A agência de classificação financeira Standard & Poor’s reduziu a perspectiva da dívida da Itália para negativa na última sexta-feira (26), embora com uma conclusão menos dura que a revisão da Moody’s, em um contexto de tesão entre Roma com Bruxelas pelo orçamento italiano

A coalizão de governo, formada pela ultradireitista Liga e pelo antissistema Movimento 5 Estrelas (M5E), optou contra o orçamento de austeridade, prevendo um déficit de 2,4% do PIB em 2019 – contra 0,8% prometido pelo governo anterior de centro-esquerda.

Bruxelas rejeitou o projeto de orçamento na última terça-feira, denunciando “um claro desvio, líquido, aceito e até reivindicado” das normas europeias.

A Standard & Poor’s encontrou razões para rebaixar a perspectiva da dívida da Itália de estável para negativa, embora não tenha degradado o rating, que permanece em BBB/A-2.

“A política econômica e fiscal do governo italiano pesa sobre as perspectivas de crescimento do país”, afirma a S&P, que não seguiu sua concorrente Moody’s – que rebaixou o rating italiano para BBB- na semana passada.

Risco de prejudicar a reativação

“A trajetória econômica e fiscal planejada pelo governo corrói a confiança do investidor”, como mostra o aumento do rendimento dos títulos italianos, diz a agência, que prevê um índice de endividamento fiscal até 2019 (2,7% do PIB) maior do que o projetado por Roma (2,4%).

“A perspectiva negativa reflete o risco de que a decisão do governo de tomar mais empréstimos não apenas exacerbe a fraqueza da posição do orçamento italiano, mas também reprima a reativação crescente do setor privado”, disse a agência.

Um alto funcionário europeu disse à agência de notícias france presse na sexta-feira que “a Itália pode ser o próximo país a precisar do ESM”, sigla para o Mecanismo Europeu de Estabilidade, um fundo de resgate europeu para países em crise.

“É uma hipótese neste momento, mas é a realidade”, acrescentou.

“Ao propor um orçamento financiado em grande parte pelo déficit, gerou-se um conflito com a Comissão Europeia e com os mercados”, disseram analistas do Fidelity International, Andrea e Alberto Iannelli Chiandetti.

Desde meados de maio, a data de início das negociações para a formação da coalizão Liga-M5E, a Bolsa de Milão recuou 22%, e a proporção entre as taxas de endividamento da Itália e da Alemanha mais do que duplicou – passando de 150 para 309 na quinta-feira.

O setor bancário, que tem 372 bilhões de euros de dívida soberana italiana em sua carteira, segundo o Banco Central, foi o mais afetado.

Os mercados e a Comissão Europeia estão preocupados com o orçamento italiano, porque o país tem uma enorme dívida de 2,3 trilhões de euros, o que corresponde a 131% do seu PIB, enquanto o resto da Europa estabeleceu o limite de 60%.

Roma tem até 13 de novembro para apresentar um orçamento revisado para Bruxelas, caso contrário, está sujeito a um “procedimento de déficit excessivo”, o que poderia levar a sanções econômicas.

O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, anunciou na quinta-feira que “confia” na possibilidade de um acordo.

Por enquanto, Bruxelas rejeita todos os confrontos frontais. “É muito importante que o diálogo continue (…) e eu não vou ser a pessoa que interrompe esse diálogo”, advertiu o comissário europeu para Assuntos Econômicos, Pierre Moscovici, na quarta-feira em declarações.

“Precisamos encontrar uma solução comum porque a Itália está no coração da zona do euro” e “não vejo a Itália sem a Europa”, disse ele.

(AFP)