A arte e a emocionante história da menina com paralisia cerebral que contrariou diagnósticos médicos e se transformou em uma pintora-mirim com milhares de seguidores na internet

Os tons cromáticos deram um tom à voz de Clara Woods. A menina brasileira expõe seus quadros na Itália. A descoberta da pintura rompeu o seu silêncio de uma vida. A menina de 12 anos não para quieta, como uma pré-adolescente normal. Sentada à mesa, preenche a folha em branco, sem trégua e concentrada. Com a mão esquerda, ela desenha. Já a da direita apoia sobre aquela do pai. O cérebro de Clara corre em alta velocidade. A figura logo ganha forma. E ela já passa à outra folha, varrendo para a memória a pintura anterior. Sua mente viaja rápido apesar da paralisia cerebral. Um ictus atingiu o lado esquerdo da sua massa cinzenta em formação, ainda dentro do útero. O lado direito do corpo quase não responde aos impulsos nervosos, como consequência.

— Ela não lê e não fala. Mas desenvolveu outros sentidos para compensar. Tem uma sensibilidade muito alta, percebe tudo, e sabe o que quer e se faz entender — conta a mãe Betina Genovesi à Comunità, no espaço gastronômico cultural Tuttobene, transformado em galeria de arte, na cidadezinha de Campi Bisenzio, nos arredores de Florença.

A tenacidade de Clara, autora dos 15 quadros e curadora da própria exposição — alguns realizados em poucas horas, outros em um dia ou ao longo de semanas — chama atenção. As fotografias e os quadros da artista-mirim estão espalhados por todos os cantos. Paisagens, retratos e figuras abstratas compõem o mundo de Clara. Ela se inspira em sonhos, pesadelos e cenas vistas ou vividas no cotidiano, como encontros e observações. Os cartazes com as imagens de Clara anunciam a mostra e revelam os princípios da sua educação, através de mensagens como os versos de uma canção e citações de personalidades, como Get up, stand up, stand up for your rights, get up, stand up, don’t give up the fight, de Bob Marley; It always seems impossible until it’s done, de Nelson Mandela; e Lightning makes no sound until stikes, de Martin Luther King.

Exposição própria e ateliê em casa

As frases resumem o percurso de vida de Clara Woods até a mostra, um ponto de virada na sua existência e o amadurecimento. O restaurante “ganhou” uma decoração especial.

— Ela que quis expor os seus quadros. Disse para a professora de arte que queria realizar a sua própria exposição individual — conta o pai Carlo Woods à Comunità.

Um dia, ao entrar no local, Clara perguntou ao dono se podia realizar uma exposição de arte ali dentro. O italiano Claudio Pecchioli, amante da arte contemporânea, gostou da ideia.

— Somos apenas o vaso de uma semente importante. Depois, se nascer algo, seremos felizes. Ela nos presenteou com sorrisos de alguém satisfeita por pertencer a algo maior e que vai além do seu mundo da escola. Vi pessoas que viajaram duas, três horas para visitar a mostra. E notaram que suas obras transmitem algo profundo. Ela me retratou com as asas de um anjo — afirma o proprietário, que comprou a tela.

A professora do curso individual de pintura de Clara Woods, a italiana Astrid Hohenegger, do Ateliê Paidarte, ressalta o talento da jovem:

— Nisso tudo é que está o valor de Clara. Ele não está na busca de um estilo ou de uma técnica pictórica. Ressalto que ela tem apenas 12 anos, além de uma grave desabilidade — afirma.

Diagnosticada como vegetal ao nascer, surpreendeu ao conseguir andar aos três anos

“Um vegetal”, sentenciaram os médicos quando ela nasceu.

— Ela não se comunicaria nem poderia imitar gestos — revela o pai, com uma voz baixa e tranquila.

Uma sentença difícil para quem já tinha, na época, outra filha adolescente, do primeiro casamento, com atrofia muscular.

— Não foi fácil, mas eu sabia que não podia ficar sentado numa cadeira de balanço, sem fazer nada. Os desafios são crescentes. Entendo e aceito que temos uma partida aberta para jogar. Deram menos de seis anos de vida para a minha segunda filha. Hoje, ela tem 25 anos, trabalha e tem um namorado. Cada ano é uma conquista. Então, não me abalou o diagnóstico de Clara. Eu já vivia um dia de cada vez e saí em vantagem, comparando com a Betina, já que eu vinha de uma experiência precedente — confessa.

A mãe dá detalhes sobre a dificuldade motora, na fala e na leitura da filha.

— Na verdade, ela foi atingida (nrd, pelo ictus) no dois hemisférios do cérebro, mas o lado esquerdo, que comanda o direito (ndr, lado direito do corpo), recebeu a sequela maior. A parte direita do corpo não funciona ou funciona mal — diz a mãe Betina Genovesi.

Betina explica que o pai é como uma pilastra, que nunca disse não e sempre achou uma solução para tudo.

— Foi ele quem abriu o mundo da Clara e me deu a chave para decifrá-lo. Ele a ensinou a comer sozinha. Agora ela está aprendendo a se vestir sem ajuda. Lutamos para chegar até aqui. Não vamos olhar para o fato de que ela não fala, mas para tudo aquilo que ela já fez — comenta a mamma.

Amor, confiança, equilíbrio e paciência são as senhas para o futuro. Clara Woods sequer caminharia, segundo os médicos.

— Um dia, nos ligaram da creche dizendo que ela tinha andado. Ela passou a caminhar da noite para o dia. Estava com três anos. Ao entrar no carro, apontou o céu com um dedo, o que, para nós, significa Deus. A gente não sabe o que aconteceu naquele dia. Sei que de noite ela não andava e, na manhã seguinte, começou a andar. Então, a gente espera (ndr, pela sua evolução) — afirma a mãe.

O pai a leva para andar de skate, pedalar na bicicleta e até lutar boxe, como mostram os vídeos publicados pela família nas redes sociais.

— Uma vez, numa praia em Portugal, sozinha, ela convenceu o dono de um barco a deixá-la subir. As outras crianças na praia não notaram a embarcação ou não tiveram coragem de pedir para entrar ou os pais não deixaram. Não sei, mas ela foi embora — sorri Betina.

A pintura como forma de se expressar consigo mesma

A família se deu conta do grau de desabilidade de Clara quando ela foi para a escola, no ano passado.

— Tínhamos esperança de que as coisas melhorassem, mas tudo ficou mais difícil na sua comunicação com o mundo, com as outras crianças. Como caráter, Clara é uma dessas pessoas que não têm problema, ela está sempre feliz. A gente reclama de tantas coisas e ela nunca vê a dificuldade que tem, levanta e sempre vai fazer as suas coisas. Clara nos ensina, todos os dias, que, apesar dos problemas, temos que enfrentar a vida com um sorriso. Quando dizemos “vamos”, ela é primeira a correr para a porta — conta a mãe, para quem a força da filha está em transformar o não em sim.

O pai acrescenta:

— Ela é muito solar. Ela quer viver. Achamos que a nossa filha seja também hiperativa. Tem um problema com a concentração. A única coisa que ela faz com atenção é a pintura. Porque, na escola, depois de dez minutos…

Clara Woods, que cursa o primeiro ano do ensino médio na escola pública de Campi Bisanzio, sorri e concorda que a sua classe é um “pouco” bagunceira. Uma professora de apoio a acompanha nas lições. Ela também está aprendendo a língua dos sinais. Os amigos da escola vieram visitar a mostra e a esperança é que estes quadros possam estreitar laços de amizades com seus colegas de classe.

— Os companheiros de classe são bons com elas. Mas sabemos que nessa idade é difícil para essas crianças compreenderem bem a questão. Gostaríamos que existissem mais crianças especiais com essas capacidades. O grande problema de Clara é querer se socializar — diz a mãe.

Ela fica magoada quando ouve a turma planejar programas e não convidá-la para nada, o que lhe faz mal, conta a mãe, lembrando que a menina aprendeu a desenvolver muito bem outros sentidos e que sabe muito mais do que os pais sobre o que ocorre ao redor.

— Não podemos esconder nada de Clara. Sabemos que ela não vai ter as mesmas oportunidades que os outros, mas temos que prepará-la bem e ajudar a criar outras possibilidades. Quem sabe, no mundo digital, como influencer, conta Betina Genovesi, que abriu para a filha, em maio do ano passado, o universo das redes sociais com o site www.clarawoods.art.  No perfil no Instagram woods_clara_, ela já tem mais de 12 mil seguidores.

Filha de mãe ítalo-brasileira e pai canadense

Os olhos verdes, os cabelos louros e a pele bem branca dão a esta brasileirinha um ar de estrangeira. Os traços europeus são a herança genética da união de três mundos: o do Brasil e da Itália, por parte de mãe, neta de imigrantes, e o do Canadá, por parte do pai, por sua vez, filho de uma holandesa com um canadense.

— Por enquanto, ela tem duas nacionalidades, a brasileira e a italiana. Vim para a Itália estudar e conheci aqui o meu marido Carlo, que é operador financeiro, e nos casamos 14 anos atrás. Num certo sentido, refiz o caminho inverso e reencontrei minhas raízes  — observa Betina Genovesi, agente comercial nascida e criada em São Paulo.

Clara nasceu em Florença, mas já visitou o Brasil, além de Estados Unidos, Holanda, Portugal e Áustria. Betina e Carlo também são pais de um menino. Davi tem de seis anos e é o intérprete da irmã no período de adaptação da nova baby-sitter.

— Eles têm uma relação normal. Mas fazemos alguns programas somente com o Davi porque ele também merece atenção. Ele é um pouco ciumento dela porque dedicamos muito mais tempo à irmã — conta Betina, que conta ainda com ajuda dos pais.

Ela entende, perfeitamente, o português, o inglês e o italiano, os idiomas da mãe e do pai, respectivamente.

— Ela aprendeu mais ou menos sozinha ouvindo todos, nesta confusão de idiomas diferentes. A questão médica de Clara está na saída da informação — constata a mãe.

Frida Kahlo, Van Gogh e Astrid Hohenegger como mestres

Aos 12 anos, sem falar, ler e escrever ainda, a menina optou por uma linguagem universal. As cores preenchem o silêncio de Clara Woods. A violeta é a sua preferida. A pintura é um momento somente dela, no qual não depende dos outros. Ela fica tranquila e relaxada, contam os pais.

— Ela fazia uns desenhos quando era mais nova. Eram todos pretos, confusos e que rasgava e jogava fora. Foi um pouco para o esporte, mas voltou para a pintura em 2015. E começamos a nos surpreender com o que ela trazia para casa. Com a ajuda da professora, Clara começou a tirar para fora todos os seus sentimentos. Antes, ela desenhava e depois cobria tudo de preto e não deixava ninguém ver — lembra a mãe.

Os pais de Clara fornecem à professora de arte informações sobre os pontos altos e baixos dos dias entre as lições. Assim, durante a aula de pintura, alguns temas podem ser trabalhados e melhor elaborados.

— O meu trabalho com ela consiste em ajudá-la e guiá-la rumo à sua autoexpressão através da pintura, de seus sentimentos, emoções, estado de espírito. E é um trabalho não sempre fácil — conta a professora de pintura Astrid Hohenegger.

Os pincéis, as tintas e as telas tornaram-se instrumentos de divulgação de seus pensamentos, em princípio, para ela própria — um monólogo monocromático que se transforma em diálogo colorido.

— O ato de pintar representa, para Clara, o poder de entrar em contato e comunicar consigo mesma aquilo que não exprime com a palavra falada. Assim, a pintura torna-se um canal expressivo e extraverbal de grande ajuda — explica Astrid.

A mãe conta que a família foi a uma mostra de Vincent van Gogh, onde a filha usou o fone de ouvido para escutar as explicações. Quando chegou em casa, queria pintar como ele, usando uma grande quantidade de tinta que ficava fresca.

— Ela lambuzava as mãos. O resultado foi aquele quadro ali, verde e azul, Vincent. Foi o que mais fez sucesso aqui.

Mas a revelação ao mundo das artes foi um livro infantil sobre a vida da artista mexicana Frida Kahlo (1907-1954).

— Ela se apaixonou pela história da Frida e se identificou muito. Abraçava e beijava as páginas porque a Frida, devido a um acidente automobilístico, também sofreu uma desabilidade, e Clara “dizia” que as suas histórias de vida eram iguais. Ela poderia ter pego todas as fotos da artista doente, no hospital, depois do incidente. Mas a imagem que ela escolheu quando pintou foi a da Frida em Nova York, na sua primeira mostra. Agora ela quer porque quer ir visitar a cidade e expor lá — narra Betina.

O quadro de Frida pintado pela artista Clara Woods é o único que não está à venda, junto com os autorretratos da família. Dos 15 expostos, quase todos já foram comercializados.

— A gente não imaginava todo este movimento — confessa Betina Genovesi, que virou a “galerista” da filha.

A professora Astrid Hohenegger lança a pincelada final:

— Do fundo do meu coração, espero que Clara possa encontrar e permanecer o máximo possível em contato com a sua verdade, “a sua pintura”, o prazer de pintar e é, deste ponto de vista, que suas quadros devem ser “lidos”.

Hoje é um dia comum na vida de Clara Woods. Ela vai para a escola pela manhã e volta para casa, onde tem um pequeno ateliê para desenhar e pintar o seu destino. Ali, a menina alimenta o fluxo criativo como ferramenta para romper esquemas, derrubar diagnósticos e dar voz ao silêncio. A pintura de Clara Woods é um magma que aflora das profundezas da alma.