar um limbo político, com nenhum partido ou aliança chegando a uma maioria razoável para governar com tranquilidade. Um cenário que não é inédito na política italiana após um pleito eleitoral.

A COALIZAÇÃO DE CENTRO-DIREITA

Se as pesquisas decidissem a eleição na Itália, a coalizão de centro-direita teria um número significativo dos assentos no Parlamento Italiano. Mas a voz da sensatez controla a euforia dos afoitos. Sob a batuta de Silvio Berlusconi, a expectativa dos direitistas é que consigam em torno de 40% dos votos. O que é significativamente expressivo. Mas eleição, como se diz no Brasil, é uma “caixinha de surpresas”. Uma reviravolta nas pesquisas nunca é ignorada, seja ela para o bem ou para o mal. Se Berlusconi ver seu sonho transformar-se em pesadelo, o elo que une as quatro listas que encabeçam a coalizão de centro-direita será inevitavelmente desfeito. Os bastidores do jogo político são a prova disso. Não há unicidade entres os líderes partidários, embora as fotos mostrem todos lado a lado, com sorrisos largos e fartos.

A Forza Italia é a principal voz da centro-direita. Não há dúvida. Os outros a respeitam, mas com ressalvas. Especula-se que o partido mantém uma disposição, digamos, sutil para apoiar o Partido Democratico, o que lidera a centro-esquerda, caso a coligação da qual faz parte saia vitoriosa das urnas. Uma aproximação como essa é impensável para os membros do Lega e do Fratelli d’Itália, que, ao lado do Forza Italia, sustentam a centro-direita italiana no momento. Mais improvável ainda uma aliança com o independente Movimento 5 Stelle (M5S), que resiste ferrenhamente integrar listas. Mas como em política inexiste o imponderável, tudo pode mudar. Uma aproximação entre o Lega e M5S não é inverossímil como muitos apregoam. Há debates públicos na Europa que colocam os dois partidos lado a lado.

Mas, como aponta o Nomos Centro Studi Parlamentari, se nenhuma pedra furar o pneu do veloz carro da centro-direita, os direitistas vão se eleger, e sem sustos.

FORZA ITALIA/Tem como líder o ex-premier Silvio Berlusconi, que vem articulando bastante nos bastidores políticos. Nem mesmo os recentes escândalos parecem ter inibido a desenvoltura de Berlusconi no campo político. Ele não é  candidato a nada. Está impedido por ter sido condenado por fraudes fiscais, mas mudaria de ideia se o Tribunal Europeu de Direitos Humanos, em Estrasburgo,  o absolver. Parece que não dará tempo. Berlusconi pretende para o cargo de primeiro-ministro o atual presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, que surge com percentual de intenção de voto entre 35% e 39%, enquanto o Partito Democratico se mantém entre 25% e 28%.

 

LEGA – SALVINI PREMIER/ Apostam no milanês Matteo Salvini para o comando do Parlamento. Em 2013, adotou uma postura polêmica ao ser contrário a adoção de casais homossexuais. Nada surpreendente para quem é francamente de direita. O que Salvini talvez não esperasse fosse uma mobilização tão intensa de Berlusconi, que jamais ocultou sua vocação centralizadora. A instabilidade, mesmo que velada, do núcleo centro-direitista reside aí, mesmo assim Salvini resiste, e sai sorridente em todas as fotos ao lado de Berlusconi e de Giorgia Meloni.

 

 

FRATELLI D’ITALIA/ A liderança está nas mãos de Giorgia Meloni, ex-militante estudantil e ex-ministra da Juventude na gestão Berlusconi. É considerada “queridinha” do ex-premier. As pesquisas mostram que a moça tem fôlego político. Seguem Giorgia outros importantes nomes da política atual na Itália, como Nello Musumeci,  Daniela Santanchè e  Fabio Rampelli, influentes cabos eleitorais.

 

 

NOI CON L’ITALIA/ Raffaele Fitto é o comandante, porém não tão influente na campanha direitista como os três nomes anteriores. Foi ministro de Berlusconi e presidente da Região da Puglia. Encarou um processo em que foi acusado de suborno em 2005 na assinatura de contratos públicos na área de saúde. Chegou a ser condenado a quatro anos de prisão e foi banido da vida pública por cinco anos. Em 2015, foi absolvido.

 

 

 

 

 

A COALIZÃO DE CENTRO-ESQUERDA

Unicidade não é propriamente a palavra de ordem da centro-esquerda italiana. A poucas semanas do pleito, as cinco listas parecem falar idiomas políticos diferentes. A ponta de lança da ala é o Partito Democratico. Justamente o PD é o pomo da discórdia. Nos últimos governos, o partido esteve presnete de forma intensa, com a maioria dos ministérios sob sua gestão. Isso, obviamente, incomodou, e os reflexos são sentidos agora, na corrida eleitoral.  Definitivamente, as manobras de Matteo Renzi, o líder do PD não agrada aos representantes do próprio PD e também das listas Civica Popolare, +Europa e Insieme. Apenas o SVP-PATT parece estar ao lado de Renzi, mas obviamente não é o suficiente para reverter o quadro desfavorável da centro-esquerda nessas eleições. Renzi aposta tudo nas urnas de março, mas os nós políticos que precisa desfazer parecem miná-lo dia a dia.

A lista + Europa, liderada pelos radicais Emma Bonino e Benedetto Della Vedova , montou a base política a partir da aliança com o Radicali Italiani, o Forza Europa e o Centro Democratico, que tem a frente Bruno Tabacci, personagem fundamental para que o nome de Emma Bonino fosse oficializado como o principal da lista +Europa. Tabacci iniciou na democracia cristã, “namorou” com a centro-direita e hoje transita mais ao lado dos centro-esquerdistas. É quase inverossímil a aproximação dele com Emma, uma notória abortista e defensora do casamento entre iguais. Tabacci, até mesmo pela sua formação religiosa, é veementemente contra as diretrizes ideológicas de Emma, que sofre críticas severas do Vaticano. O período eleitoral parece entorpecê-los. Apenas parece.

Mais complexa ainda é a lista Civica Popolare, liderada por Beatrice Lorenzin, que abriga cinco frentes partidárias. A mais efusiva é o Alternativa Popolare (AP), que sempre esteve mais à direita que propriamente do centro. A figura de destaque é Angelino Alfano, ex-ministro de Berlusconi, que parece ter cedido espaço para a o crescimento de Beatrice na legenda. É a aposta para março. Além do AP , integram o CP o Italia dei Valori, de Ignazio Messina; o Centristi per l’Europa, com Pierferdinando Casini; o Italia è Popolare, de Giuseppe De Mita, e o  Democrazia Solidale, do vice-ministro de Política Agrícolas, Andrea Oliviero. O CP tem respaldo de várias listas regionas, dentre as quais a  e várias listas regionais, como a Unione per il Trentino, de Lorenzo Dellai.

A quarta lista, o Insieme, nasceu de três forças de centro-esquerda: o Partito Socialista Italiano,  do vice-ministro Riccardo Nencini; os Verdi (Verdes), de Angelo Bonelli,e a Area Cívica, que tem a frente Giulio Santagata, o principal nome do Insieme.

Em eleição, tudo pode acontecer. A essência do bastidor político em qualquer parte do mundo será sempre um mistério até mesmo para que dela vive. O que aparenta, porém, no atual momento, é um desequilíbrio latente na centro-esquerda. As pesquisas eleitorais apontam isso. Se os percentuais e números que apresentam forem precisos, parece difícil que as listas de centro-esquerda vençam as próximas eleições. Diante de um mar revolto, e de incertezas, os líderes políticos de centro-esquerda, por mais antagônicas que sejam suas ideologias, parecem dispostos ao diálogo. Um nome comum a todos é o de Paolo Gentiloni, que pode ser mantido no poder. Seria a tacada de mestre do PD e salvação de Renzi. Tudo poderá acontecer.

PARTITO DEMOCRATICO/Liderado desde 2013 pelo ex-premier Matteo Renzi — o mais jovem primeiro-ministro na história de Itália, aos 39 anos —, o PD quer (ou pelo menos tenta) se reinventar com nomes de peso para março. Se Berlusconi promoveu uma grande articulação do lado dos direitistas, pode-se dizer que Renzi fez o mesmo com os centristas e esquerdistas. Mas o resultado parece não ter sido o mesmo alcançado pelo rival. As escolhas de Renzi vêm sendo contestadas por outros figurões do partido. A popularidade dele recuou drasticamente nas últimas semanas, sendo inferior a do atual primeiro-ministro e seu aliado no PD, Paolo Gentiloni. O que não é novidade.

A popularidade de Renzi vem despencando desde 2016, quando as brigas internas no PD se intensificaram e o partido saiu derrotado no último referendo constitucional. Antes mesmo destes dois imbróglios políticos para o PD, Renzi afirmou categoricamente, especialmente durante a campanha para o referendo, que se retiraria da política caso o partido fosse derrotado nas urnas em 2016. Renzi parece ter esquecido disso.

Hoje, o PD tem 297 deputados no Parlamento. As pesquisas apontam que esse número cairá para entre 130 e 170 lugares. Optar apenas por aliados e deixar de lados os dissidentes pode ter sido o tiro de misericórdia nas pretensões do PD. Renzi está, digamos, tecnicamente isolado.

 

+EUROPA/ O partido é seguido pelas legendas Radicali Italiani, Forza Europa e Centro Democratico. Vice-presidente do Senado italiano entre 2008 e 2013, a carismática e radical Emma Bonino é a liderança da lista. Histórica militante das causas das mulheres, ela é a favor da legalização do aborto e da descriminalização de drogas consideradas leves. A radical Emma é uma crítica feroz da gestão atual da economia italiana. Para resolver o problema do estoque de dívida pública, Emma e o +Europa têm como proposta eleitoral o congelamento das despesas públicas em termos nominais por cinco anos. As pesquisas dizem que o +Europa deverá ter cerca de 3% das cadeiras do Parlamento. A relação com o PD de Renzi não é amistosa, e Emma explora a seu favor a queda de popularidade do controverso ex-premier.

 

 

CIVICA POPOLARE (CP)/ Integram o CP as legendas Alternativa Popolare, Italia dei Valori, Centristi per l’Europa, Italia è Popolare , Democrazia Solidale, Unione Popolare Cristiana e Italia Popolare. Ministra da Saúde desde 2013 e líder do CP, Beatrice Lorenzin tem uma origem ideológica de centro-direita. Ao contrário de Emma Bonino, é ferrenha opositora de qualquer ação que vise a legalização das drogas de qualquer espécie. Ela é também contra a adoção de crianças por casais homossexuais. Apesar disso, ela, como ministra, autorizou em 2014 o cultivo da maconha para fins medicinais. Medida, contudo, restritiva ao Exército e a uma seleta lista da indústria farmacêutica. Beatrice mantém parcimônia ao comentar sobre Renzi e o atual primeiro ministro Paolo Gentiloni. Sobre o primeiro diz “manter uma campanha corajosa”, quanto ao segundo, define-o como um “excelente” premier. O mesmo cuidado ela destina à relação com a radical Emma Bonino, com quem diz manter um diálogo de “bom senso”.

 

 

INSIEME/a lista incluiu o Partito Socialista Italiano, o Verdi e o Area Cívica. A nau eleitoral está sob o comando de Giulio Santagata. Foi relativamente próximo de Renzi, mas a instabilidade interna no PD parece ter fragmentado toda a centro-esquerda. Santagata, como todos os outros líderes de listas, estão temerosos com o PD. Ele reconhece a força de Berlusconi e admite a instabilidade da centro-esquerda para enfrentar o franco crescimento da centro-direita. Seu discurso é a prova evidente de que a centro-esquerda parece atônita com o avanço das tropas eleitorais de Berlusconi. Assim ele se dirigiu aos eleitores: “Em quem você vota? Não quero mais votar em um Partito Democratico que me decepcionou e não posso arriscar entregar o país a um direitista xenófobo, a um antieuropeu ou a um populista”.

 

 

 

SUDTIROLER VOLKSPARTEI (SVP-PATT)/ Philipp Achammer é o líder dos tiroleses. Jovem, é fiel a Renzi.

 

 

INDEPENDENTES… ATÉ QUANDO?

MOVIMENTO 5 STELLE 

Até que ponto o Movimento 5 Stelle (M5S) conseguirá se manter independente e distante de alianças políticas? A corrida eleitoral até março poderá oferecer a resposta. O partido comandado por Luigi Di Maio, candidato da sigla a primeiro-ministro, vem bem nas pesquisas para a eleição legislativa. Recentemente, o popular humorista e dublê de político Beppe Grillo deixou a sigla, mas isso não conteve o ímpeto do M5S. Se sair das urnas como o mais votado, como indicam as pesquisas de intenção de voto, terá que sentar à mesa para dialogar com as coalizões de centro-direita e de centro-esquerda. Há uma aproximação ideológica mais à direita com listas que acompanham Berlusconi e propagam um discurso xenófobo e anti-imigração, sobretudo o Lega. Se Luigi Di Maio sair das urnas como primeiro-ministro, o presidente da República, Sergio Mattarella não terá vida fácil, mas, por outra via, caso Di Maio e o M5S mantenham uma postura intransigente, a vitória nas urnas poderá ser começo de uma impiedosa derrota política futura.

Di Maio não é ingênuo. Nenhum deles é, na verdade. Como o M5S é apontado por algumas pesquisas como um possível favorito, os membros do partido imediatamente alteraram o estatuto e Di Maio, nitidamente cantando a vitória, afirmou que se o partido vencer a eleição, porém sem votos suficientes para governar sozinho, o M5S estaria disposto a fazer alianças com partidos que concordassem com seu programa de governo.

LIBERI E UGUALI 

Importante lembrar que Matteo Renzi foi sempre muito criticado pela ala mais à esquerda do PD. A indisposição dos esquerdistas com Renzi chegou ao limite em 2016, quando Massimo D”Alema (que pertencera ao extinto Partido Comunista Italiano e fora primeiro-ministro entre 1998 e 2000) liderou a debandada de inúmeros esquerdistas do PD. No ano seguinte, alguns voaram de forma independente. Um deles o juiz antimáfia Piero Grasso, que deixou o PD em outubro de 2017. Atual presidente do Senado, ele é hoje o nome mais forte da sigla. Candidato ao posto de premier, Grasso tem entre 5% e 7% de intenções de voto, segundo as pesquisas mais recentes.

O Liberi e Uguali nasceu da aliança entre o Articolo Uno-Mdp (Movimento Democrático Progressista) formado por exilados do PD e tendo como principais nomes Roberto Speranza, Arturo Scotto, Enrico Rossi , Pier Luigi Bersani, Massimo D’Alema, Guglielmo Epifani, Vasco Errani e Robert Hope; o Possibile, liderado por Pippo Civati, o Sinistra Italiana, de Nicola Fratoianni e Loredana De Petris. Também fazem parte do Liberi e Uguali nomes como Antonio Bassolino (ex-PD) e a tual presidente da Câmara dos Deputados, Laura Boldrini.

Embora a resistência em apoiar Renzi seja flagrante, os membros do Liberi e Uguali não desejam a volta da centro-direita ao poder. Até o fechamento desta edição, as pesquisas apontam cerca de 5% de votos para o Liberi e Uguali.