Associação reúne pesquisadores italianos atuantes no Rio e quer estimular a troca de ideias e incentivar o desenvolvimento de atividades estratégicas com empresas

Cientistas e pesquisadores italianos atuantes no Brasil se reuniram em um encontro inédito no Rio, em meados de novembro. O objetivo foi o de favorecer o conhecimento recíproco das linhas de pesquisa e inovação de vários pesquisadores que atuam no estado fluminense, além de incentivar a troca de ideias para o desenvolvimento de atividades estratégicas e de colaboração entre as empresas italianas associadas à Câmara Ítalo-brasileira de Indústria e Comércio do Rio — apoiadora do evento — e os cientistas.

O primeiro Workshop Científico-Tecnológico de Pesquisadores Italianos do estado do Rio de Janeiro foi idealizado pela recém-criada Associazione Ricercatori Italiani in Brasile (ARIB), com o apoio do Consulado italiano do Rio. O encontro aconteceu em um auditório da PUC –RJ, onde pesquisadores apresentaram seus projetos e linhas de pesquisa, em diversas áreas, como epidemniologia (Ivano de Filippis, da Fiocruz), nanomateriais (Tommaso Del Rosso, da PUC-Rio e Roberto Jakomin, da UFRJ); bioquímica (Salvatore Giovanni De Simone, da Fiocruz); veterinária (Andrea Lafisica, da UENF); astronomia (Daniela Lazzaro, do MCTIC/Observatório Nacional); astrofísica (Daniele Fulvio, da PUC-Rio); química (Giordano Poneti, da UFRJ, e Omar Pandoli, da PUC-Rio); geometria (Luca Scala, da UFRJ).

O astrofísico siciliano Daniele Fulvio tenta realizar experimentos inovadores no Brasil e desenvolver novas disciplinas, como a astrobiologia e a astrofísica.

A Associazione Ricercatori Italiani in Brasile (ARIB) nasceu de uma ideia do responsável científico da Embaixada Italiana em Brasília, Roberto Bruno. Uma de suas metas é mapear os pesquisadores de origem italiana presentes no território brasileiro — embora a tarefa seja difícil em um país com mais de 30 milhões de descendentes, admite o engenheiro Bruno.

— Não sabemos quantos pesquisadores italianos existem no Brasil. E não é que eu não faça ideia, não sabem nem mesmo as universidades brasileiras. Quando eu liguei para três, quatro universidades brasileiras pedindo a quantidade de pesquisadores italianos, a resposta que recebi foi “e quem sabe?”. Muitíssimos têm sobrenome italiano; os italianos têm passaporte brasileiro e os brasileiros têm passaporte italiano. Esse é um dos clássicos exemplos pelos quais podemos dizer que a relação Itália-Brasil é absolutamente fora do comum — afirmou à Comunità durante o encontro na PUC.


Reconhecimento de títulos entre os países ainda é uma questão complicada

Ainda existem muitos problemas para reconhecer os títulos entre Brasil e Itália, pois o percurso do estudo e a duração do mesmo são diferentes, ressalta Roberto Bruno.

— Capes e MEC começaram a trabalhar sobre o reconhecimento dos títulos, mas do ponto de vista brasileiro, ou seja, para valorizar o exame e as atividades dos brasileiros na Europa no âmbito do programa Ciência sem Fronteiras. Mas não se ocupam do oposto. Todos os meus doutorandos, por exemplo, têm duplo título em dois países europeus. Esse é um caminho que certamente ajuda a resolver o problema da equivalência, pois o estudante adquire os dois títulos, e o assunto fica resolvido.

Quanto à graduação, há mais problemas para o reconhecimento.

— No Brasil, para se inscrever em um conselho profissional, é necessária a graduação. Já na Itália, temos dois níveis: inscrição com a laurea trienal e um segundo nível de inscrição, pleno, com a laurea magistral. Um brasileiro, com a laurea magistral italiana, pode trabalhar em toda a Europa. Já um mestrado brasileiro não lhe permite isso. Portanto, acho que a única possibilidade é que a laurea magistral italiana e o mestrado brasileiro sejam considerados equivalentes. Também seria oportuno que a universidade brasileira encontre um modo de conceder a graduação ao estudante italiano, fazendo algum exame, por exemplo — avalia Bruno.

Projetos inovadores em eletrônica orgânica e astrofísica

Um dos cientistas que apresentou seu projeto durante o workshop foi Marco Cremona, do departamento de física do Laboratório de Optoeletrônica Molecular da própria PUC, falou sobre seu projeto de eletrônica orgânica, através do qual procura desenvolver dispositivos baseados em moléculas orgânicas para aplicações em iluminação do tipo OLED, transistor OFET, células fotovoltaicas OPV e emissores e conversores para infravermelho, sensores e eletrônica flexível.

Um dos expositores, o siciliano Daniele Fulvio, de 37 anos, deu origem ao nome do asteroide 11465, batizado este ano com o nome de “11456 Fulvio”. Ele é professor da PUC-Rio e vive no Brasil há três anos, depois de atuar como pesquisador na Universidade da Virginia (EUA) e no Instituto Max Planck, em Heidelberg e Jena, na Alemanha. O nome de batismo do asteroide foi sugerido pela comunidade astrofísica internacional devido aos trabalhos de Fulvio sobre as simulações em laboratório dos processos conhecidos como space weathering (erosão espacial) de superfície dos asteroides. A homenagem foi anunciada durante a conferência internacional Asteroids, Comets and Meteors 2017, realizada em abril, em Montevidéu, Uruguai, na qual Fulvio contribuiu com uma palestra sobre os últimos resultados de sua pesquisa.

— Com certeza é uma bela sensação ver o próprio nome decolar no céu (risos). Por outro lado, indica que a comunidade científica reconhece seu trabalho. No Brasil, há especialistas no campo da astrofísica conhecidos internacionalmente. Alguns cientistas brasileiros já batizaram asteroides. Mas no meu setor, a astrofísica experimental, eu fui o primeiro — explicou à Comunità Fulvio.

Em busca da origem da vida no Universo

Um dos objetivos do cientista graduado pela Universidade de Catania é desenvolver no Brasil disciplinas ainda pouco conhecidas no país.

— Estou tentando desenvolver, no Brasil, duas disciplinas: astrobiologia (origem da vida) e astroquímica (evolução química das moléculas do Universo). Tento fazer experimentos inovadores na PUC. A disciplina é nova. Os primeiros experimentos no campo da astrofísica experimental foram feitos há 40 anos nos Estados Unidos e no Japão; 20 anos depois, começaram na Europa. No mundo há pouquíssimos especialistas. Eu sou um dos poucos — revela Fulvio.

Perguntado sobre a existência da vida fora do planeta Terra, ele responde:

— Em minha opinião, existe. Mas a questão é o que significa vida. Estamos falando em vida molecular, celular, ou se estamos falando de vida inteligente, de seres que podem viajar? Em relação à vida molecular, seria estranho se não houvesse em outros planetas, pois existem todas as condições para que se desenvolva. Acredito que daqui a alguns anos já teremos uma prova. Já a vida inteligente é mais difícil de ser provada, pois as distâncias entre os planetas são enormes.

O cientista teve um artigo recentemente publicado na revista científica americana Conference Serious, em coautoria com outros pesquisadores, sobre a reprodução feita em laboratório dos mecanismos de formaçção e destruição da poeira interestelar.

— Se descobríssemos como se desenvolveu a vida no Universo, daríamos um passo gigante na ciência.


Associação de pesquisadores italianos no Brasil

– Se você é um pesquisador ítalo-brasileiro, pode ajudar a ARIB a congregar os pesquisadores italianos atuantes no Brasil.
Preencha o formulário disponível no link:
http://bit.do/cadastro-arib

– Mais informações sobre a ARIB no site: www.aribitalia.wordpress.com