Os especialistas italianos Giulio Sapelli, Davide Castellani, Romeo Orlandi e Stefano Da Empoli analisam as causas, implicações e consequências do conflito comercial que deixa o mundo cada vez mais apreensivo

A guerra comercial entre os Estados Unidos e a China está ficando cada vez mais acirrada. A tensão disparou depois que Washington introduziu novas taxas alfandegárias, impondo 10% a mais sobre os produtos importados da China, o que representa cerca de 200 bilhões de dólares. Pequim não ficou atrás e respondeu com novas taxas de 5 a 10% a mais sobre as mercadorias provenientes dos Estados Unidos, ultrapassando 60 bilhões de dólares. O conflito está em pleno andamento e não se sabe até quando será levado adiante. Para entender as razões do que está acontecendo e fazer uma análise das possíveis repercussões, Comunità ouviu alguns dos principais especialistas italianos: Giulio Sapelli, economista da Universidade de Milão, cujo nome tem sido muito falado nos últimos meses por conta do cargo de presidente do Conselho; Davide Castellani, professor de negócios internacionais na Henley Business School, no Reino Unido; Romeo Orlandi, vice-presidente do Observatório da Ásia e professor da Universidade de Bolonha; e Stefano Da Empoli, presidente e fundador do think tank independente I-Com.

— Os Estados Unidos estão vivendo com uma mentalidade de cartão de crédito. Seu alto consumo absorve mercadorias de todo o mundo e cria ativos comerciais para muitos países. Os ativos da China são enormes e totalizaram 376 bilhões de dólares em 2017, valores que, posteriormente, são transferidos para Washington a fim de comprar títulos do governo. Em suma, com as mercadorias exportadas, a China adquire progressivamente pedaços dos EUA — observa Orlandi.

Pode-se perguntar, então, o que aconteceria se a China parasse de comprar títulos do governo norte-americano ou exigisse o valor dos mesmos?

— Este é o ponto que claramente preocupa Trump, que responde com um arsenal antigo, ou seja, com taxas que, todavia, poderiam enfraquecer a China ainda mais do que a retaliação de Pequim poderia atingir Washington. De todo modo será difícil evitar repercussões, já que os produtos chineses, tanto os finais quanto suas peças, são imbatíveis na relação qualidade/preço e, se ficarem mais caros, poderão provocar um aumento dos preços nos próprios Estados Unidos — frisa o representante do Observatório da Ásia.

Guerra também envolve proteção da tecnologia americana

Orlandi acrescenta que outro objetivo é impedir que a China possua tecnologia americana com o intuito de melhorar sua estrutura industrial.

— Hoje, a China não é mais a fábrica mundial de produtos de baixo valor: compete também em setores sofisticados. Por fim, devemos considerar o terreno político, no qual a competição entre os dois países é evidente, como assim demonstram as reivindicações de Pequim no Mar da China Meridional, colocando em discussão a Pax Americana que surgiu no último período pós-guerra.

Para Castellani “o desejo dos EUA de reduzir o seu próprio déficit comercial é desprovido de qualquer base econômica, já que seu déficit é fruto do consumo americano ser maior do que a produção do próprio país, e, enquanto o resto do mundo estiver disposto a financiar este déficit, não é gerada tensão significativa na balança de pagamentos”.

Nem mesmo as outras razões apresentadas por Washington parecem convencer o professor da Henley Business School.

— Sancionar o comportamento da China, que teria violado os direitos de propriedade intelectual, apropriando-se de tecnologia estrangeira através de processos de licença impostos às empresas estrangeiras, e combater o seu capitalismo de Estado, responsável pela concorrência desleal contra o resto do mundo, já que na verdade subsidia suas próprias empresas para torná-las mais competitivas, são acusações que têm algum fundamento por serem contrários aos princípios da Organização Mundial de Comércio (OMC) — observa.

Atos de Trump colocam em xeque OMC e outros organismos internacionais

Castellani admite que “as sanções unilaterais de Trump representam uma grosseira violação das normas das instituições internacionais, como a OMC, que os EUA comprometeram-se a respeitar”.

— É exatamente este aspecto da questão o mais preocupante, pois colocou em séria discussão a credibilidade destas instituições e de todo o sistema de acordos comerciais multilaterais, passando assim a ideia de que todos podem impor taxas e violar as regras da OMC. O sistema entra em colapso e o risco de um protecionismo desenfreado torna-se concreto — conclui.

Castellani considera “irrealista” o objetivo de devolver a produção aos EUA e “arriscada” qualquer estratégia que vise alcançar um dividendo político em curto prazo, passando a ideia de que Trump teria alcançado o que queria.

— Se o eleitorado perceber que as taxas são uma manobra masoquista, que eleva os preços internos e reduz a possibilidade de escolha do consumidor, a reação pode não ser favorável a Trump — enfatiza o professor universitário.

Da Empoli enfatiza que o déficit comercial dos americanos com a China vem de longe, visto que, no início da década de 1990, os EUA importavam mercadorias da China por um valor de quatro a cinco vezes maior em comparação com o que exportavam.

— Desde então, a relação permaneceu praticamente a mesma; entretanto, o problema é que o comércio aumentou mais de 10 vezes, logo, o déficit de 20 a 30 bilhões de dólares passou para 376 bilhões em 2017, e o saldo do intercâmbio comercial com a China, hoje em dia, corresponde a cerca de 40% do déficit comercial dos EUA — enfatiza o presidente da I-Com.

O surgimento de Trump marca um divisor de águas.

— Ele deve uma parte importante do seu apoio eleitoral à tese de que o declínio dos EUA poderia ser atribuído à concorrência desleal do resto do mundo e possui uma abordagem transnacional das relações com outras nações. Portanto, me parecia óbvio que, com sua chegada à Casa Branca, o grande alvo se tornaria o reequilíbrio das relações comerciais com a China.

Especialistas divergem sobre as consequências do conflito na Itália

O professor Giulio Sapelli, por sua vez, está convencido de que as razões para o conflito não são apenas econômicas, mas, acima de tudo, geopolíticas e fazem parte do esforço que os EUA estão fazendo — embora divididos em seu establishment — para combater a agressividade chinesa, primeiramente nos Mares do Sul da China, seguido pela África e gradualmente pela Europa. A guerra existe, nota Sapelli, “mas há um desequilíbrio muito forte do ponto de vista tecnológico para que a China possa efetivamente preocupar os Estados Unidos”. Além disso, os americanos temem o famoso plano de Xi Jinping, o Made in China 2025, que tem como base principalmente a implementação e a rotatividade da tecnologia americana dentro da China, algo que os EUA não querem permitir de jeito nenhum.

Segundo Sapelli, tal batalha comercial não terá um impacto particularmente significativo sobre a Itália, que não exporta muito para a China, mas exporta sobretudo
para a Alemanha e os EUA.

— A consequência mais perigosa deriva da insana política alfandegária da Europa no que diz respeito ao aço chinês, material de baixo custo e de baixíssima qualidade, o qual corre o risco de não passar nas fronteiras dos EUA e acabar conosco, já que o único país para o qual a Europa escancarou suas fronteiras foi exatamente a China. Posteriormente, poderiam sentir na pele alguns de nossos setores industriais, como o de luxo ou o setor agroalimentar, embora tenhamos sido muito mais prejudicados pelas sanções contra a Rússia do que por aquelas aplicadas à China no setor agroalimentar.

Da Empoli, no entanto, prevê mais repercussões negativas.

— Uma guerra comercial em grande escala representa um fator negativo para a economia global e, portanto, também para a União Europeia, que claramente tira vantagem de um sistema comercial aberto com o resto do mundo. Em minha opinião, não deve ser ignorado o fato de que as cadeias de valor estejam muito mais integradas em nível global do que há um tempo atrás; um dos principais pontos estratégicos dos EUA. Trata- se de um fenômeno que atende pelo nome de fragmentação.

Stefano Da Empoli explica que esse processo permite que a mesma mercadoria, em suas tantas partes e fases de produção, atravessa as fronteiras entre diferentes países, às vezes na direção oposta, em momentos diferentes do ciclo de produção. Logo, quaisquer impostos aplicados a uma nação acabam prejudicando outras, incluindo aquela que os aplicou.

— Um bom exemplo disso é o do aço importado pela Europa através da indústria automobilística americana.

A posição de Orlandi é mais reconfortante. Para ele, alguns setores podem ser afetados, mas a grande maioria dos fluxos não será tocada.

— O comércio entre UE e EUA representa cerca de 7% do comércio mundial, e com a China 5%. Além do mais, as taxas afetam apenas uma pequena fração desse percentual — tranquiliza Orlandi.

O professor de negócios internacionais Castellani, por sua vez, vê tanto fatores de risco como vantagens.

— Todos os países não diretamente afetados pelas tarifas têm algo a ganhar diretamente, porém também têm a perder indiretamente. A redução das importações entre EUA e China levará, em parte, a uma substituição desses produtos por produtos locais, mas em boa parte levará ao aumento das importações de outros países. É possível que algumas empresas italianas e europeias possam se beneficiar dessas lacunas de mercado, mas não vejo grande potencial para a Itália, considerando que as empresas italianas estão lutando para exportar para a China. Poderia haver oportunidades nos EUA na medida em que as importações chinesas fossem substituídas por importações italianas, mas não me parece que este efeito de substituição possa ser muito significativo — analisa.

Há, porém, outro aspecto a se considerar, alerta Castellani. A Europa e a Itália poderiam enfrentar a maior competição chinesa de produtos “sequestrados” pelos EUA. Além disso, a produção ligada a empresas europeias, realizada em cadeias de fornecimento com sedes na China, poderia ser prejudicada. Por fim, há as consequências globais:

— O crescimento da economia global poderia sofrer uma desaceleração significativa no crescimento econômico como resultado tanto da incerteza, que está reduzindo os investimentos, quanto da possível desaceleração na economia chinesa e americana, de acordo com dados que emergiram do último relatório econômico da OCDE — alerta Castellani.

Exportação de soja brasileira para a China pode aumentar

O professor Castellani não identifica nenhum impacto específico diretamente ligado ao eixo Itália-Brasil.

— O Brasil poderia se beneficiar, já que as taxas chinesas sobre a soja americana estão aumentando a demanda chinesa por soja brasileira. Na medida em que isto se reflita em um maior crescimento econômico brasileiro, até as exportações italianas para o Brasil poderiam se beneficiar.

O economista, no entanto, adverte:

— Devemos considerar também que, em médio prazo, o aumento do preço da soja, liderado pelas taxas chinesas, pode não ser totalmente positivo para a economia
brasileira. De um lado, em médio prazo, poderia levar a um desflorestamento brasileiro a fim de deixar espaço para a produção de soja. De outro lado, em curto prazo, o aumento do preço da soja causaria custos mais elevados para as indústrias que a utilizam, como a indústria de alimentos, prejudicando a exportação de produtos, como os produtos avícolas, que representam uma parcela importante da economia brasileira.

Segundo Sapelli, “não haverá repercussões significativas para a América do Sul, com exceção da agropecuária, que, sem dúvida, sofrerá um golpe, mas que já foi em grande parte reduzido pelas políticas ordoliberais baseadas na taxação exagerada”. Orlandi também segue nessa mesma linha de raciocínio e nota que o comércio internacional segue canais já bem estabelecidos e a imposição de medidas protetoras desempenha um papel modesto e propagandístico.

— As relações comerciais entre a Itália e o Brasil estão consolidadas e provavelmente sofrerão apenas variações conjunturais ligadas ao surgimento nos dois países de novos setores de alto valor agregado, ou a um fluxo de investimentos sem precedentes e substancial — destaca o especialista.

Da Empoli salienta que o Brasil, graças a um sistema de manufatura mais desenvolvido do que em outros lugares, representa um mercado de grande potencial para a Itália, mesmo que, por enquanto, seja parcial.

— É claro que um possível acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul poderia causar um impacto extremamente significativo no crescimento do comércio e, mais amplamente, na qualidade e na quantidade das relações econômicas, mesmo que me pareça que, depois de ter chegado a um acordo em muitos dos pontos em questão, o processo risque fracassar na reta final, bem no início de um novo ciclo eleitoral no Brasil e de um que no ano que vem continuará na Europa — finaliza.

Romeo Orlandi, vice-presidente do Observatório da Ásia, acredita que o cenário mais provável é que a Casa Branca obtenha alguns resultados, ou seja, um nivelamento dos vários déficits comerciais, o que já será um grande sucesso.

— A empregabilidade americana já atinge níveis excelentes e será difícil melhorar ainda mais a retransferência de atividades produtivas nos EUA. Até mesmo a Harley Davidson, por temer retaliações de outros governos para os quais exporta suas motocicletas, decidiu transferir suas fábricas para fora dos EUA. Com a globalização, o mundo está tão conectado que é difícil proteger os próprios interesses em detrimento dos outros. Poderia acontecer algo ainda mais alarmante se o vento nacionalista prevalecesse em médio prazo e tentassem resolver as contradições colocando-as nas contas de outros países — adverte o especialista.

Alguns observadores argumentam que a guerra comercial, na verdade, pode não parar na China. Uma visão que Da Empoli também
tende a apoiar:

— Trump demonstrou estar muito atento à redução do déficit comercial com a Europa, que continua sendo o segundo maior depois da China e representa o dobro do déficit com o México e o Japão, dois países que foram alvo do presidente americano — afirma.

Segundo Sapelli, “não se pode medir até onde irá o conflito. Dia sim, dia não, no Financial Times e no Washington Post, eles dizem que talvez seja tudo um jogo entre as partes e que o envolvidos estariam negociando a favor da paz.

— Sou pouco otimista, até porque acho que o reequilíbrio que Trump tenta obter em relação à China é necessário. Ter colocado a China na OMC foi um erro estratégico fundamental, uma meta levada adiante pelas finanças e que acabou criando uma assimetria assustadora, que mudou os termos de troca em nível internacional. Para a nossa sorte, os chineses não têm indústrias tecnologicamente avançadas, mas criaram problemas de desequilíbrio comercial relevantes. Muitas empresas já estão deixando o país, mudando-se para países mais civilizados, como Vietnã, Mianmar e Filipinas, onde há as mesmas vantagens, mas não os perigos da corrupção ou até mesmo do desaparecimento de seus executivos, como aconteceu com alguns diretores australianos que confiavam demais na
China. A China é um perigo para a humanidade e não apenas para o Ocidente. Naturalmente me refiro ao seu regime e não ao seu povo — posiciona-se Sapelli.