Os sinais contraditórios do presidente eleito Jair Bolsonaro lançam dúvidas sobre o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE), que após quase 20 anos se encontra na reta final, apontam analistas

“O ministro da Fazenda ‘in pectore’ Paulo Guedes disse na noite do último domingo (28) que o Mercosul não era prioridade e que preferiam se abrir mais ao mundo e em busca de acordos bilaterais”, disse Carlos Malamud, do Real Instituto Elcano, com sede Madri.

Isso dá “sinais contraditórios”, segundo este analista, já que “por um lado, busca a abertura ao mundo, e o Acordo de Associação com a UE implica exatamente nisto”, mas por outro não quer tornar o Mercosul “o eixo de sua política exterior e comercial”.

Durante a campanha, Bolsonaro falou em enfatizar os “acordos bilaterais”, uma visão que vai de encontro com a negociação em curso entre os blocos europeu e sul-americano.

Para Christophe Ventura, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris) de Paris, as declarações do ultraliberal Guedes “coloca a bola no campo dos sócios do Mercosul para que esses últimos, especialmente a Argentina, cortejem Bolsonaro para ele continuar”.

Esta seria uma estratégia similar à adotada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para renegociar o Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), em vigor desde 1994, com seus vizinhos Canadá e México.

Cinco anos depois, Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, de um lado, e a UE, de outro, iniciaram as negociações, ainda hoje em curso, para conseguir um acordo comercial que, se confirmado, seria o mais importante já assinado pelo bloco europeu.

UE ‘à espera’

“O Brasil é um importante sócio em nossas negociações com o Mercosul (…) A UE está disposta a continuar reforçando esta colaboração com o novo governo”, indicou um porta-voz da Comissão Europeia. Contudo, a incerteza paira na capital europeia.

Uma fonte do Executivo comunitário reconheceu que a UE está “à espera” das intenções de Bolsonaro, que assume em 1º de janeiro.

Os ministros europeus de Comércio Exterior devem abordar o estado das negociações entre a UE e o Mercosul – cuja próxima rodada não tem data – em um próximo encontro em Bruxelas em 9 de novembro.

A última rodada de negociações em setembro foi interrompida em questões como a proteção de indicações geográficas ou o ritmo de liberalização do setor de autopeças na América do Sul. Meses atrás, críticas à falta de progresso apontavam para o Brasil.

‘A sombra dos militares’

Além do comércio, as declarações misóginas, homofóbicas e racistas de Bolsonaro se chocam com a defesa que a UE faz dos direitos humanos e da luta contra a mudança climática em suas relações diplomáticas.

“Ele é obviamente um populista de extrema direita, atrás dele vemos a sombra dos militares que estiveram no poder por muito tempo no Brasil, constituindo uma terrível ditadura”, alertou o comissário europeu para Assuntos Econômicos, Pierre Moscovici.

Os nomes da extrema direita na UE, o italiano Matteo Salvini e a francesa Marine Le Pen, não hesitaram em parabenizar Bolsonaro, enquanto o chefe do governo espanhol, o socialista Pedro Sánchez, evitou fazê-lo.

O presidente francês, Emmanuel Macron, instou o brasileiro a “respeitar” os “princípios democráticos” e o “Acordo de Paris sobre o clima”, um tratado do qual Bolsonaro anunciou sua intenção de sair, mas voltou atrás.

“Antes da campanha, ele fez declarações desconcertantes. (…) Durante a campanha, foi um pouco mais razoável. E, agora, em suas primeiras intervenções parece razoável”, diz Cristina Terra, professora de economia da ESSEC Business School.

No entanto, um sinal de sua posição delicada é que a carta de felicitações dos chefes da Comissão, Jean-Claude Juncker, e do Conselho Europeu, Donald Tusk, anunciada na segunda-feira (29), ainda não foi enviada até meio-dia de ontem (31) devido à falta de acordo entre ambos no conteúdo, de acordo com uma fonte europeia.

(AFP)