O clássico do cinema Fitzcarrado tem a sua versão ítalo-brasileira. A epopeia original, contada pelo diretor alemão Werner Herzog, inspirou o jornalista italiano Oliviero Pluviano, que criou uma expedição rumo à Amazônia. Nessa entrevista à Comunità, ele conta essa aventura do bem

POR CEJANA MONTELO

Os rios da Amazônia são verdadeiras rodovias no meio da floresta e transportam também cultura e arte. Além de carregamentos de madeira, suprimentos, alimentos, remédios, mercadorias, combustível e passageiros, os rios estão levando também alegria e entretenimento para as populações ribeirinhas e indígenas da região.

O projeto, batizado de Fitzcarraldo, é resultado do trabalho do jornalista italiano Oliviero Pluviano, que transformou o sonho de levar cinema e música para a floresta. Proprietário do barco-gaiola Gaia, embarcação típica da Amazônia para o transporte de passageiros em redes e cargas, o italiano se inspirou no filme Fitzcarraldo, estrelado pelo ator Klaus Kinski. Oliviero pilota essa aventura desde 2011 e, entusiasmado com a receptividade e alegria dos ribeirinhos, anunciou que a próxima edição do projeto começa no mês de abril e vai até agosto de 2018.

Em 2017, a expedição do Gaia percorreu os rios Tapajós e Arapiuns, afluentes do Amazonas, e levou filmes e espetáculos de circo para 150 comunidades e 1500 crianças e adultos que nunca tinham ido ao cinema. O plano para esse ano é subir o Amazonas e alcançar também plateias com o mesmo número de pessoas.

Na programação do projeto, se destaca tanto o cinema da Itália como o do Brasil. E o resultado sempre surpreende o capitão do Gaia. Segundo Oliviero, as comunidades se encantam com a experiência da Sétima Arte. Desde o premiado A Vida é Bela, do italiano Roberto Benigni, com roteiro de guerras, até o filme Rio, com florestas, fauna e contrabando de madeira, foram sucesso de público entre os ribeirinhos.

— Foi incrível que assuntos como Segunda Guerra e nazismo tenham sido tão envolventes e interessantes, apesar de tão distantes da realidade dos ribeirinhos. Os índios adoram e choram com essas histórias. É gente simples que se comove muito no cinema — analisa.

Circuito percorre diversas cidades ribeirinhas, além de Belém e Manaus
A novidade da expedição Fitzcarraldo em 2018 é o Concerto na Gaiola, um projeto que prevê a realização de dez apresentações musicais num percurso de aproximadamente 2.400 km pelo rio Amazonas. O circuito percorre as cidades de Belém, Santarém, Alter do Chão, Alenquer, Óbidos, Oriximiná, Parintins, Maués e Itacoatiara, e tem como palco de encerramento o Teatro Amazonas, em Manaus. Encantado com os resultados da expedição, Pluviano, que também é músico, fala com emoção desse projeto inspirado na epopeia do imigrante irlandês Brien Fitzgerald que, no século XIX, planejou construir um teatro, no meio da selva, para ser inaugurado pelo tenor italiano Enrico Caruso, de quem era fã incondicional.

Os músicos que farão o Concerto na Gaiola ainda não estão confirmados, mas já foram convidados o multi-instrumentista Egberto Gismonti e sua filha e compositora Bianca. O delírio de Fitzgerald ou Fitzcarraldo, como os índios pronunciavam, foi contado pelo cineasta alemão Werner Herzog, no filme Fitzcarraldo. A obra recebeu várias indicações e o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes, em 1982.

A expedição Fitzcarraldo 2018 começa no próximo mês, quando o jornalista fará uma sondagem para solicitar autorização dos líderes das comunidades e caciques das aldeias para promover as sessões de cinema e os espetáculos de teatro com mamulengos. Oliviero recorda que, ano passado, a cacique Liliane, da tribo Jaraquí, manifestou muita resistência em receber a sessão de pipoca. Mas se rendeu aos presentes que a equipe oferece aos anfitriões, como sacos de cimento, impressoras multifuncionais, coleções de livros de literatura brasileira e produtos Bauducco.

— Apesar dessa resistência inicial, foi incrível ver depois a receptividade e interação entre a equipe do Gaia e as pessoas dessa tribo. Elas estavam muito bem adornadas e fizeram uma apresentação de dança lindíssima antes da exibição do filme —relatou.

A programação da sessão pipoca nas comunidades inclui sempre a exibição da dupla de palhaços Elis Y Pimenta, da ONG Saúde e Alegria, e uma apresentação artística do pessoal local que faz um esquenta com muitas brincadeiras e humor.

Além do concerto pelo rio Amazonas e do cinema, a edição do Fitzcarraldo de 2018 vai repetir a exibição do Teatro de Marionetes Pulcinella com o ator napolitano Bruno Leone. Em 2017, as apresentações dos fantoches foram sempre em dialeto napolitano, mas Oliviero garante que tanto os índios quanto os ribeirinhos entendiam muito bem por que a linguagem das mãos é universal.

Muito popular no Nordeste, o espetáculo de Bruno Leone viaja esse ano pela região chegando até o Piauí, estado que já conhece o trabalho dos bonecos que falam napolitano. A expedição já inspirou muita gente pelo mundo afora. Mais de 400 milhões de espectadores da China e dos Estados Unidos já assistiram ao vídeo, produzido pela emissora China Global Television Network (CGTN), e conheceram a história do barco-gaiola Gaia que leva cultura e artes aos rincões da Amazônia.

 Bauducco patrocina expedições e presenteia população com panetones
Tradicional apoiadora dos projetos culturais de Oliviero, a Bauducco abraçou o sonho desse genovês que vive há 28 anos no Brasil. Por meio da Lei de Incentivo à Cultura, a empresa patrocinou as expedições de 2017 e 2018. Além de apoio financeiro para fazer essa aventura subir os rios, ela ajudou também com a doação de panetones nos tamanhos tradicional e um especial de quatro quilos, que é sorteado em cada comunidade.

O barco Gaia é todo tematizado e estampa na sua estrutura as cores e a logomarca da Bauducco. Além da exposição, a marca aproveitou a parceria também para fazer um vídeo que documenta o percurso da expedição Fitzcarraldo pelos rios Tapajós e Arapiuns. As imagens fizeram parte da campanha de Natal da empresa na internet e alcançou a marca de cerca de oito milhões de visualizações no canal da empresa no YouTube.

Oliviero relembra que a parceria com a Bauducco é antiga e resultou em outros projetos culturais, como o 100 Nonni Procurando os Vovôs da Imigração Italiana no Brasil, que percorre o Brasil visitando comunidades italianas e entrevistando avós com mais de 75 anos que tenham boas histórias para contar. O fundador do tradicional fabricante de panetones, Luigi Bauducco, foi um dos entrevistados, e depois se tornou um apoiador fiel dos projetos culturais de Oliviero.

Novo projeto quer encontrar os nonni da Austrália
O espírito inquieto e visionário de Klaus Kinski parece mesmo flanar sobre esse genovês que, além de explorar a Amazônia, agora faz planos para desbravar a Austrália. Oliviero viajou ao país, nesse último mês de fevereiro, onde sua filha Martina faz intercâmbio. Ele conheceu a região do porto de Fremantle, às margens do Oceano Índico e próximo à cidade Perth, no oeste do país. Para sua surpresa, 40% da população da aldeia de Fremantle é formada por pescadores que vieram de Capo D’orlando, na Sicília. E como é costume, todos ainda preservam o dialeto siciliano como primeira língua.

— Além do Brasil e Argentina, a Austrália recebeu uma população grande de imigrantes italianos. E Fremantle pode ser um cenário muito interessante para produzir uma nova edição do projeto 100 Nonni com os vovós australianos — afirma.

O projeto 100 Nonni Procurando os Vovôs da Imigração Italiana no Brasil, realizado desde 2013, foi idealizado para documentar a história dos italianos quase centenários que vivem no Brasil. Com patrocínio da Fiat, que cedeu um Doblò Adventure, Oliviero já percorreu as colônias de imigrantes italianos dos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e Espírito Santo.

Do total de italianos que vivem no Brasil, estima-se que cerca de 30 mil possuem entre 80 e 100 anos. O objetivo desse projeto é reunir tais personagens em vídeo para contribuir com a memória da integração entre Itália e Brasil. Com essa iniciativa, o 100 Nonni resgata e multiplica parte importante da história desses dois países.

Um dos personagens entrevistados é o octogenário Luigi Bauducco, fundador da empresa que leva seu nome. Em seu depoimento, o nonno Luigi narra a história da família que veio de Turim para o Brasil, fugindo das dificuldades impostas no pós-guerra.

O 100 Nonni foi criado no ano do Movimento Itália-Brasil (MIB), promovido pela Embaixada da Itália no Brasil, entre 2011 e 2012. Com essa iniciativa, o idealizador do projeto foi condecorado como Cavalheiro da Itália, honraria concedida pelo cônsul-geral Mauro Marsili, em 2014.

Além de jornalista, fotógrafo e músico
Oliviero Pluviano tem 66 anos e mora no Brasil há 28. Perguntado, ele afirma que adora o país e o povo brasileiro. Está convicto da escolha que fez, mas reconhece:

— Não há país mais lindo que a Itália. A cada 40 quilômetros, muda toda a vegetação, a língua e a comida também. Mas aquela alma de brava gente que existe nos imigrantes que vieram para o Brasil, no século passado, não se vê mais na Itália. Hoje eu me identifico mais com o povo brasileiro.

Oliviero já conheceu mais de 60 países, trabalhou na BBC World, na revista Tutto Turismo e na agência italiana de notícias ANSA. Pela agência, trabalhou em Roma e depois foi correspondente em Londres entre 1987 e 1990. Deixou a Inglaterra para chefiar a redação da ANSA no Brasil que, como ele lembra com nostalgia, já contou com uma estrutura bem grande. Na época, ele se dividiu entre a redação de São Paulo e as sucursais de Brasília e Rio. Orgulhoso, o jornalista mostra uma foto ao lado do ex-presidente Lula e se lembra da cobertura que fez da Caravana da Cidadania, em 1994.

A afinidade com as artes não vem de hoje: ele também é fotógrafo e pianista. Oliviero relembra com entusiasmo de seus shows nos lendários Canecão e Hippopotamus, nos anos 1970, no Rio. Em São Paulo, fez uma apresentação memorável com a cantora Ornella Vanoni para a inauguração do Complexo do Anhembi. O genovês se estabeleceu de vez na terrinha ao se casar com Regina e ter sua filha Martina, que está com 22 anos e estuda Relações Internacionais na Universidade de Bocconi, em Milão. Atualmente ela se encontra na Austrália para fazer um intercâmbio. Enquanto prepara os próximos projetos culturais, Oliviero aproveita a companhia de Ulisse, um Border Collie que tem medo de chuva, e cuida de uma hortinha no quintal de sua casa na zona Sul de São Paulo, onde cultiva manjericão para preparar o típico prato genovês: spaghetti ao molho pesto.