A herança histórica e a posição geográfica fazem da Turquia o laboratório mais dinâmico e interessante em que se experimentam as relações entre Ocidente e Oriente

Enquanto na Europa se combatia a Primeira Guerra Mundial (1915-1918), os turcos exterminavam um milhão e meio de armênios. Quando o Papa Francisco lembrou o genocídio, o presidente da Turquia, Erdogan, rudemente rebateu: “Quando os políticos e os religiosos querem fazer o trabalho dos historiadores não dizem verdades, mas sim bobagens”. No dia seguinte, os parlamentares europeus pediram oficialmente que a Turquia reconhecesse o genocídio. Erdogan respondeu: “Qualquer decisão tomada pelo Parlamento Europeu, para mim, entra por uma orelha e sai pela outra”.

Para decifrar um comportamento tão desdenhoso é preciso repercorrer a história da Turquia e ligar o porquê da exuberância do poder expresso por Erdogan à gloriososa história do Império Otomano. Na mesma época em que Dante Alighieri compunha A Divina Comédia, Osman I fundava a dinastia otomana, que dominaria por 623 anos um enorme império. O mito da fundação diz que o ele teve um sonho premonitório: uma grande árvore com raízes que se expandiam por três continentes e que cobria o céu com seus ramos. Das raízes nasciam os rios Tigre, Eufrates, Nilo e Danúbio. Os ramos se expandiam sobre as cadeias montanhosas do Cáucaso, Tauro, Atlante e Balcãs.

Osman I tornou o sonho realidade, levando o sultanato até às margens do Império Bizantino. Os seus sucessores fizeram o resto, conquistando, entre o século XIV e XVII, Nicomédia, Adrianópolis, Sofia, Salônica, Kosovo, Bulgária e Hungria; Constantinopla, Grécia, Sérvia, Otranto e Albânia; Belgrado, Hungria, Bagdá, Túnis, Argélia, Iêmen e Trípoli; e parte da Polônia. Tão irrefreável foi a expansão do império otomano, multiétnico, multicultural e multilinguístico quanto irrefreável foi o seu declínio. A partir das derrotas de Viena (1683) e Zenta (1697), o império perdeu pouco a pouco seus territórios, até que, em novembro de 1922, o parlamento aboliu definitivamente o sultanato. No ano seguinte, foi proclamada oficialmente a república, e Mustafá Kemal, conhecido como Atatürk, o “pai dos turcos”, tornou-se o primeiro presidente.

Hoje, junto com Israel e Irã, é um dos Estados não árabes do Oriente. Dos seus habitantes, 76% pertencem à etnia turca e 16% à etnia curda; 71% vivem nas cidades e 24% trabalham com agricultura; 96% são alfabetizados. É o sexto país no mundo em número de turistas estrangeiros, depois de França, Estados Unidos, Espanha, China e Itália. Seu exército possui um milhão de soldados e dispõe de 40 bombas atômicas. Para compreender a Turquia atual, é preciso ter em mente o que ela foi durante séculos. A sua herança histórica e a sua posição geográfica fazem dela o laboratório mais dinâmico e interessante em que se experimentam as relações entre tradição e modernidade, entre Ocidente e Oriente. A literatura turca foi uma ponte entre a cultura árabe e a persa. Os poemas persas clássicos foram reescritos em turco otomano, assim como em Roma as obras gregas foram retomadas em latim.

Poucos anos depois de Francesco Petrarca, na Turquia, viveu o grande poeta Mesihi, morto em 1512, autor do célebre Cancioneiro. E como a Itália teve Marco Polo que foi à China e escreveu Il Milione, a literatura otomana teve Evliviya Çelebi (1690), autor do famoso Livro de Viagens. Os intelectuais turcos viveram sempre nas cortes otomanas e nas confrarias místicas.

Talvez o melhor modo de entender as raízes profundas da cultura turca é ler comparativamente as obras de dois grandes escritores, como Nazim Hikmet, morto em 1963, intermediário entre a Turquia e a Rússia; e Orhan Pamuk, premiado com o Nobel em 2006, intermediário entre a Turquia e os EUA. Hikmet, mestiço, errante, comunista, preso várias vezes, condenado a 18 anos de prisão por subversão, torturado e anistiado depois de uma longa greve de fome e a intervenção de Neruda, Sartre e Picasso, sobrevivente de dois atentados, deu, com Poesias de Amor e com outras obras-primas, uma voz ao amor que se revolta contra a sordidez de um poder obscurantista e intolerante. Em Neve, Pamuk explora o conflito entre islamismo e ocidentalismo, assim como desdobra a Turquia oriental. Em Istambul, descreve a profunda melancolia de seus compatriotas afetados pelo huzün, uma doença desesperada da alma, entre o spleen parisiense, o blues americano e a saudade brasileira, causada pelo confronto devastante entre os antigos esplendores otomanos e a degradação atual.

Nessa mesma Turquia, Erdogan, em 2013, reprimiu com sangue as manifestações libertárias da praça Taksim e, em 2015, interrompeu unilateralmente a trégua com os curdos bombardeando as bases do PKK. E é esta a Turquia a quem a União Europeia pagou, infelizmente, e muito bem, para a administração das massas que emigraram da Síria, tendo que escutar de Erdogan: “A União Europeia que olhe para os seus problemas antes de dizer à Turquia o que fazer com os imigrantes. No momento em que a Turquia abriga três milhões de imigrantes, os que não encontram lugar para uns poucos refugiados e que no meio da Europa mantêm estes pobres inocentes em condições vergonhosas, deveriam primeiro olhar para si mesmos”. E como dizer que ele está errado?